Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
14 jul 2008
Ele sempre passava mal com beterrabas. Comê-las, nem pensar. Sequer podia encará-las. Imaginá-las causava revoltas em seu estômago. Antes de entrar no restaurante universitário pedia para que os amigos verificassem se alguma das saladas continha o ingrediente vermelho. Se assim fosse, nem entrava. Corria o risco de vomitar, desmaiar, dar algum vexame.
A beterraba é assim um vegetal que não se decidiu bem entre ser doce ou salgado. Não é de admirar que cause tantos problemas. Mas as questões gastronômicas não o perseguiam só no que se referia às plantas. Iam além.
O exemplo da beterraba é só para demonstrar como seu estômago era sensível. Suponho que ainda seja.
Cansado dos restaurantes em torno do seu trabalho – que invariavelmente um dia ou outro traziam beterrabas em seu cardápio – resolveu dar a volta na quadra e procurar um outro lugar para matar a fome. Ali, naquela outra região descobriu diversos novas possibilidades. Não sabe por que sentiu-se atraído por uma lanchonete meio obscura.
Lá dentro, atrás do balcão, um casal de orientais se desentendia. Falavam uma língua que ele não conseguiu identificar como chinesa, japonesa, vietnamita ou coreana. Assim que perceberam que estava ali, pararam. O oriental olhou para o outro lado e continuou a lavar alguns pratos e ela voltou-se sorridente para o cliente.
- Um xis salada… – pediu, com xis mesmo.
Ela deu início ao preparao. Da chapa, porém, levantou um sutil mas estranho cheiro de fritura. Isso despertou nele, de repente, um pouco do seu senso crítico, como se a visão até o momento estivesse adormecida. Observou que as condições de limpeza do lugar não eram das melhores, com vasilhas desorganizadas, chão meio encardido, o mostruário de salgados um tanto engordurado com comidas aparentemente da época da dinastia Ming.
O homem então resmungou alguma coisa, compenetrado na sua tarefa dos pratos, e depois de resmungar mais um pouco virou sua cara brava para a mulher e berrou alguma coisa que pareceu ser muito, muito, muito feia. Ela respondeu com algo que pareceu ser mais feio ainda.
Ele, sentado na banqueta do balcão, fez todas essas observações lingüísticas, e distraiu-se com algumas embalagens com comidas que lhe eram totalmente estranhas ilustradas com aqueles símbolos enigmáticos que não lhe significavam nada. Uma delas tinha o desenho de um polvo e outro de algo que parecia ser uma ameba feliz. A do desenho do polvo tinha dentro coisinhas que não se pareciam com polvos, mas bem podiam ser pedaços ressecados de um, e a do desenho de uma ameba feliz tinha dentro coisinhas que pareciam sim amebas, só que maiores que amebas e menos felizes do que uma ameba infeliz costuma ser.
Esses devaneios levaram tempo o suficiente para que um prato não totalmente limpo fosse colocado a sua frente. E, sobre o prato, o xis salada. Com xis mesmo.
Olhou para o sanduíche que parecia olhar para ele. A alface estava ligeiramente marrom. O queijo era muito, muito, muito feio. E o presunto devia ser mais feio ainda, mas estava escondido naquela maçaroca molenga de pão umedecido por gordura. Ficou admirado, pois nunca tinha visto um tomate podre de perto em nenhum lugar a não ser no teatro. Supôs que fosse aquilo ou muito próximo com que um se parecesse.
A seguir, olhou para a cara da senhora que havia colocado aquilo ali. Ela estava sorridente. Por algum motivo, resolveu que deveria ao menos experimentar o xis. Acho que ficou com medo de que, caso recusasse e não pagasse, o marido culpasse a esposa e os dois saíssem no braço.
Mordeu. Mastigou. Engoliu.
Pensou se seria o caso de dar mais uma mordida ou se essa era suficiente para mostrar sua boa vontade. Julgou – também para seu próprio benefício – que sim. Era mais que suficiente, embora, por estranho que fosse, não tivesse vomitado ou tido vertigens na mesma hora.
Disse, diplomático, algo sobre estar atrasado e pediu a conta. Pagou, para deixar todos felizes, e foi embora.
Quase chegou a ficar preocupado com o que acontecera com a mulher depois de ter saído em passos rápidos e largos, facilmente transformados em corrida. Temeu que ela tivesse apanhado ou coisa assim. Concluiu, segundos depois, que não importava. Qualquer um que preparasse um sanduíche daqueles bem mereceria uma boa surra.
Entrou no restaurante universitário, ainda morto de fome, sem pensar, tentando esquecer a experiência.
E desmaiou.
Beterraba.
10 comentários para "Beterraba"
Hehehehe
Muito bom.
Adoro beterraba.
Beijo!
Hahahahaha. Ótimo Alê!
Estou pra saber algo que eu não gosto de comer… Ainda bem que minha genética permite.
Mas não gosto do cheiro de jaca. Por causa disso nunca experimentei.
hahahaha muito, muito bom!!
Putz cara, eu adoro beterrada
=P~
Cara, meus parabéns; você escreve.
Hahahahahaha! No meu caso, seria pepino.
Tenho um filho que não simpatiza muito com beterra e ler este texto fez ficar com nojo de beterraba.
Fantástica a história da beterraba. Uma narrativa muito interessante também. A quantidade de detalhes sobre todo o ambiente na lanchonete oferecidos no desenrolar do texto me fez até esquecer a introdução sobre as beterrabas…levando então a um desfecho fenomenal: surprender-se com o previsível!
Magistral!
to até agora imaginando como seriam amebas felizes.
Fantastico.
Texto simpático, que cativa conforme lê. Parece um amigo falando.
Parabéns!!!
Gosto muito de beterraba. imagine só que no outro dia vi suco de beterraba em garrafa. bebi e me deixou os dentes todos vermelhos
a beterraba é muito saudavel, penso. é boa para muitas coisas e tem muitas vitaminas. até ajuda a combater a inflamação… essa não sabia… vi em http://www.i-legumes.com/beterraba_beneficios.html
as coisa que a gente aprende…
parabéns
Meu filho detesta legumes de modo geral. Vai adorar ler este texto. Muito bem escrito e divertido.
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