(Este texto foi produzido em parceria com Paulo Polzonoff Jr. e publicado em 10 de setembro de 2001 no Jornal do Estado em homenagem ao Salão Paranaense, a todos os salões de arte do país e a todos os artistas conceituais desse mundão-de-deus.

Considerando que esta Bienal de São Paulo será a Bienal do Vazio, achei muito apropriado republicar.

Antes da parte interessante, há uma explicação sobre quando aconteceria o salão naquele ano, como fazer a inscrição e outras coisas inúteis. Vou portanto, diretamente à parte interessante)

(…)

Pensando nos artistas plásticos interessados no 58º Salão Paranaense, fazemos quatro sugestões de obras que podem ser enviadas à mostra, e avaliamos a chance que cada uma tem de ser premiada.

1. La Vaca Criptonizada ou Vaca La Ceguita

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Creative Commons License photo credit: flikr

(Aqui há a foto da bunda de uma vaca, obviamente acompanhada do resto do bicho todo, colorida de verde graças aos milagres do photoshop)

Pop art, sem dúvida. Algo demodé, convenhamos, mas que tem sempre sua chance de ser considerada ultra-pós-moderna, mega-revolucionária, em salões que são montados entre araucárias, árvore típica do estado do Paraná.

A obra é aparentemente simples em sua composição, mas carrega em si tanta, mas tanta erudição, que aos especialistas deste jornal é complicado traduzir para o leitor a complitude da simplicidade de La Vaca Criptonizada. Depois de algumas tentativas, pelo menos dois deles entraram em coma irreversível. Somente com a proteção de óculos escuros especiais foi possível a análise da obra.

Se não, vejamos. O artista retomou a influente literatura hieróglifa dos quadrinhos para compor um mundo abstrato em que o verde toma conta do animal, sendo isso uma clara referência ao embate cosmopolita, liberal e globalizante entre xenófobos vegetarianos e anti-semitas carnívoros. Observe as manchas na região posterior do animal-obra. Temos um mapa-mundi estilizado em que aparecem parte da América do Norte e também a África. O que o artista quis dizer com isso? Os outros continentes estariam ocultos sob a cauda em uma região menos agraciada pelo sol?

Olhando para o espectador – sem que, no entanto, seja possível identificar a presença ou não de olhos – o bovino encara o mundo de uma forma direta, pondo em xeque a superioridade do Homo sapiens sapiens sobre os moluscos e outros seres obviamente mais inteligentes.

Por seu alto teor político, La Vaca Criptonizada é forte candidata ao salão. Sugerimos aos artistas variantes desta, como cavalos, camelos, elefantes, antas e avestruzes (que são bípedes, mas vivem aos pares). Carpas podem dar um “plus” à obra no sentido de que expressa uma orientalidade muito em voga ao tema.

O grande mérito de Vaca La Ceguita, porém é a pesquisa de materiais. Chegou-se a esse resultado depois de muito trabalho e de uma certa decepção, quando o artista descobriu que não encontraria uma vaca de verdade feita de poliéster.

2. O Transportador de Capital Elevado à Décima Potência ao Léu de um Dia de Preguiça

All of our possessions in South America
Creative Commons License photo credit: blmurch

(Aqui há a foto de uma reles mochila deixada em um canto)

Também conhecida como A Mochila, esta obra já teve seus dias de glória. Seu idealizador, um precoce artista plástico que já foi estagiário de museus de arte contemporânea nos países da Oceania, compôs um intrincado jogo de quebra-cabeças que, em um só objeto, mistura política e uma ode ao ócio, inspirado em pesquisas exaustivas à Tribo de Jó, na Ilha de Nauru, no Pacífico Sul.

“Estava na praia, lendo Karl Marx, quando descobri a importância do capital. E também algo muito interessante chamado mais-valia. Resolvi juntar as duas coisas e colocar na minha mochila, junto com o livro, que não terminei de ler, e um sanduíche de atum que mais tarde me faria procurar a casinha diversas vezes. A mistura ficou muito pesada, por sinal. Depois, peguei o primeiro avião e, quando cheguei em casa, joguei a mochila com o livro no chão”, explica o artista. Este processo criativo levou o artista à perfeição, ou muito próximo dela. Polêmico, o artista pretende inscrever novamente O Transportador, só que com uma roupagem pós-moderna. “Talvez eu escreva um hai-cai”, revela. No meio da entrevista, supreendentemente, o artista plástico compõe o complemento de sua arte: “A mochila cochila/ enquanto a chinchila/ morde a axila”.

Ele garante que o animal não sofrerá maus-tratos.

3. O Extintor do Futuro ou Antigo Xiste de Galeria de Arte Conceitual ou, ainda, Essa É Velha Pra X(ch)ux(ch)u

Montmartre
Creative Commons License photo credit: Daquella manera

(Aqui há a foto de um extintor de incêndio)

Presente em todos os grandes salões de arte do passado e do futuro, que tenham certificado do Corpo de Bombeiros, o Extintor do Futuro, numa referência clara ao filme O Exterminador do Futuro, de um artista plástico revolucionário e anônimo, tem grandes chances de ganhar mais um salão de artes plásticas.

Depois de estar presente em dezenas de mostras ao redor do mundo, muitas vezes simultaneamente, de ser exaustivamente plagiado, O Extintor do Futuro pode chegar como a grande barbada deste turfe artístico.

A obra, como as demais, é aparentemente simples, mas traz em si um complexo conceito de arte que mistura pop, classicismo e dióxido de carbono em doses homogêneas. É sapientíssima a concepção do artista segundo a qual um objeto cilíndrico, universalmente reconhecido em sua praticiade, seja adorado como algo etéreo e transcendente, que eleva a Humanidade ao status de espécie dominante do Universo.

No entanto, mesmo reconhecendo o potencial da obra, o fabricante recomenda que ela seja usada apenas na combustão de materiais elétricos ou líquidos inflamáveis.

4. O Seu Amor Usado Apodreceu Meu Coração ou Salpicão Nojento ou, ainda, Sem Título Número 3

lixo!
Creative Commons License photo credit: vcheregati

(Aqui há a foto de alguns sacos plásticos cheios de lixo)

Note que a superfície limpidamente sintética destes sacos de lixo escondem a podridão da sociedade de consumo. Trata-se de uma referência clara à passagem bíblica em que Cristo chama os fariseus de túmulos caiados. Também faz menção àquela famosa frase que explica o trabalho de alguns artistas que se dizem expressionistas e afirmam que suas obras representam o que sentem no momento da criação, por dentro.

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