Clédisson Craveira é conhecido por arranjar encrenca em suas noitadas. Quem sai com ele ou também gosta de arranjar encrencas ou não sabe desse seu hábito.

Encostou-se na parede para aguardar a vez de pagar a conta. Já estava meio bêbado e também naquele estado de ansiedade pela cama que subjuga os notívagos quando a noite e o próprio hálito já não prometem nada.

Um sujeito estava à sua frente. Tudo bem. Paciência. Só uns minutinhos. Só o tempo do caixa fazer as contas, ele tirar uma nota graúda do bolso, ela dar o troco e o cara sumir.

Clédisson virou-se para mim, que estava logo atrás, também esperando, e disse:

- Tem um sujeito na nossa frente.

Eu me enquadrava, então, no grupo que não sabia da mania de Clédisson de arranjar encrencas mesmo conhecendo-o da época em que ele fazia uma coluna social de um dos jornais medíocres de Curitiba. Por ora, eu só queria saber do banheiro, mas a quantidade de gente no bar desencorajava uma ida até a privada bem como a fila que se formava do lado de fora.

A questão é que o sujeito não estava pagando simplesmente a conta. Estava dando em cima do caixa. A garota de saco cheio pela metade já.

Clédisson, com nossas duas fichas de consumação na mão, virou-se novamente para mim e disse:

- Parece que ele está dando em cima da garota.

Um dos lemas de Clédisson nessa época era não confundir nunca trabalho com serviço. Cutucou com o indicador e com o dedo médio as costas do rapazinho pelo menos 20 centímetros mais alto.

- Ei, garoto, eu poderia pagar a conta agora?

Sem dizer nada, o garoto saiu da frente e postou-se ao lado do balcão, provavelmente para voltar à carga a seguir.

Clédisson entregou então as nossas fichas à garota. Não sem antes pensar algo como “uau, que pedaço” e dar um arrotinho discreto. Ela fez as contas e disse o valor.

Ele apalpou os bolsos. Enfiou a mão neles. Revolveu-os duas vezes, tirando a cada vez toda sorte de papéis inúteis. Pensei ter visto uma embalagem antiga , daquelas que não existem mais, de Diamante Negro, que eram dobradas em torno do chocolate em vez de hermeticamente fechadas, como hoje, por uma máquina ou coisa assim.

Nessa hora amassou o papel preto e enfiou de volta nas calças. Lembrou que, afinal, não estava com dinheiro. Havia deixado comigo, pois por algum motivo costumava perder as coisas de valor ao passo que as inúteis permaneciam guardadas.

Virou-se para mim e pediu:

- André, preciso do dinheiro aqui para pagar essa conta.

O rapaz devia estar atento e ainda ressentido pela cutucada nas costas e pela paquera interrompida pois, antes que eu mesmo pudesse verificar os próprios bolsos, murmurou algo. Um daqueles murmúrios murmurados para serem ouvidos.

- O sujeito manda a gente sair da frente, mas não tem valor nem para pagar a conta.

Tem uma língua rápida o meu amigo.

- Pois é. Deixei todo o meu valor com sua mãe.

Sabe o filme Matrix? Aquele com o Johnny Deep? As coisas ficam paradas em alguma cenas, como se o momento ficasse congelado para a prosperidade. Certo, para a posteridade. Pois é. Clédisson acabou de falar a palavra “mãe” e o momento ficou congelado. Alguma coisa importante iria acontecer e não era a minha bexiga explodindo.

Eu vi um punho em alta velocidade, de cima para baixo, em direção à cabeça do Clédisson. Depois vi muitos punhos, pois o garoto – aquele cuja mãe havia ficado com os valores de Clédisson – tinha muitos amigos que, mesmo sem saber a razão de tanta exaltação, partiram em sua ajuda.

Eu só pude pensar em salvá-lo daquilo. Pulei para o meio daquela testosterona toda, mais ou menos no local onde Clédisson deveria estar e, ao encontrá-lo, segurei-o pelo colarinho, com as duas mãos, disposto a arrastá-lo dali a todo custo. Eu via mãos fechadas passando perto da minha cara, muito perto. Quando uma delas iria me acertar, identificando-me como inimigo percebi que algo me arrancava dali.

Era o segurança. Com um braço só me tirou daquilo e fez o mesmo com Clédisson. Parecia um guindaste. Quase pedi para ele fazer aquilo de novo. Com a mesma facilidade se interpôs entre os dois grupos, impedindo que os rapazinhos exaltados chegassem até nós.

- Eu vou segurar eles por dez minutos. Melhor vocês saírem daqui.

Se ele ia segurá-los mesmo ou não, já estávamos na vantagem. Clédisson nem estava muito ferido, só levou uns socos de raspão, e íamos sair sem pagar.

Já do lado de fora, corríamos em direção ao carro quando uma garota com cara de paty colocou a cabeça através da janela do bar.

- Seus filhos da puta, vocês nem conhecem minha mãe! Nem conhecem minha mãe! A gente vai pegar vocês!

Clédisson fez questão de corrigir.

- CONHEÇO SIM! CONHEÇO SIM!

Pausa, enquanto a garota continuava a berrar suaves elogios e ele verificava, nos bolsos, se sua coleção de embalagens velhas estava intacta.

- E EU SOU TEU PAI, SUA PATY.

Eu tive que puxá-lo até o carro ou a argumentação duraria a vida inteira. Clédisson tem uma veia para o debate.

No dia seguinte, a salvo, eu lembrava de toda essa história quando toca o telefone.

- E aí, André? Vamos pra balada? Sabe, gostei muito daquela guria do caixa. Que tal se voltássemos pra aquele boteco?

Era o Clédisson.

Claro que falei que estava com dor de barriga.

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