Cada vez que alguém ligado à cultura diz ter escolhido Curitiba para estrear porque essa trata-se de uma cidade teste, tenho a impressão de que quem está a testar algo é ele, que, nesse instante, põe à prova minha paciência.

Existe uma crença, abençoada pelo senso comum, de que um espetáculo que agrade a platéias mais exigentes, certamente cairá também nas graças das menos aquilatadas. Coisa que, obviamente, não é verdade.

Afinal, sem querer fazer julgamento de valor, não há como imaginar que pessoas que admiram Sandy e Júnior venham a gostar de Ná Ozzetti ou vice-versa. Na verdade, uma coisa nada tem a ver com a outra. É óbvio que, se uma peça ou show funciona com um público muito crítico, não funcionará com um menos crítico.

Muito mais prudente usar uma cidade de gosto médio para testar um produto, seja ele uma adaptação de Alexandre Dumas para bonitinhos globais (aposto que ninguém lembra de Os Três Mosqueteiros), seja maionese, seja um novo detergente líquido. Dá na mesma. Alguns adoram, outros detestam, mas todos ovacionam em igualdade.

E, nesse caso sim, Curitiba é a cidade perfeita. Prova disso é que a maior parte, se não a totalidade, das louras socialites curitibanas que frequentam teatro uma vez por ano – em sistema de revezamento – só conseguirão notar a diferença entre a orquestra e o Bonde do Tigrão somente pelo fato de que os primeiros usam casaca.

Nesse caso, a cidade seria uma espécie de exame de mediocridade, mas esse título não seria nada abonador. Portanto não vamos dizer tal barbaridade da auto-proclamada capital cultural. Ou então digamos, mas não sem admitir a possibilidade de xiliquinhos, ahs! e ohs!

Das tais louras socialites.

É possível ir além, no entanto. Curitiba pode sim ser encarada como uma espécie de sparring cultural, perfeita para dar confiança a um elenco ainda inseguro, da mesma forma com que o campeão de boxe esmurra com desenvoltura seu auxiliar menos dotado até ficar com os braços exaustos. E a cara do outro com a aparência de uma picanha mal passada.

Os treinos de cavalos de corrida incluem, por exemplo, parelhas com animais menos velozes a fim de que o potro se acostume a estar na frente e, aos poucos, passe a acreditar mais nas próprias patas.

De fato, o público da capital das araucárias ajuda em muito para que artistas menos qualificados ganhem mais fé, não nas patas, que eles ainda não chegaram a tanto, mas em sua pífia interpretação. Ainda que seja uma atuação capenga, calcada em um texto bisonho, com uma direção aleijada.

Pois a parte de que o curitibano mais gosta nos espetáculos é o final, quando pode, finalmente, depois de muita ansiedade, aplaudir em pé. A salva entusiasmada em posição de sentido é uma espécie de instituição local.

Para o curitibano médio, aplaudir em pé é uma espécie de selo de qualidade que só por ele pode ser auferido. Tal carimbo é, no entanto, distribuído fartamente e coloca a Filarmônica de Berlim e a Sinfônica de Tribobó do Oeste em pé de igualdade.

As platéias curitibanas aplaudem tudo em pé. Creio que, se não fosse no início da noite, aplaudiriam em pé até mesmo a afinação dos instrumentos antes dos concertos.

Há algum tempo, eu imaginava que isso se devia à pressa de ir embora. Aplaudir em pé seria então uma maneira de unir o inútil ao desagradável, ao juntar o ato de deixar a cadeira e a atitude de dispensar os serviços dos atores ou músicos.

Abandonei essa tese depois que observei que algumas ovações duravam mais do que dez segundos para apresentações que mereceriam bem menos. Passei a acreditar nas hipóteses médicas que levariam a crer em alguma dificuldade em permanecer sentado ocasionada pela água distribuída por aqui, pela comida ou alguma coisa assim. Porém o bom senso, fez com que eu abandonasse também essas hipóteses. Hemorróidas nunca foram epidêmicas, endêmicas ou mesmo pandêmicas.

Outra possibilidade é o costume, dado que nos horários de maior pico os ônibus da cidade ficam entupidos, com longas filas e, lugar, só em pé. Mas essa também foi deixada de lado. Primeiro porque a maior parte dos freqüentadores dos espetáculos – esses que buscam a avaliação da capital ecológica – não costumam andar de ônibus, pelo menos nesses horários mais drásticos. Segundo porque ninguém em sã consciência é capaz de aplaudir uma tarifa de R$ 2,20. Nem mesmo as platéias curitibanas.

O público médio daqui também não pode dizer nada das poltronas do Teatro Guaíra, muito macias, verdadeiro convite para nádegas fatigadas.

Eliminada a última chance, só se pode admitir que a causa é genética. O curitibano é um hospitaleiro congênito que recebe bem até mesmo aqueles que lhe agridem com maus espetáculos, péssimas montagens, shows indecentes financiados pelas leis de incentivo à cultura (com seu próprio dinheiro, portanto) Nada mais cristão: se lhe derem um tapa, ofereça então um aplauso.

Sobre essa história toda de “cidade teste”, porém, alguém mais sábio já disse que o curitibano não é crítico, mas crica.

Porém, aplaudindo tão entusiasticamente a qualquer peça de quermesse, conclui-se facilmente que ele não chega a tanto.

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