Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
6 nov 2007
Então enlaçou-me a nuca com o cinto e puxou-me com mais vigor o rosto em sua direção. Senti-me sufocar subitamente, pois ela fez isso no segundo em que eu soltara o ar. Sem me importar com isso, lancei ainda mais à frente a língua e agarrei-me fortemente às coxas que envolviam minha cabeça. As pernas então taparam meus ouvidos. Assim ensurdecido, espremido pelos músculos que se contraíam ao meu redor, se eu fechasse os olhos pensaria que estava sob o mar, com ondas a passar sobre meu corpo. O que antes eram gemidos tornou-se uma pulsação que eu não sabia mais se vinha das artérias daquelas coxas ou das veias que saltavam em minhas têmporas. Sem fôlego, fiz ainda alguns movimentos com a boca, gemi, suguei, tentei dizer algo, que soou como um murmúrio, e mesmo assim ela não afrouxou a minha prisão. Estava comigo, mas em outro mundo, como em um transe latejante. Então mordi. Com doçura, o suficiente para chegar ao limiar que há entre o prazer e a dor e sentir a delícia percorrer sua virilha em forma de tremor e arrepio. Suficiente para que, assim, a sua musculatura descontraísse e o cinto se desapegasse um pouco de minha nuca. Recuei, a fim de tomar fôlego. Agora, uma frincha de milímetros entre minha boca e ela permitia que o ar penetrasse minhas narinas novamente. Ela entendeu e, assim que percebeu que eu tinha respirado o suficiente, de novo – com o cinto que há pouco a imobilizara – puxou-me com ainda mais força, como se quisesse que eu entrasse inteiro, da cabeça aos pés, para dentro dela.
Dor
- Dói?
- Não, não dói.
Era o garçom. Na verdade, ele perguntou outra coisa.
- Vinho?
É sempre um pouco constrangedor para um homem ser flagrado com os olhos úmidos em um lugar público. Era um coquetel de lançamento de uma exposição de fotografias. Eu via uma mulher vítima de câncer. Um trabalho sensível que mostrava como ela mantinha ainda atitudes para sentir-se bela e feminina, ainda que diante da morte inevitável nas semanas finais, que preferiu passar em casa, em vez de ser cercada por médicos e enfermeiros.
Era uma mulher doente, isso era visível. Calva pelo tratamento. Em algumas imagens já magra, os ossos evidentes. Frágil e, ao mesmo tempo, forte. Forte.
Dizem ser a morte o momento mais solitário. Amigos e familiares, como os que a rodeavam naquele momento, de nada adiantam nessa hora. Mas vi. Vi a seqüência de imagens e entendi que ela se bastava. Feminina, bela e sólida.
Compreendi, ao olhar para aquilo tudo, que somos do nascimento à morte muito sozinhos. Alguns seguem mais cedo, mas todos seguirão. Precisamos ser belos e fortes da maneira que pudermos. Não há outra forma.
Ninguém precisa depender de ninguém. Mesmo porque isso, na realidade, não é possível.
- Não, obrigado. Não bebo.
Não-dor
- Afaste as pernas.
Deitada de bruços, ela virou a cabeça e olhou-me por sobre o ombro. Voltou-se novamente para o colchão, sem dizer nada. Bati de leve com o chicote de montaria.
- Afaste.
Novamente, olhou-me. Dessa vez disse:
- Não.
Bati com uma intensidade um pouco maior.
- A próxima vai doer.
Impassível.
Bati de novo. Dessa vez estalou alto. O som cortou a madrugada. Ela ainda deixou escapar um gemido e disse:
- Hm… esse som…
Afastou as pernas. Mas logo voltou a fechá-las em desafio. Comecei novamente.
- Afaste as pernas.
Até o momento em que o chicote estalou novamente. Iria ficar uma marca.
- Não. Você é bonzinho.
Parênteses
(Aqui parei para pensar se usaria neste texto uma frase como “Então, desta vez, alguém no prédio deve ter acordado com o barulho”. Causaria um bom efeito, talvez, mas não corresponde à realidade. Pois, ao ouvir aquilo larguei o chicote, soltei suas pernas, seus braços e me entreguei à sua vontade.)
Olhar
Por entre as pranchas em que as fotografias estavam expostas era possível ver o rosto das pessoas que olhavam as imagens penduradas do outro lado e que percorriam os corredores da exposição.
Essa garota tinha uns olhos grandes e azuis. Não era absolutamente bonita. Mas parecia ter saído de uma pintura. Fiquei muito perto da fresta que nos separava e a observei de muito perto. Ela estava tão impressionada com a imagem que agora via que nem percebeu o quanto então eu estava perto. E eu estava tão impressionado com a imagem que agora via que nem percebi o quanto então eu estava perto. Perto dela.
Nossos olhares, então, se cruzaram.
Não, não se cruzaram. De outro modo, eu correria como se tivesse sido flagrado no pior dos crimes.
Sonho
Sonhei que um terremoto atingira a Terra. As pessoas andavam sem rumo pelas ruas. Algumas com malas com os poucos pertences que restaram, outras sem nada, errantes. Não havia mais telecomunicações, todas as construções caíram, as usinas de energia foram destruídas. O mundo entrou em colapso, a vida como era conhecida paralisou-se.
Entre os escombros, nossos olhares, então se cruzaram.
Sim, se cruzaram. E, pela mão, ela conduziu-me a um recanto impossível naquela destruição. Deitamos no macio. Estava quente, mas havia uma brisa. Últimos minutos de sol. Ninguém nos via ou nos ouvia. As pessoas passavam pelos corredores formados pelos escombros e nos ignoravam.
Você contemplou a carne atravessada.
- Dói?
- Não, não dói.
E ver sua língua passear pelo piercing era uma fotografia, um filme, como tivesse vida própria, a saborear meu mamilo. O som dos dentes a bater levemente no metal, uma sinfonia.
E então a solidão que acompanha cada ser humano subitamente dissipou-se naquele instante, naquela visão tão simples. Ilusoriamente ou não. Não importa.
Acordei.
Antes de despertá-la, porém, cuidei de prender cuidadosamente suas pernas com um cinto.
4 comentários para "Dor e não-dor"
Nossa, Alê! Você sabe como prender um leitor.
Adorei a forma como você construiu o texto. A cada parte eu criava minha própria narrativa, imaginando o que viria depois.
Meus parabéns!
Desenhando com as palavras, né?
Bjos
“…puxou-me com ainda mais força, como se quisesse que eu entrasse inteiro, da cabeça aos pés, para dentro dela”.
hmm…texto mui interessante senhor alessandro
, adoro essa tua forma de descrever esses momentos
Adorei o texto
Parabéns!! o.o
Exuberante a forma como seus textos me prendem… nesse em especial, gostei muito da forma como intercalou as narrativas!! ^^
Muito bom!! *-*
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