Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
16 mai 2007
Fiz quinze anos e intuí que minhas perversões garantiam um futuro pouco promissor como catequista. Além disso, eu preferia cantar e pular com as crianças a ler o livrinho chato para elas. Um dia cheguei para uma daquelas velhinhas e disse:
- Pegue minha turma pra você. Ou distribua os alunos entre os outros professores. Isso não é pra mim.
Referia-me ao livrinho chato, que estendi para ela, à religião católica e a tudo o mais. Daquele dia em diante resolvi dedicar-me a outras taras.
Foi preciso mais de uma década para que eu encontrasse Jesus novamente. Desta vez nos vimos face a face em uma situação extremamente profissional. Ele como entrevistado, eu como entrevistador. Lá estava eu, em um banco de igreja e Inri Cristo em seu altar, sentado no seu trono.
Para os da minha geração, sem dúvida, a religião católica e outros universos mitológicos como o dos super-heróis das histórias em quadrinhos foram origem de uma série de, vamos chamar assim, meio a contra-gosto, desvios sexuais. Perceba que mudei de assunto, assim de repente, para você dissipar essa imagem por demais marcante de um repórter careca frente a um suposto Cristo com uma cabeleira ornada com uma coroa que tem os espinhos voltados para fora. Depois a ela, à imagem, voltaremos.
Esses dias fui a um casamento em uma igreja em Santa Felicidade, bairro conhecido pela gastronomia italiana aqui em Curitiba. Olhei para o teto e, no afresco ali pintado, uma santa, se assim podemos chamá-la na acepção popular da palavra, segurava um machado sangrento. A nuvem da memória seletiva me impede de dizer com precisão se havia uma cabeça decepada na pintura ou não. Adiante via-se uma estátua de um santo atravessado por flechas. E, na frente, o clássico, Cristo pregado na cruz. Eu não fico admirado, depois de pelo menos um milênio nessa cultura de sofrimento, recompensa, redenção e êxtase, com o fato de algumas pessoas acharem essa história até meio gostosa. Impossível olhar com os mesmos olhos para aquelas mulheres trajadas para a ocasião em seus vestidos longos, comportadas, ao lado de maridos a contra-gosto dentro dos ternos. Temi, na ocasião, que uma gota de sangue escorresse do machado e maculasse o vestido branco da noiva. Pensando bem, até seria interessante. Esteticamente, quero dizer.
Inri Cristo vive em um bairro da periferia curitibana chamado Alto Boqueirão. Ele diz ser, e sempre ressalta que ninguém é obrigado a acreditar, a reencarnação de Jesus, aquele, o filho do Homem. Já foi Iuri de Nostradamus, ainda nessa encarnação, quando teve a oportunidade de conhecer os homens e os pecados da carne. Tudo não passou de um engano mais tarde revelado por seu Pai durante um jejum no Chile. A letra u do nome Iuri estava virada de cabeça para baixo.
Quando criança eu tinha mania de pedir para que as pessoas me amarrassem. Todos achavam esquisito. Alguns concordavam e faziam. Adorava brincar de super-herói com minha prima. Invariavelmente, Batman sempre dava um jeito para que a Mulher-Gato o prendesse. Daí eu deduzo essa improvável atração por mulheres em roupas pretas colantes e saltos altos e, na adolescência, uma paixão platônica e mal resolvida por minha prima.
Confesso que eu esperava outra coisa da entrevista com Inri Cristo. Cheguei até ele com perguntas sobre se Maria Madalena era mesmo bela, se Herodes era afetado, se Pilatos era tão frouxo como aparentava ser. Imaginava que ele daria respostas como quem fala sobre velhos conhecidos. Pouco importava se o que ele dissesse fosse verdade ou mentira. Eu preferia que ele transmitisse intimidade com os temas. Coisa como:
- Então, naquela hora, olhei bem no meio dos olhos de Pedro e disse: meu, você vai pisar na bola comigo ainda três vezes antes do galo cantar. Foi isso o que eu disse. Aquilo nos Evangelhos está errado.
Em uma entrevista nem sempre se tem o que se espera. Apesar disso, foi bacana quando ele falou sobre os Evangelhos:
- Mateus delirou muito. Lucas era um médico grego que não tinha nada a ver. Aquilo nos Evangelhos está errado.
Bem, foi mais ou menos isso o que ele disse. Dou-me o direito de alterar a fala real a fim de obter um desejado efeito mediante a repetição. Afinal, como se viu, nem os Evangelhos foram assim tão fiéis. Isso supondo que o entrevistado, sim, está certo.
Penso sobre quais seriam as intenções de um quadrinista, na década de 80, ao colocar em uma de suas histórias, daquelas populares, lidas inclusive por crianças e pré-adolescentes, uma personagem que, a certa altura, fica vestida com botas de salto alto e cano até o joelho, espartilho, calças de montaria, empunhando um chicote. Tal era a indumentária da Fênix Negra, em um único quadrinho daquele episódio das aventuras dos X-Men. Você sabe, aqueles super-heróis mutantes que, em sua versão cinematográfica, têm um uniforme inteiramente feito de couro negro. Além da imagem, e até aí nada teria ela demais, lembro pouca coisa do texto que encimava a ilustração. Apenas a palavra: perverter.
Entendo aqueles que acreditam que Inri Cristo seja realmente a reencarnação de Jesus. Quem daqueles que, quando criança, ouviram as histórias, viram os filmes, leram os livros com as aventuras do galileu não teve vontade de encontrá-lo um dia? Bem, este é o sonho que as pessoas, dentre as que mais sonhos têm, podem realizar no Alto Boqueirão.
Há quem classifique-o de psicótico. Ninguém é obrigado a acreditar, como ele sempre diz. A possibilidade de sua história ser verdade, no entanto, balança intimamente mesmo os mais sarcásticos e incrédulos. Se de fato Inri for Cristo, temos um messias que conta a seu favor não com a fé, mas com a dúvida. Anda por aí, em Curitiba e outros recantos, com suas roupas de época e sua capa vermelha a espargi-la.
Semanas depois de publicada a entrevista, recebi uma mensagem eletrônica da assessora de imprensa de Inri Cristo – sim, ele tem uma. Convidava-me a privar de sua amizade na casa em que mora na Serra do Mar. Preferi apenas responder educadamente, também por mensagem eletrônica, que simplesmente cumpri meu dever como jornalista, divulgando as respostas do entrevistado tais e quais foram por ele respondidas. E fiquei nisso.
De mais a mais, para mim é indiferente se ele é ou não quem diz ser. Basta-me saber quem sou e mesmo isso é difícil. Para tanto, tenho que me valido do livrinho chato, dos afrescos nas igrejas, das histórias em quadrinhos, entre outros métodos.
Conheci um árbitro de futebol que não tinha o dedo anelar. Certa vez, ao tentar verificar se a rede do gol estava firme, pulou para alcançar o ponto onde a trama se enrosca na trave e sua aliança ficou presa em um dos ganchos. Ficou pendurado alguns segundos antes que caísse como um fruto maduro, desmaiado, já com a mão mutilada.
Isto nada tem a ver com o que foi dito até aqui. Está aí apenas para provocar algum arrepio ou seja lá qual for a sensação que você teve agora. Afinal, para isso lemos, pelas sensações. Eis a gotinha sangrenta e perversa desta crônica que você acabou de ler. Por minha conta.
A gotinha de esperança é: o carro de som de Inri Cristo toca Bach.
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