Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
16 fev 2009
Portanto, está Chica a pilotar uma ambulância a toda velocidade pelas ruas engarrafadas de Copacabana, às dezenove horas e tantos minutos. Ela desvia loucamente de tudo o que vê, sobe pelas calçadas, salva pedestres distraídos da morte certa enquanto gira o volante no último milésimo de segundo. Os postes parecem levantar saias e gingar os quadris para a lateral a fim de evitar o parachoque fatal. A sirene faz acorde com os olhos da garota, arregalados, alucinados e colados ao pára-brisa.
Lá atrás, o paciente. Glauber Rocha, envolvido em um robe de seda observa todo aquele movimento, impávido como um Glauber Rocha. De fato, ele não fica parado como um mafioso italiano, nem como um senador romano, nem como um presidente americano ou como um bancário tailandês. Ele fica parado como um Glauber Rocha, nada mais, nada menos.
Chica, com o veículo quase de lado, passa perto de um ônibus a exibir todas as rodas aos ocupantes. Se o carro tivesse partes pudendas, não teria mais segredos. No coletivo, dois passageiros estão especialmente preocupados com o horário. Pois, como se disse, são dezenove horas e tantos minutos e eles precisam chegar à rodoviária do Rio de Janeiro às vinte horas e tantos minutos e o trânsito certamente não deixará. E, por isso, nem percebem quando a ambulância esfrega, veloz, os pneus na lataria que os protege, a se esgueirar – verbo impróprio para o teor frenético da situação – como um líquido, por frestas onde nem os motoqueiros ousariam.
Os dois passageiros, seus amigos, não viram, mas ela os viu e os percebeu com os semblantes tensos.
- Conseguirão?! – pensa.
E isso é suficiente para que desvie por segundos segundos o olhar da direção em que segue, para acompanhar o atrás onde ficam os dois passageiro, ele e ela. Sim, um casal de amigos. Sem precisar ver nada, faz o carro branco saltar por cima de um cachorro preto que, mesmo ileso, sai a ganir alto como a sirene. E, na volta do pescoço para o adiante que vem à toda velocidade em sua direção, passa a vista rapidamente por Glauber Rocha.
Instantâneo, ele levanta, o suficiente para não bater a cabeça no teto, enquadra a garota entre seus dedos e com um olhar ameaçador e o robe de seda aberto profetiza, semi-agachado como um animal agreste:
- Não olhe para meus colhões, pois eles podem lhe cegar!!!
O sotaque trágico e baiano, utilizado na situação, é fatalmente impossível de reproduzir.
Ela pisa no freio. Desce do carro a correr entre as pessoas. Não com medo dos colhões, mas receosa por ser mirada entre tais polegares e tais indicadores e por conhecer o fatalismo de tal polígono.
Na padaria da esquina, vestido de médico, Michel Melamed, que toma um pingado e come pão com manteiga, vê toda a cena. Vai calmamente em direção às portas de trás que encerram o cineasta, tira do bolso uns fios elétricos e aplica uns choques no paciente, enquanto recita uns versos de Wally Salomão.
Salvos todos – Michel Melamed, Glauber Rocha, Chica, os dois amigos no ônibus, pedestres, postes, ambulância branca e cachorro preto -, se abraçam e, finalmente, vão para casa, alguns a imitar mafiosos italianos, outros, senadores romanos, outros ainda, presidentes americanos e bancários tailandeses. Um clima de alívio e Cantando na Chuva invade o ar, como a maresia de Ipanema.
Chica sempre sonha com Glauber Rocha.
Ou, por outro lado, seria Glauber Rocha que sempre resolve entrar nos sonhos de Chica?
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