Às vezes você não tem a sensação de que se ausenta? De que seus lábios se movem, as palavras saem, mas que uma espécie de piloto automático foi ligado? Um gravador? Coisa assim, entende?

Às vezes não é como se você estivesse assistindo a outra pessoa, como num filme, em que você gesticula os socos, mas sabe que – mesmo que pudesse entrar na tela – não daria os golpes certos para ajudar o herói?

Às vezes você não tem a impressão de que simplesmente não consegue estar ali, uma espécie de fraqueza? Como um alçapão que se abre para algum lugar fundo e escondido dentro de si? E de que, então, na superfície, lá no alto, fica uma casca oca, apenas registrando os impactos, sem capacidade de reagir a não ser com apenas frases feitas?

Não é como uma caverna escura e úmida em que se pode ouvir as gotas caindo das estalactites para o lago numa sinfonia que abafa as vozes que mal são ouvidas lá fora? Você grita: “socorro, sou eu que estou perdido aqui dentro” e nada sai?

Às vezes tudo o que você diz não é como se você atirasse dardos no escuro sem saber sequer se há um alvo em uma das quatro paredes? Ou no teto? Ou no chão? Como se houvesse um olho na vereda da agulha?

Às vezes você também se sente como um carro descontrolado em uma ladeira cheia de curvas e que vai bater a qualquer instante?

Às vezes você sente que não esteve nos momentos mais importantes de sua vida, embora até mesmo fotografias digam o contrário?

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