Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
5 ago 2010
Dédalo é desses personagens secundários fundamentais, sem os quais os protagonistas não chegam a seu fim e tampouco a história se desenrola.
Claro que o Minotauro chama mais a atenção. É o que eu mais lembro da série infantil O Sítio do Pica-pau Amarelo, em sua primeira versão.
O monstro às vezes obtinha uma licença de seu labirinto a fim de raptar Tia Anastácia que, com seus deliciosos bolinhos, permitiria uma pausa em sua dieta de jovens atenienses.
Mas a importância de Dédalo voltou para mim quando, em O Herói de Mil Faces, Joseph Campbell chama atenção para o fato de que esse personagem encarna o artista-cientista que se coloca acima da ética do seu tempo e aplica a si apenas a ética devotada à sua arte.
Primeiro ele é chamado a resolver um problema da rainha, esposa do rei Minos, de Creta.
Minos enganara Posêidon, deus do mar, e ficou com o touro branco enviado pela divindade como sinal de boa fortuna. O vingativo Posêidon fez com que a rainha se apaixonasse pelo animal.
Ela, por sua vez, chama Dédalo para solucionar sua paixão. Ele cria uma vaca de madeira, na qual a rainha entra e, assim, enganam o touro.
Tempos depois ela tem um filho que é a cara do pai. Ou seja, tem a cabeça de um bovino.
Ciente de sua culpa, agora é a vez de Minos chamar Dédalo. Pede que ele construa em Cnossos um labirinto onde irá morar o Minotauro.
E assim o faz Dédalo. E é um labirinto de tal forma complicado que ele mesmo quase fica ali preso.
O Minotauro, confinado nessa construção, é periodicamente alimentado com jovens atenienses, sete homens e sete mulheres, enviados de barco de nove em nove anos, sob ameaça de guerra a Atenas.
A filha de Minos, Ariadne, se apaixona por um deles, Teseu.
Então Dédalo é novamente convocado. Ariadne lhe pede que ensine uma maneira de Teseu conseguir decifrar o labirinto.
E ele lhe dá um carretel com fio de linho. Basta que a ponta seja presa na entrada do labirinto. Depois de matar o monstro, Teseu só precisou enrolar novamente a linha.
Note como Dédalo apresenta soluções para as questões geradas por soluções anteriores. Age sem se perguntar se o que faz na verdade desfaz o que realizou anteriormente.
Então, Dédalo precisa solucionar o problema gerado pela última solução que, por fim, o envolve diretamente.
Ele é preso por Minos por ter ajudado a matar o Minotauro. Com o filho, Ícaro, é condenado a ficar dentro do labirinto até o fim de suas vida. Conhece as saídas, mas estão todas vigiadas por guardas. Então, cria umas asas feitas de penas e cera. Mas, como diz Michael Ende, esta é uma outra história e deverá ser contada em outra ocasião.
Dédalo, mesmo não sendo essa a intenção do livro de Campbell, me faz lembrar uma frase que ouvi de alguém certa vez: a informática nasceu para resolver os problemas criados pela informática.
Mais do que representar um artista-cientista arquetípico, creio, Dédalo representa a própria Ciência. É quase uma força natural, uma entidade inconsciente, movida por algo que está além de um controle individual. Como todo bom personagem, encera em si muito mais uma idéia universal que uma noção individual.
Para chegar à conclusão que desejo, quero usar exemplos não mitológicos e bastante conhecidos.
Como Santos Dummont, que reagiu mal ao uso de sua invenção, o avião, para a guerra. Ou Einstein, quanto à bomba atômica. Mesmo as usinas nucleares não são grande coisa do ponto de vista ecológico. Eles, como tantos outros cientistas, são instrumentos da Ciência – que como mostrei pode ser simbolizada por Dédalo -, através dos quais ela se manifesta.
A Ciência é como uma chave. Se você perguntar, provavelmente uma hora ou outra ela trará as respostas. Ela abre portas. Basta colocá-la na fechadura e girar o tambor.
Mas não se sabe se além do batente estará um minotauro. Talvez seja necessário abrir outra porta, então, para enclausurá-lo novamente.
E, então, mais Ciência.
Um comentário para "Dédalo, um personagem secundário fundamental ou A Ciência, que bacana"
Olá, Alessandro! Belo texto novamente. Indiquei-o no meu Tumblr: http://umpulha.tumblr.com/post/952106868/. ABS!
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