(Publicado originalmente no conteúdo antigo de Cracatoa Simplesmente Sumiu)

Dez dedos sozinhos são dez dedos tristes e são poucos para contar os minutos quando alguém vai embora. Dez dedos são apenas dez dedos e nada seriam se fossem vinte, desentrelaçados. As esperas vazias não cabem na concha das mãos. Por definição, toda concha é oca. O abstrato é intocável na pele enrugada em que algum carinho ressona, reservado por ora a gestos feitos no ar. Eles, os dez, mais tristes que três tigres tristes, cada um contendo três desses felinos mendigos e melancólicos, não dão conta de enxugar o rosto e servem, se tanto, para escondê-lo. Nada agarram, nada seguram, nada apalpam, nada dizem suas terminações nervosas ao coração. De nada servem. Úteis para amarrar os sapatos, arrumar as malas, abrir e fechar portas cada vez mais pra trás. E apagar as luzes. Na simplicidade de apertar um botão. Com apenas um dedo. Tentar a sorte em algum outro lugar. Rodar os dados, da palma pálida para o verde da mesa. Dez dedos sozinhos não é algo com que se possa contar. Dez dedos tristes sequer conhecem o caminho feito pela água salobra, do olho ao queixo, do queixo ao chão, do chão ao ar, do ar para o invisível.

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