Vinte para meia-noite na rodoviária de Laranjeiras do Sul. O meu ônibus só às seis da manhã. A essa hora estão todos em suas casas preparando as taças para o champanhe ou os cristais cica para a sidra. Ninguém à vista. Uma explosão de fogos ou outra mais ansiosas denunciam a proximidade da virada. Ninguém à vista. Só eu nesse banco a esperar. Nem os motoristas de táxi estão no ponto. Pelo menos a noite está quente e, se eu quiser dormir aqui mesmo, não passarei frio.

- Ei.

Quase dou um pulo. A voz próxima e inesperada. O segurança me estende um copo plástico na extensão de um uniforme cáqui, de manga gasta e meio suja. Adivinhei o brinde.

- Desculpe, senhor. Não bebo. Mas aceito a companhia.

- Nem no ano novo?

- Nem no ano novo.

Às vezes sou inflexível. Para certas coisas sou, sim, inflexível. Talvez por isso eu esteja aqui no meio do interior do Paraná, longe de tudo, de todos. Sem dinheiro e sem vontade de ganhá-lo. Sem amigos e sem vontade de conquistá-los.

O nome dele é Antônio, descobri nas poucas palavras que trocamos. Sentou-se a meu lado e ficou a maior parte do tempo em silêncio. Sinto que ele já havia bebido um pouco mais do que aquele copo que me ofereceu e outro que já esvazia. Está naquele estado pensativo em que o álcool nos arremessa, às vezes.

Eu, por minha vez, também estou em um estado pensativo ainda que não tenha bebido nada. Não sei por que, lembro dos meus cães. Desde que meus avós morreram passei a acreditar secretamente que eles eram os velhos, reencarnados. Talvez pelo amor e devoção gratuitos que demonstravam loucamente ao me ver chegar na casa de meus pais. Mas não podia ser. Os meus avós ainda eram vivos quando os dois, um cão e uma cadela, foram deixados no nosso quintal, debaixo de chuva.

Fecho os olhos por um instante e como nada tenho a fazer a não ser estar ali, conto os fogos. Chego até vinte. Abro os olhos. Antônio não está mais ali ao meu lado. Saiu silencioso como chegou. Meu avô era enfermeiro e acostumado a andar nos corredores da Santa Casa, tinha um passo inaudível, incapaz de incomodar os doentes que dormiam. Ele dava ao valor ao sossego dos que sofriam e tinham no sono alguma trégua. Mas ninguém dorme no ano novo.

Em Nova York esperam a maçã que se incendeia ou a cascata de prata que cai de um edifício; em Copacabana, a queima de fogos em alto mar; em Curitiba, em Curitiba, nem lembro o que há em Curitiba. Aqui, em Laranjeiras do Sul – como vim parar aqui? – eu e Antônio, o velho vigilante da rodoviária, somos o espetáculo e ninguém está aqui para ver. Onde estão as emissoras?

Novamente. Cerro as pálpebras e conto as explosões. Agora está mais difícil. São muitas. Não preciso olhar no relógio para saber que faltam menos de cinco minutos para 2006. Ao abri-los, novo susto. Outra vez, a manga puída do uniforme de Antônio me estende um copo plástico.

- Desculpe, Antônio. Eu não bebo.

- Pode beber. É refrigerante de framboesa. Você bebe framboesa, não é?

Diz que foi buscar em casa. Mora ali perto. Está feliz. Sorri.

Sinto-me tolo. Aceito o copo. Fazemos um brinde e engulo a bebida com uma sede enorme. Meia-noite. Nos abraçamos e desejamos um ao outro a felicidade em 2006. Em silêncio ouvimos os fogos e admiramos os clarões agora cada vez mais raros. Sentamos e eu lhe conto como vim parar ali. Ele me ouve sem julgamento e atento. Afinal, adormece. E eu também. Não me importo que o vigia noturno durma na madrugada do dia primeiro. Acho que ninguém se importa.

Acordo com a luz do sol que começa a surgir. Antônio já deve ter ido para casa. Os copos plásticos ao lado do banco provam que ele não era um fantasma ou coisa assim.

Daqui a pouco, eu parto. A felicidade, distante. Não me importo em ir de ônibus. Tenho de chegar de qualquer maneira.

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