Até dos 10 anos de idade recusava-me a usar cuecas. Desagradava-me a idéia de ficar com meu pinto e saco presos em um envólucro de algodão que fosse. Se as roupas eram usadas para cobrir o corpo, não fazia sentido, na minha cabeça de criança, cobri-lo ainda mais. As calças ou o calção bastavam. Aliás, não usar roupa de baixo era ótimo porque, se eventualmente uma garotinha pedisse para que eu mostrasse meus brinquedos, eles estavam facilmente acessíveis. Principalmente quando eu usava com calças curtas. Era só levantar um pouco a barra da bermuda e tcharam.

Karateca
Cheguei em casa, depois de uma tarde inteira a aprender a desenhar a letra “a”, na pré-escola, e meus pais perguntaram sobre o que eu tinha feito naquele dia. Não sei de onde tirei aquilo, mas respondi.

- Karatê.

E comecei a inventar, naquele exato instante, um katá, com movimentos em que eu me deslocava para frente e para trás e dava golpes de pernas e de braços. Tão convincentes que meus pais, no dia seguinte, comentaram com a professora que acharam muito saudável os alunos terem aulas de artes marciais, mas que seria muito prudente da parte da direção consultar os responsáveis antes. Claro que a professora olhou os dois com uma cara que era mistura de espanto, dúvida e um pouco de enjôo, pois o almoço lhe fizera mal.

Eu era um pequeno mitomaníaco. Mas, se tivesse sido devidamente incentivado, poderia ter sido um verdadeiro Chuck Norris.

Banho
Nunca tive problemas com meu corpo ou com o corpo alheio. Uma de minhas melhores lembranças de infância sou eu a tomar banho com minha mãe e meu pai juntos. Lembro de eu ter feito algumas perguntas a respeito do por que o dele ser maior que o meu. Não lembro muito bem da explicação, mas na época pareceu convincente: alguma coisa a ver com proporção e beleza clássica greco-romana.

De fato, essa boa convivência com a nudez faz com que eu até hoje, caso necessário, tire a roupa sem nenhum embaraço diante de minha mãe, mesmo não morando mais na casa dela. Seja para experimentar uma roupa, seja para lavar-me.

Talvez esse constitua o único motivo que me desencoraje a colocar um piercing genital. Os dos mamilos e a tatuagem ela conseguiu assimilar bem, ainda que com alguma dificuldade. Mas um brinco no pinto seria demais para o coraçãozinho dela.

Um piercing genital pode custar entre R$ 100 e R$ 300. Mas ficar pelado na frente da mãe não tem preço.

Fala
Eu observava os adultos a falar. Com meu vocabulário tão pequeno quanto meu pinto, via suas bocas mexerem sem entender nada. Era como se dissessem coisa alguma. Três ou quatro vezes fui flagrado a movimentar os lábios sem proferir som algum, a conversar com algum ser imaginário, na imitação daquela prolixidade que eu, então, julgava vazia.

Só mais tarde, crescido, descobri que nós adultos às vezes falamos, falamos, falamos e não dizemos, de fato, nada. Como se o interlocutor fosse mesmo um ser imaginário.

Hoje, porém, meu vocabulário cresceu bastante e varia de tamanho conforme a ocasião. Bem como outras partes de minha anatomia.

Lembranças estranhas
De criança, tenho poucas lembranças traumáticas e que se resumem a um tombo aqui e outro ali. O que me leva a crer ser bobagem essa história de que pessoas com registros de abuso, violência ou assédio na infância é que desenvolvem taras esquisitas e gostos por práticas sexuais menos usuais. Sou uma pessoa normal, de bom gosto, conheço um ou outro compositor clássico pelo nome, relacionando a eles uma ou outra obra importante – sem dispensar variantes mais pesadas e obscuras do rock e da música eletrônica -, tenho conhecimentos de artes plásticas, literatura, teatro e meu omelete é melhor que os servidos nos hotéis. Já disse isso em outras ocasiões, mas tenho o direito a ter uma preferência por estéticas sexuais singulares. Não tenho culpa se acho uma garota de olhos verdes e cabelos loiros a portar um chicote, disposta a me dar uma boa surra, uma das coisas mais lindas do mundo. Bem, os olhos verdes e cabelos loiros foram mero preciosismo para enriquecer um pouco mais a cena. Essas características, são, na verdade, indiferentes. A disposição, no entanto, é importante.

De estranho, estranho mesmo, apenas lembro de meu pai a colocar um travesseiro na minha cara. Mas, como a imagem que me vem é ele a rir, quero crer que tudo não passou de uma brincadeira.

Embaraços
Eu devia ter uns cinco ou seis anos quando abaixei as calças na sala cheia de visitas e perguntei porque eu estava daquele jeito.

Deixei meus pais bastante embaraçados por certo, pois exibi – sem o orgulho do conhecimento científico e com uma humildade de uma santa ignorância – o meu fazedor de xixi em estado impetuoso. A propósito, foi como eles resolveram o problema. Disseram que o fazedor de xixi, de fato, devia querer fazer xixi e por isso estava em tal situação, duro como uma pequena rocha.

Fimose
Foi naquela ocasião, e em outras, que meus pais perceberam que meu prepúcio se recusava a descer e a exibir uma bela e vistosa glande. Fomos ao médico que recomendou aquele exercício de puxar a pele para baixo, o que não adiantou muita coisa, a não ser por eu ficar com as mãos na virilha mais tempo que o habitual. Apenas aos 10 anos perceberam que eu deveria ter aquilo que tanto me atrapalhava extirpado. Por coincidência, o médico que aconselhou a cirurgia era judeu. Não a toa o trabalho ficou tão bem feito. Não digo que não tenha doído.

Primeiro você leva umas duas ou três agulhadas no freio, aquela região em que quase todos os nervos se encontram. Depois, você não sente nada, mas escuta aqueles barulhos de tesouras e bisturis cortando e retalhando. E, para terminar, ainda tem a sutura. A glande, que pela primeira vez vê a luz do Sol (mera figura de linguagem), feito o serviço, parece a coroa de espinhos usada por Cristo, rodeada por pontos.

Mas você não consegue imaginar o que é aquilo quando a anestesia começa a passar.

Dificuldades para urinar
Um dia descobri o quanto pode ser difícil urinar pela manhã. A adolescência é quando um homem tem as ereções mais rígidas e persistentes de sua vida. Acordar com a bexiga a estourar, numa situação dessas pode ser bastante incômodo. Primeiro, por reflexo: uma bexiga cheia provoca a ereção durante o sono justamente para impedir que o sujeito deixe escapar poucas mas vexatórias gotas de urina. E, segundo, por pressão psicológica.

O pinto é um animal estranho. �s vezes ele teima em agir no sentido contrário ao que queremos. Desejamos que ele fique duro e ele fica mole. Queremos que ele fique mole e ele fica duro, nas ocasiões menos apropriadas. Não é exagero dizer que ele tem vida independente.

O fato é que naquele dia tentei fazer o impossível.

Procurei primeiro urinar naquele estado mesmo. Esforcei-me um pouco e um jato poderoso, devido à pressão e à dificuldade imposta pela incontrolável ereção, voou na parede a uns bons dois metros de altura, deixando uma úmida e enigmática mancha para quem quer que fosse limpá-la mais tarde.

Minha segunda tentativa foi me apoiar nas beiradas da privada com as mãos e estender as pernas para trás na direção contrária, como quem vai fazer flexões para o braço. Mas aí a saída uretral, para sermos um pouco mais técnicos e menos vulgares, e tudo o que vem junto com ela ficaria longe demais do alvo.

Tentar perder a ereção apelando para a rua da palma número cinco, ou seja, uma punheta, estava fora de questão pois a urgência da bexiga era maior que a urgência da luxúria e provocava-me um sofrimento desagradável.

A solução foi entrar no chuveiro e tentar solucionar o problema no box onde, não importava em que lugar caísse a urina, ela seria levada em direção ao ralo. Então, finalmente, liguei a torneira.

E broxei.

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