Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
19 jul 2010
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
(Ausência, Vinicius de Moraes)
Para Maísa
Quero amar você, que nem conheço, como quem acrescenta, na mera e improvável possibilidade de amar. Não como quem preenche. Não como a casca de alegria que pressiona o núcleo de tristeza que hora ou outra vai implodir toda a estrutura arquitetada.
Pretendo adicionar coisas por dentro e por fora. Não só felicidades: admita imediatamente ao olhar nos meus olhos – que já são de outras eras – o nosso eventual desamparo. Não surpreenda-se comigo ou com coisas que você mesma já sabe.
Amar pode doer e exige músculo, pode desgastar os nervos. Nem sempre é uma ladeira coberta de grama que se desce às cambalhotas. Quase nunca. Às vezes é o aclive de pedras soltas. Lá em cima a paisagem talvez seja bonita. Mas siga como se paisagem não houvesse.
É preciso que essa história seja cheia de pequenas histórias. E, em cada uma delas, necessária é a insistência. Cada vez mais acredito que desistir é coisa de covardes, não dos meramente fracos. Como somos covardes, os humanos. Os humanos que não ousam e encobrem a covardia sob a máscara de uma bravura, que na verdade é teimosia, orgulho e apego aos próprios traumas. Fortes e gelatinosos somos.
Quero amar você com dor e prazer. Um prazer tão grande que até dói. Uma dor tão grande que é viva. Um cacto nas tripas.
Ensine-me, sem saber, seu silêncio e seu resguardo. Silêncio é bom, principalmente depois de espernear. Os contrastes são lindos.
Deixe eu ser feio, deixe eu ser melancólico, deixe eu chorar no filme, deixe eu ser assim, quase sempre sozinho. Pra que vez em quando você possa me ver bonito, satisfeito e, no espelho, acompanhado. Mas deixe eu chorar no filme. Todos os personagens são eu e ser muitos fere. Na tela, ando e desando.
Que eu seja não a tábua de salvação no meio do mar. Porém, mesmo você vendo a palavra perdição estampada em cada parte do meu corpo, você se agarre a mim, fincando as unhas, porque ainda assim, sabe que valerá a pena. Serei seu gosto e desgosto, as melhores e as piores lembranças. Exijo coragem.
Permita-me exigir coisas pois nunca quero exigir. Nem pedir. E se exijo e se peço e se rogo é algo acima do querer, é algo mais forte que eu, que me arranca as artérias pelo pescoço. Por favor, entenda que não tenho necessidades, mas às vezes tenho necessariedades incontroláveis. Torno-me, nessas horas, fraco e rochoso, seco e sem saber para onde rolar. E, se recusa essas coisas, são minhas artérias que recusa. Já não deu. Apaga-se tudo.
Vivo com muito pouco. Como pouco. Bebo pouco. Sem ser um roedor, estabeleço-me em pequenos espaços. Gostaria apenas de segundos de atenção e o espaço esquerdo ou direito na sua cama de casal. Nem precisa ser sempre. Não me mexo muito. Eventualmente, roubo a coberta.
Costumo perdoar punhaladas. Só tenho dificuldade com as dadas pelas costas, pois é difícil arrancar sozinho a lâmina ali cravada. Os braços não alcançam. Daí quase sempre essa mania de procurar o amparo de quem tenta me assassinar.
Gosto de mentir denunciando a própria mentira, como se a mentira – assim evidenciada – fosse mais perdoável. De qualquer forma, acreditar que a denúncia sim seja falsa é sempre um desejo de quem a declara e de quem a ouve. Acima de tudo, somos os únicos animais que têm esperança de que pequenas falsificações sejam verdadeiras. Por isso nos abaixamos para tomar o dinheiro, descaradamente forjado, no chão da praça. Somos biologia de brinquedo.
Quero te amar, por isso, sem esperança alguma. Quero que seja minha danação, o demônio em minha carne, a pobreza e as feridas de Jó. Se eu conseguir isso, tudo o que me der será bom.
Poderei até mesmo partir. Sem que partir, para mim ou para você, seja novamente uma dor.
9 comentários para "Como eu poderia amar você"
É tudo, este texto.
Poesia em prosa, horizontal e com tantos belos versos de onde se pode arrancar a certeza de que dor de amor pode ser necessária para ser humano, demasiadamente humano.
Grata por esta belezura .
Lindo
OBRIGADA!
AMO você e o seu conhecimento sobre o amor…
AMO você assim, de repente e sem querer nada em troca.
E como é gostoso ainda fazer parte das suas inspirações… Como é gostoso encontrar um texto pra mim aqui… Mais valioso que qualquer tesouro.
Saudades imensas.
Beijo grande,
Ma
Adoro a maneira que aborda diversos assuntos em suas crônicas, detalhe, de uma maneira muito peculiar, ao iniciar a leitura se me permite me sinto acordando, vivenciando cada momento do meu dia, inusitado, incontante, contante ou monótono, passando por cada um desses momentos de maneira inusitada. E o mais interessante nisso tudo é a riqueza de detalhes e a total despreocupação em fazer com que as pessoas se interessem pelo que você escreve, mas que sim em nós desperte essa curiosidade toda e a vontade imediata de terminar de ler sua crônica! Você escreve como quem se delicia ao escrever um diário de bordo sem saber o próximo destino a seguir, e sem dúvida flui de maneira inusitada! Adorei
Parabéns um super beijo Pri!
Bah… queria ter palavras para não comparecer mudo. Realmente, certas coisas são tão belas que chegam a doer.
Com carinho e admiração,
Thi
Há tempos leio em silêncio, mas precisei vir pra dizer que, letra por letra, palavra por palavra, foi como se minha pele fosse arrancada e a carne nua doesse até eu me lembrar: viva.
Doeu. Foi lindo mas doeu até a alma. E lá vou eu chorar de novo.
Ah, ale, muda e chorosa, me repito. Mas vc, é mesmo o meu escritor favorito.
(pelo menos entre os vivos)
Obrigada, obrigada, obrigada.
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