Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
11 abr 2008
Chegarei em casa cansado depois do trabalho e, como fazem os imprudentes, por esquecimento, deixarei a porta aberta. Não tenho medo de ladrão. Tenho medo de que você não entre no segundo seguinte.
Tenho medo que não tenha sido você a me seguir agora há pouco, no caminho, como medo tenho de que, com a porta aberta, sem você entrar, o telefone não toque depois da próxima respiração. Receio que eu olhe para a cama e veja apenas um travesseiro e não dois, lado a lado enquanto aguço os ouvidos e não escuto nenhum som na casa que dê pistas de sua presença. Fico assustado com o fato de talvez nunca mais levar a tevê para o quarto, pois eu sempre assisto aos filmes na sala. E, sob as cobertas, não redescobrirei mais uma vez, como sempre, antes do filme terminar, o seu prazer secreto de adormecer no meio da história. E eu sei que adormeceu, pois seu corpo tem os pequenos espasmos de quem realmente caiu no sono. Quantos finais de filme deixei de inventar na manhã seguinte. Não quero deixar de sentir que adormeceu. E eu sempre sinto, pois sua cabeça repousa no meu ombro. Não quero também acordar sobressaltado na beirada do sono e descobrir que estou só, como quem percebe que estava apenas sonhando. Não posso abrir mão de, ao despertar, ir tomar café em sua companhia com intenção de chegar a algum lugar, errar o caminho e chegar a outro. O lugar não importa afinal de contas, mas sim a manhã compartilhada. Eu pergunto como é possível que eu abra mão da cumplicidade que há em trocar um compromisso pelo compromisso de não ir e ficar a sós. E pergunto também se alguma vez deixei de dizer as coisas importantes e nunca deixei de dizer e talvez tenha sido meu erro. Porque uma vez pedi dois dias e ganhei todo tempo do mundo. E todo tempo do mundo é o que eu não desejo agora. Queria apenas um minuto. Queria os bolinhos que você me fez numa de suas primeiras visitas. Queria agora até o saco plástico de lixo que marcava o muro de sua casa para eu não me perder. Queria o não-beijo que nos demos naquela noite e você estava especialmente linda e, se assim estava, era para mim. Não nos beijamos, mas o desejo era muito concreto para que deixasse de ser algo, ainda que sua negação. Me arrepia pensar que a moça da panificadora possa perguntar onde anda aquela menina sorridente e eu ter que dizer que não andamos sorrindo juntos ultimamente. E me entristece saber que a foto do copo de leite que me deu – e foi uma forma silenciosa que encontrou de estar sempre presente em minha casa – me olha ainda mais triste que eu quando passo pelo corredor. As lâmpadas nos postes que se apagavam à nossa passagem, a maneira como você riu quando eu disse que eu queria desintegrar metade das pessoas que entupiam o bar, o beijo estalado no cinema silencioso que nos encheu de vergonha, Robin Hood na floresta, o cachorro-quente vegetariano, nossos corpos refletidos juntos em todos os vidros e vidraças do apartamento, você lendo pra mim os seus livros preferidos, o seu banho longuíssimo pela manhã, o ir buscar você no trabalho aos sábados, as fotos de nós dois juntos que coloquei na gaveta sem olhar para elas, o recado colado no carro – que não descolei -, a cortina pendurada no lugar errado, o cachecol que vi nascer de suas mãos, o seu copo para coca-cola que comprei e quebrei sem querer, o caqui mais gostoso que passou pela minha boca, o seu jeito de colocar expressões em inglês no meio da conversa, a piada entendida sobre a Metamorfose, de Kafka, a lâmpada do quarto com mal contato, o travesseiro novo que comprei pra você, você dizendo que desde a adolescência não se divertia tanto, o seu cereal que nunca me invadiu como se as caixas fossem um exército, o clic-clac de seus sapatos ao se aproximar da porta e depois você batendo de leve para não me assustar com a campainha barulhenta, a campainha barulhenta que sempre nos assustava, as minhas férias que também foram suas, as bolhinhas de sabão que seu cachorro gostava de comer, o miojo com aspargos e cogumelos, a nossa fuga não realizada para o Canadá para você trabalhar e me sustentar enquanto escrevo, a comida da geladeira que eu sempre perguntava se estava estragada, a coruja que vimos no caminho da casa de sua mãe, os pombos veranistas, o seu choro na canção de O Fantasma da Ópera, o jogo de Super Trunfo, o barulho dos vizinhos, as conversas sobre tênias na madrugada, o dia que comprei a girafa, o caleidoscópio e o pau-de-chuva, o dia em que vimos uma criança com um pau-de-chuva e como ele fazia barulho de chuva ao ser movido, o doce de leite com a vaquinha desenhada, as torneiras falantes, a orquídea que agora viceja no jardim de minha mãe, o cinema de graça, o cinema pago, o botom do snoopy e o outro também, o dia em que você me olhou soltando pipa com o menino e os seus olhos eram os olhos de quem via o homem da sua vida, o homenzinho que cai da cama avisando que é hora de você dormir, os cupcakes, as histórias em quadrinhos, o CD raro do Tom Waits, o ingresso para o show que quase comprei, mas não comprei porque você já tinha credencial, o já-passa-já-passa, a temperatura nem muito quente nem muito fria e isso não é bom, nada bom, o acordar contrariada por ter brigado comigo no sonho, o tudo que eu olho aqui e você tocou. O tudo que eu olho aqui e você tocou. O tudo que eu olho aqui e você tocou. Todas essas coisas sem verbo, sem adjetivo, sem predicado, sem sujeito. Apenas elas. E certamente faltam algumas. Por isso, deixo a porta aberta. Não tenho medo de ladrão. Elas não podem ser levadas. E talvez nem interessem. Mas tenho medo de que você não entre no segundo seguinte.
8 comentários para "Deixarei a porta aberta"
poxa, alessandro, acompanho sempre os seus textos aqui, silenciosamente, mas esse me tocou de maneira especial e resolvi te escrever. porque é bonito, porque sempre sou eu quem deixa a porta aberta, porque nem sempre se percebe todas esssas coisas que você falou quando se está perto. que bacana, parabéns. gosto muito do que você escreve.
abraço,
melissa
Quando penso que não existem pessoas que
que prestam atenção em coisas simples como as narradas por você, esqueço que estou generalizando. Então é bom ler e reler e pensar
“ele tem uma Júlia que o faz deixar a porta aberta” e fico feliz por isto…
Uma descrição memorável de um sentimento confrontado com o medo da ausência. Tudo descrito em torno daquela banalidade de abrir uma porta. Digno de um Francis Ponge. Parabéns com abraços.
E então fiquei tão sensibilizada com seu texto que coloquei um link pra mostrar onde encontrar esta maravilha.
Inefavelmente inegável areditar que alguma pessoa possa ler “Deixarei a porta aberta” sem emocionar-se. É de uma classe de textos – como “É preciso não esqecer nada” de Cecília Meireles – que me instigam a definir os atos e conceitos sobre minha vivência sentimental.
Fico feliz que esse texto tenha tocado você dessa maneira, Marina… Beijos do Ale…
Este texto agradou e sensibilizou provavelmente a maioria dos que leram e comigo não foi diferente. Gostei mesmo do texto, parabéns!
Perfeitoo ,muito lindo alê, é sempre bom ler suas historia
ficamos sempre mais humanos,parabens!! bjusss
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