Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
18 jul 2008
A meu amigo Helon;
a dedicatória ficou um pouco diferente disto no livro,
mas, se eu a escrevesse inteira, não caberia.
Não se diz de um homem que ele é bom ou mau da mesma forma que se diz do clima ou do trânsito ou da sorte. Nessas ocasiões – de tempestade, engarrafamento ou prejuízo -, se dá um caráter absoluto para o adjetivo, ainda que erroneamente.
Os homens, essa espécie de que fazemos parte, são bons ou maus assim como os frutos, em verdade. Se dizemos que um homem é mau, é como se mau fosse o produto da árvore. Ele, como o fruto, não é um representante do mal, um congregado das hostes infernais. Somos – homens e frutos -, limitados pelo tamanho de nossas capacidades e incapacidades, doçura e amargor, a não abarcarmos o bem e o mal absolutos.
Trata-se de uma situação bem mais singela e bem menos cinematográfica: um mau fruto apenas deixou de prestar, apenas deixou de ser bom. Não serve mais para alimentar, enfeitar ou fazer doce.
Mas a comparação continua pobre, pois – diferente dos frutos -, um homem mau pode voltar a ser bom. E aos vegetais só resta o abraço da terra.
Independentemente disso: sei que você é um homem bom, meu amigo, e torço para que jamais deixe de sê-lo. Para que, assim, não tenha que cumprir a dolorosa jornada que é voltar a sê-lo. Ou para que não tenha que ficar no exílio de solidão em que os maus voluntariamente se colocam, apartados dos semelhantes mesmo quando próximos fisicamente: eles sabem que se afastaram e é o que basta.
Por isso, não se deixe corromper por pouco, não se deixe corromper por muito, não se deixe corromper por nada. Mesmo os grandes amores, caso corrompam, devem ser questionados. Afinal, como podem ser verdadeiramente grandes, se não servirem para nos tornarem bons ou ainda melhores?
Ao descobrir que não existe volta para casa, toda viagem se torna grandiosa. Afinal a casa muda, o homem também muda. Busca-se o além, ainda que os reencontros sempre sejam possíveis. Torço por você nessa aventura, para que mude – não há muita escolha quanto a isso -, mas também para que continue o homem bom que é.
Do seu amigo, que lhe deseja uma boa viagem.
Um comentário para "Dedicatória de despedida para um amigo*"
“Ao descobrir que não existe volta para casa, toda viagem se torna grandiosa.”
Fantástico.
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