Cracatoa Simplesmente Sumiu

Crônicas e contos de Alessandro Martins

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Insones

No meio da noite, os dois acordados, estendidos na cama.

Ele - Acho que tenho tênia.

Ela - …

Ele - Sabe tênia?

Ela - Como é?

Ele - É um verme que fica na barriga da gente. Come muito. Faz você sentir muita fome e tal.

Ela - Não, não… eu sei o que é uma tênia…

Ele - Então por que perguntou…?

Ela - Não… não perguntei… apenas achei estranho que tenha resolvido dizer isso agora, a essa hora da noite… sabe que horas são?

Ele - Deixa eu ver o celular… são 3h44.

Ela - Então…

Ele - Então eu acho que eu tenho tênia…

Ela - É? Mas por que você acha isso?

Ele - Sei lá… é um pressentimento…

Ela - Claro.

Ele - Sabe quando você sente uma coisa estranha dentro de você e não sabe exatamente o que é… sei lá, uma coisa…

Ela - Sei, sei…

Ele - … bem… tenho sentido uma coisa assim nos últimos dias… só pode ser tênia.

Ela - …

Ele - Minha avó dava remédio para matar vermes para meus tios. Saía lombriga até pelo nariz. Era nojento.

Ela - Eca… nojento mesmo… dá para mudar de assunto?

Ele - É que uma coisa puxou a outra… tênia, verme, lombriga… o pensamento funciona por associações…

Ela - E o que você pensa fazer a respeito?

Ele - Nada… a mente funciona assim… é normal.

Ela - Eu estava falando da tênia.

Ele - Você também está com tênia?

Ela - Não.

Ele - Então não precisa fazer nada.

Ela - Eu estava falando sobre sua tênia.

Ele - Ah, claro.

Ela - Então?

Ele - Então é isso. Não vou fazer nada.

Ela - Como assim? Acaba de achar que tem tênia e não vai fazer nada? Não vai ao médico?

Ele - Não… acho que não vai ser preciso… tenho a impressão de que já gosto dela, estou me acostumando, entende?… as tênias são tão, tão, tão…

Ela - Solitárias?

Ele - Como sabia que eu ia dizer isso?

Ela - Sei lá… o pensamento funciona com associações, você sabe.

Ele - Pois é… sei sim. Por falar nisso, sabe que horas são?

Ela - Deixa eu ver aqui no celular… 3h51.

Ele - …

Ela - …

Ele - Sabe?

Ela - Hm.

Ele - Estive pensando.

Ela - …

Ele - Pode ser que com essa tênia… eu esteja largando proglotes por aí… contaminando o mundo…

Ela - Sei lá. O que é proglote?

Ele - São os anéis da tênia… por onde ela larga os ovos.

Ela - Eu não sabia que as tênias tinham dedos, quanto mais se usavam anéis…

Ele - …

Ela - …

Ele - Na verdade elas não têm dedos… o corpo da tênia é formado por anéis… e tal… ela os larga com ovos… são os proglotes.

Ela - … “… vão-se os anéis e ficam os dedos”. É o que diz o ditado…

Ele - … não… não é isso… deixa pra lá. Esquece isso de proglotes…

Ela - Proglotes…

Ele - …

Ela - Proglotes…

Ele - 4h10…

Ela - Proglotes…

Ele - …

Ela - Acho que não gosto de palavras com “gl”…

Ele - Como assim?

Ela - Proglote, glote, Gladimir, glacial, glosa…

Ele - Eu entendo… entendo… eu, por exemplo, gosto muito de palavras com vr…

Ela - Vrum, vrum, vrum. Típico de meninos…

Ele - É que me parece tão improvável o encontro dessas letras…

Ela - Proglote…

Ele - Acho que precisamos dormir…

Ela - Tem razão…

Ele - Então vamos…

Ela - …

Ele - …

Ela - …

Ele - O que é glosa?

Ela - Sei lá… não vou pegar o dicionário agora…

Ele - Tá bom…. acho que tem alguma coisa a ver com poesia… alguma coisa assim… glosa…

Ela - Deve ser…

Ele - Glosa…

Ela - …

Ele - Glosa…

Ela - …

Ele - Acho que também não gosto de palavras com “gl”…

Ela - Eu entendo…

Ele - Esse encontro de letras para mim soa como, como, como… passar doce de banana em um pedaço de melancia… não combina…

Ela - Sei lá… metáforas não funcionam comigo…

Ele - Como assim?

Ela - É isso. Metáforas não funcionam comigo.

Ele - Como você consegue viver… se comunicar e tal?

Ela - Sem metáforas. É possível viver sem metáforas. Posso respirar sem precisar pintar o ar de azul para entendê-lo.

Ele - Ei.

Ela - O quê?

Ele - Isso.

Ela - Isso o quê?

Ele - Isso foi uma metáfora…

Ela - Sei lá. De qualquer forma não preciso delas para viver. Elas simplesmente não funcionam comigo.

Ele - 4h30.

Ela - Vamos dormir…

Ele - Isso… vamos dormir…

Ela - …

Ele - …

Ela - …

Ele - E onomatopéias?

Ela - What?

Ele - Onomatopéias funcionam com você?

Ela - Morro de medo desses bichos.

Ele - Acho que você… bem… não, uma centopéia… Parece uma minhoca com muitas pernas… e eu estou falando de onomatopéias… a figura de linguagem… brum, crash, tchibum, prucurundum…

Ela - Sei. Você tinha acabado de falar que a tênia não tinha mãos, dedos, anéis e tal… e agora vem com esse papo de minhoca com muitas pernas… melhor dormir…

Ele - …

Ela - … e que faz barulhos estranhos…

Ele - …

Ela - … escuta… que horas são?

Ela - Acho que é tua vez de olhar…

Ela - 3h40.

Ele - Como?

Ela - Digo 4h40…

Ele - Ah, bom… por segundos achei que o tempo tinha voltado…

Ela - Que inferno…

Ele - Ei… o tempo não voltou? Diga que não…

Ela - … dormir.

Ele - … dormir.

Ela - …

Ele - …

Ela - …

Ele - Você tem certeza de que não sabe o que é glosa?

Meus cães, meus avós reencarnados

Para Dona Rosa e Seu Purciano,
meus avós paternos

Secretamente eu acredito que os meus cachorros são meus avós reencarnados.

Foi o que encontrei para explicar a euforia quando me vêem, só entendível na incontida alegria que não se expressa por palavras. E, como os cães conhecem tão poucas, só os vocábulos aleatóreos e espontâneos dos bocejos, pulam. Pulam doidamente, como se quisessem saltar ao colo ou me derrubar. E, quando eu parto, param no portão, inclinam a cabeça e me olham como não entendessem isso da partida.

Tico, vira-lata, tem um olho azul e o outro castanho, como se o primeiro não tivesse tido força suficiente para escurecer ou o segundo, virtude o bastante para ser tão belo.

Suzi, também vira-lata, tem o pêlo negro, tão negro que desaparece nas madrugadas. Tinha o dom de pular o muro, perseguir, ultrapassar e parar os carros na rua. Mas aposentou-se.

Tive de deixá-los com meus pais quando há alguns anos mudei-me para o apartamento. Eles são do tipo que gosta de correr. E nos quarenta metros quadrados em que vivo e considero ter tanto espaço, não há lugar para ofegantes carreiras. Minha nova casa está mais para ponto de chegada e partida.

Dizem que, quando se vai embora de um lugar, deixa-se um pouco de si nele e leva-se consigo algo dele. Tenho certeza então que tenho algo de Tico e Suzi em mim, talvez na maneira de segurar um livro ao ler ou de me portar quando como em excesso. E eles de mim. Provavelmente no modo como coçam as orelhas com a pata traseira.

Se eles forem mesmos meus avós, devem ficar chateados por não poderem me servir o café pela manhã antes de eu ir para a faculdade. Por outro lado, devem ficar satisfeitos de me ver tão bem, de barba feita e banho tomado, homem formado. Nunca mais vou comer aquele pão com omelete que um dia me deu dores no fígado, pelo excesso. Nunca mais provarei nem algo tão bom nem algo tão ruim, bom na medida exata da lembrança e ruim no sentido inexato do que não volta. Na frente da janela da cozinha tinha um pé de caqui, do qual comi apenas um fruto pois amarrava a boca.

Hoje caqui é minha fruta favorita. Suzi e Tico nunca comeram caqui, no entanto.

Um dia Suzi ficou doente. Pegou uma virose que ninguém entendia e podíamos ver através de seus pêlos e pele, os ossos desenhados no corpinho que não se levantava mais do chão. Minha mãe, com dó, pediu para meu pai mandar sacrificá-la. Naquela tarde comeu pela primeira vez em dias e, durante a semana, recuperou o viço. Ela estava a cara da morte.

Tico é hiperativo. Não sabe brincar sem ser intensamente, nem receber um afago sem brincar. Ofega e pendura a língua, corre, salta e derruba o vivente. Um dia deixei um sapato na escada e ele não permitia que ninguém chegasse perto para guardá-lo com seu par. Só quando voltei puderam tirá-lo do lugar. Quem tem um cão jamais estará descalço.

Neste fim de semana, vou novamente visitar meus pais. Novamente os dois vão se pendurar no portão, ganir e até chorar, como seu eu tivesse vindo do além, como se aquela fosse a última vez e vão me atrapalhar todo para abrir o cadeado. O amor dos cães é urgente, gratuito e seus corações são afobados.

Não existe coisa mais humana, infantil, adulta e doce que os sentimentos de um cão.

A grande verdade, porém, a grandecíssima e irrefutável verdade, é que meus avós não se pareciam em nada com Tico ou com Suzi. Nem na cara nem no jeito de andar. Não diria todas essas coisas nem para exaltá-los nem para ofendê-los.

Eu diria todas essas coisas porque sinto mesmo é saudade dos dois velhinhos.

Essa sim é a verdade. Uma saudade enorme, incorrigível, canina.

Cartazes misteriosos invadem Curitiba

Um cartaz com duas mãos com vistosas unhas pintadas cobrindo o que parece ser - e é - uma bucetinha (provavelmente as mãos e e bucetinha pertencem à mesma pessoa) foi espalhado por Curitiba.

Ainda restam poucos inteiros. A maior parte foi depredada ou pintada.

Uma rádio de notícias local chegou a dizer que se tratava, na verdade de uma axila e não de um genital. Obviamente a esposa do repórter deve sofrer, pois ele anda errando o alvo.

Independentemente do que é ou do que não é. Isso não importa. O importante é o que parece ser.

De início, pensa-se que se trata de algum tipo de propaganda, pois - por incrível que pareça - as unhas chamam mais atenção do que qualquer outra coisa. Mas rapidamente se observa que a mensagem não está vinculada à nenhuma marca e percebe-se o que há por trás das mãos. E lê-se apenas os dizeres, ao lado de um frasco de esmalte: “base para unhas fracas”.

Certamente uma crítica à vinculação que a publicidade costuma fazer entre sexo e comércio. Vide cervejas e quetais.

Isso também não importa. Eu considero os cartazes bonitos. Melhor do que um tapume pelado são unhas pintadas.

Certamente é uma intervenção urbana de algum artista que prefere permanecer anônimo. A cena de sticks, lambs e estêncis é bem forte em Curitiba.

Atualização: acabei de descobrir que a intervenção foi bolada por Newton Gotto (Curitiba) e Alexandre Vogler (Rio de Janeiro). E, sim, é uma bucetinha.

Ensaio de banda

O Thiago - a figura gaiata acima - convidou-me para ver o ensaio da banda em que ele está tocando no momento.

Aproveitei minha nova câmara e fiz algumas imagens.

Faltou o primo do Thiago, que é o baixista.

O integrante que rendeu as melhores fotos foi o baterista, o Wilson, mas como havia pouca luz na sala de ensaio, precisei usar uma velocidade muito baixa e uma grande abertura do diafragma (é isso?), o que o tornou também o personagem mais difícil de registrar.

Clique nas imagens para ver em tamanho maior.

Pilantra

Você deve me achar o pilantra por ter invadido a sua privacidade. Ênfase no o. Não, não vou responder dizendo, no melhor estilo jardim de infância, que pilantra é você. Ênfase no você. Afinal, nem é preciso. Te peguei. Eu vi o email que ele escreveu. Ninguém mandou ficar logada no meu computador. Fui entrar para ver a minha caixa de entrada e lá estava a sua. E, nela, uma pasta com o nome do outro pilantra. E, lá, estava a mensagem. O cara chegava a usar o termo fazer amor. Ênfase no r. Só faltou desenhar coraçõezinhos. Sinceramente, fazer amor é coisa de bicha. Não o ato. Mas a expressão. Aliás, acho que bichas afinal não fazem amor. Bichas trepam. Como se deve. O sexo mais terno deve ainda ser tratado como trepada. Com a vulgaridade da palavra, protege-se o amor da vulgaridade das intenções canalhas e do romance barato de novela. Mas aposto que, até hoje, ele nem sabe que enquanto fazia amor, você teclava, nos intervalos, com um outro pilantra que, mais tarde, garantiu para mim - ele, como deve saber, era meu amigo -, estava apenas fazendo literatura com você. Fazer amor, fazer literatura. Será que estou cercado de bichas literatas? Esse chegou a perguntar se eu já não sabia da história e se eu não tinha cumplicidade com você. Respondi que não, que estávamos passando por uma má fase e tal. Fiquei diminuído, afinal eu não tinha cumplicidade suficiente a ponto, então, de você não me contar que estava fazendo literatura com outro cara? Que espécie de namorado era eu? Ênfase no eu. Mas esqueci de dizer para ele que, se não podia contar com a sua, eu esperava alguma cumplicidade dos amigos. Porém, como se sabe, pau não tem código de ética. Só me pergunto se o pilantra número dois sabia que você chegou a ir a outra cidade para ver o pilantra número três. Para fazer literatura ao vivo, se é que me entende. Enfim, não sei qual de nós foi mais covarde. Ênfase no nós. Eu por fugir primeiro e voltar atrás ou você, ao me ver fugir, correr para outros braços, sei lá quantos. E, depois, sem que eu soubesse desses braços, me cobrasse fodas mais apaixonadas quando voltei. Agora, não pode haver covardia maior que isso: não há como ganhar, em matéria de foda, de um novo amor. A pior metida de um novo amor é sempre superior à melhor do antigo. Ainda mais se ele já está inseguro das coisas que estão acontecendo. Ser cobrado nesse sentido, foi sofrer, sinceramente, a maior das covardias, sim. Foi como entrar no ringue de olhos vendados. Sem sequer saber que era um ringue. Ênfase nos socos. Eu sei que as pessoas mentem, eu sei que as pessoas falham. Faz parte e se você não consegue viver sabendo disso, é melhor se matar. Mas me aproveitar da cegueira de alguém, conduzi-la à aniquilação, isto eu nunca fiz. Tá. Aniquilação é uma coisa meio exagerada. Vamos usar a palavra nocaute, para manter a linha de raciocínio. Depois entendi que você é do tipo que não salta de uma pedra sem que o pé já esteja tocando a outra. Mas o rio que você está tentando atravessar é muito largo. Daqui não vejo a margem contrária. Talvez esse rio não seja para ser atravessado, mas seguido, na correnteza, sem esforço. Contra ela, mais possivelmente, mas tudo bem. Ênfase no tudo bem. Parece que você é movida por certo orgulho neurótico de ser assim, no fim das contas. Afinal, quem acredita em amor a primeira vista está sempre procurando o olhar do próximo. Ênfase sempre no próximo. É uma daquelas escadas impossíveis de Escher, em que parece que você subiu, mas está de volta ao andar de baixo e continua o ciclo. Chega. Estávamos falando de mim. Sinto-me uma casca vazia, se é que quer mesmo saber. Afinal você ficou com as lembranças. Disse que tem boas lembranças nossas, não é isso? Eu sempre achei mesmo que as lembranças certas ficam com as pessoas erradas. Você disse que nossa história foi boa, apesar do péssimo final. O que quer dizer que isso tudo não serve nem para se escrever um livro, certo? O final acaba dando significado ao início e ao desenvolvimento: isso quer dizer que as florezinhas do capítulo 15 viraram merda lá pelo capítulo 23 e, portanto, as florezinhas eram florezinhas de merda. Ênfase no fechar das páginas. Mas é isso o que você está vendo na sua frente. Uma casca vazia. Sem lembranças, sem amor, sem emprego, sem dinheiro, sem rumo, sem serragem por dentro das veias. Claro que estou magoado. Se você estava me ouvindo até agora deve ter entendido isso. Fui claro, não fui? O mais louco é eu ter pedido tantas desculpas quanto tudo virou merda. Eram pedidos sinceros. Eu me senti culpado. O engraçado é que fiz a coisa virar merda por ser sincero. Hoje me sinto culpado por ter me sentido culpado. Agora até entendo por que as pessoas mentem. Tem que ter muito culhão para falar de verdade o que se sente. E agora  é você quem vem me pedir desculpas como se fosse fazer realmente diferença depois de tanto tempo. A impressão que eu tenho é que só se pede perdão quando não faz mais diferença, os perdões são negados quando necessários e só se fala a verdade quando já é tarde demais ou quando se deveria mentir. Ênfase no tarde demais e no mentir. Assim, com o que aprendi dessa história toda, minha boca te perdoa, mas acho que sou fraco demais para ser sincero novamente. Ou então não sou forte o suficiente. As pessoas mentem, certo? As pessoas fraquejam, certo? As pessoas dissimulam, certo? É melhor morrer que não aceitar isso, certo? Perdôo você, então. Até dou um sorrisinho. Mas sou muito pilantra para ser verdadeiro a esse ponto. Sim. Pois ainda acho que mais pilantra é você. Porém, isso eu, sinceramente, calarei. Pilantra. Ênfase silenciosa no pi, no lan e no tra.