Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
23 jul 2010
Há certas percepções que só nos são dadas quando podemos assimilá-las. De vez em quanto, um sujeito as obtém antes de ser capaz disso. Assim nascem os loucos. No que diz respeito às outras pessoas e como nos relacionamos com elas, sabemos que esses laços, por mais duradouros, permanentes e absolutos que pareçam, são temporários. [...]
19 jul 2010
Sou seu raptor. Sou aquele que você esperou. Que então eu surgisse no meio da noite. Que eu então viesse, violentamente, e arrebatasse seu corpo sonolento para o escuro da madrugada. E levasse você a outro mundo cheio de portas, todas abertas. Sei que às vezes você quer fugir. Desenha paisagens onde morar. Cria um [...]
19 jul 2010
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. (Ausência, Vinicius de Moraes) Para Maísa Quero amar você, que nem conheço, como quem acrescenta, na mera e improvável possibilidade de amar. Não como quem preenche. [...]
16 jul 2010
Aos 17 anos eu me sentia com 17 anos. Aos 18, uma coisa engraçada aconteceu. Pois eu continuava a me sentir como se tivesse 17 anos. E aos 19. Aos 20. Aos 30. E, agora, prestes a completar 37. Durante muito tempo imaginei que fosse a permanência da adolescência em mim. Hoje, rolando na cama, [...]
16 jul 2010
Gostaria de que, no tempo em que passássemos juntos, pudesse fotografar não com uma câmara digital, que revela tudo na hora, mas com uma analógica. Assim, talvez, os momentos irrevelados talvez pudessem ficar assim irrevelados. Talvez, por outro lado, ao serem revelados – se essa fosse a vontade – pudessem ser descobertos – momentos depois [...]
15 jul 2010
O tema sobre o qual gostaria de falar agora é gasoso. Gasoso e delicado, eu diria. E, como tal, não há como falar dele com muitos rodeios. O tema é o peido. A palavra é feia, o som é feio e o cheiro nauseabundo. Aliás, creio que a palavra nauseabundo foi criada depois de um. [...]
15 jul 2010
Uma das meninas mais legais e criativas com quem já tive o prazer de namorar inventou uma expressão ótima: ficar sem bolso. Ela é aplicável àquelas situações em que, de fato, ficamos sem bolso. É como ficar sem chão, mas mais humano. Pois, diferentemente de ficar sem chão, é facilmente imaginável o que acontece quando [...]
7 jul 2010
Alguns, de estrupícios de feira, transformam-se em heróis de bolero. Outros largam a batina. Uns mudam de horário e chegam atrasados, dia sim, dia não. Tem aqueles que se jogam da ponte e se arrependem no meio do caminho. O que sai do emprego. O que arranja um emprego. O que abandona tudo. E um [...]
5 jul 2010
Uma das passagens mais memoráveis dos quadrinhos, para mim pelo menos, é de uma historinha do Pateta. Permita-me contá-la mais ou menos como lembro dela, já avisando que, como convém, a lembrança é um pouco diferente do original, mas que o ponto a que quero chegar está preservado: Pateta comprara uma casa cujo jardim estava [...]
4 jul 2010
Às mulheres que esperam. Ela está debruçada na janela do aeroporto e nenhum dos aviões que toca o solo é aquele que espera. As portas se abrem, os passageiros descem e vão atrás de suas malas. E, no portão onde abraços se fecham e sorrisos se abrem, Miss I’m Waiting For You Forever é só [...]
24 jun 2010
Às mulheres fugitivas Penso em você, Miss Runaway Everyday, como lembro de uma estrada. Sem casas por perto, a luz no meio da noite ao longe é a fogueira dos viajantes que atravessam a mata e pararam para descansar. A vê com o canto dos olhos, sem prestar atenção. Pisa fundo no acelerador e o [...]
5 jun 2010
Uma amiga contou esta história. Moleque, filho de um conhecido dela, ganhou bicicleta nova. Incentivado à reciclagem, deixou a bicicleta velha (mas em boas condições) encostada no poste em frente à casa com a placa: “Por gentileza, pode levar esta bicicleta. Aceite-a como presente, pois ganhei uma nova”. A bicicleta ficou onde estava durante três [...]
7 mai 2010
Existem 417 maneiras de fazer alguém adormecer. Uma delas é conhecida como cafuné. Todas as mães, antes de se tornarem mães, fazem um curso de cafuné na escola de cafuné. O cafuné é a mãe esculpindo o sono do filho. A minha tem um jeito especial de fazê-lo. Parece uma assinatura que busco repetir nas [...]
13 abr 2010
Em 1969 o homem chegou à Lua. Ainda assim, ao olhar pela janela para essa figura branca silenciosa, não consigo pensar em nada melhor que deitar todas as noites ao seu lado. E, então, deixo de achar a missão Apolo 11 tão fantástica. Olho para para nosso satélite natural, aperto os olhos, e – cético [...]
23 mar 2010
Achei tão legal essa lenda urbana que decidi, mesmo que mal e porcamente, traduzi-la: Há alguns meses, a prima de uma amiga (uma mãe solteira) comprou um celular novo. Depois de um longo dia de trabalho, ela colocou o telefone sobre a mesa e começou a assistir TV, quando seu filho veio até ela e [...]