Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
1 ago 2010
Minha mãe contando-me as novidades por telefone.
- A tia Maria veio visitar a gente ontem.
A tia Maria teve 18 filhos. Quando vem a Curitiba precisa ficar pelo menos 15 dias para nem um nem outro se sentir menos privilegiado que os demais.
Desta vez, o marido, tio Guilhermino, ficou em Laranjeiras do Sul. Preferiu não acompanhar.
Ela está com 86 anos e ele com 88 anos de idade. Têm tantos netos que já nem conhecem todos. Um dos motivos da viagem é conhecer dois deles, recém-nascidos. Recém nascidos nada. Já têm dois anos de paridos.
Um bisneto vai casar com uma neta de tia Maria. Primos em segundo grau. Tia Maria perplexa:
- Mas na minha cabeça eles nem são parentes… não consigo entender.
Perplexa mais por saber que os noivos têm sim laços de parentesco ainda que distantes. É muita gente, muito tempo, muito crescei e multiplicai-vos.
Minha mãe pergunta como vai o tio Guilhermino em seus quase 90 anos.
Tia Maria responde em voz baixa:
- Vai bem, mas, sabe… anda meio triste.
Pausa.
Voz ainda mais baixa.
- Faz dois anos que ele está impotente… mas já está conformado. Agora somos um casal de anjinhos.
A tristeza, ainda que já conformada, portanto, até faz sentido. Afinal são 70 anos de sexo. É o tempo de casado que os dois completam este ano. Depois de sete décadas de brincadeira, o cristão acostuma e depois sente falta.
O médico receitou um remédio, mas não funcionou. Provável que nem fosse algo mais forte. Apenas vitaminas. Nessa idade não é bom arriscar com novidades medicinais.
Minha mãe ousa e pergunta.
- Mas a senhora, nessa idade, ainda tinha orgasmo?
- Minha filha, eu sou uma fera…
- Não está sentindo falta?
- Ah… sabe que eu já estava até meio cansada?
E deu um suspiro nostálgico, com ar suficiente para mostrar que ainda tem muito fôlego.
2 comentários para "E a senhora, tia Maria, não sente falta?"
Hahaha, que história maravilhosa!
Usei um dos trechos no meu Tumblr: http://umpulha.tumblr.com/post/918485750/. ABS!
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