Minha mãe contando-me as novidades por telefone.

- A tia Maria veio visitar a gente ontem.

A tia Maria teve 18 filhos. Quando vem a Curitiba precisa ficar pelo menos 15 dias para nem um nem outro se sentir menos privilegiado que os demais.

Desta vez, o marido, tio Guilhermino, ficou em Laranjeiras do Sul. Preferiu não acompanhar.

Ela está com 86 anos e ele com 88 anos de idade. Têm tantos netos que já nem conhecem todos. Um dos motivos da viagem é conhecer dois deles, recém-nascidos. Recém nascidos nada. Já têm dois anos de paridos.

Um bisneto vai casar com uma neta de tia Maria. Primos em segundo grau. Tia Maria perplexa:

- Mas na minha cabeça eles nem são parentes… não consigo entender.

Perplexa mais por saber que os noivos têm sim laços de parentesco ainda que distantes. É muita gente, muito tempo, muito crescei e multiplicai-vos.

Minha mãe pergunta como vai o tio Guilhermino em seus quase 90 anos.

Tia Maria responde em voz baixa:

- Vai bem, mas, sabe… anda meio triste.

Pausa.

Voz ainda mais baixa.

- Faz dois anos que ele está impotente… mas já está conformado. Agora somos um casal de anjinhos.

A tristeza, ainda que já conformada, portanto, até faz sentido. Afinal são 70 anos de sexo. É o tempo de casado que os dois completam este ano. Depois de sete décadas de brincadeira, o cristão acostuma e depois sente falta.

O médico receitou um remédio, mas não funcionou. Provável que nem fosse algo mais forte. Apenas vitaminas. Nessa idade não é bom arriscar com novidades medicinais.

Minha mãe ousa e pergunta.

- Mas a senhora, nessa idade, ainda tinha orgasmo?

- Minha filha, eu sou uma fera…

- Não está sentindo falta?

- Ah… sabe que eu já estava até meio cansada?

E deu um suspiro nostálgico, com ar suficiente para mostrar que ainda tem muito fôlego.

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