Os Estados Unidos fizeram a 14ª emenda a sua constituição, depois da Guerra Civil, para garantir sobretudo os direitos às mulheres e homens negros recém-libertados.

Décadas após ela surgir apenas algumas duas ou três dúzias de cidadãos negros abriram processos em que a evocavam.

E centenas de empresas, corporações, faziam o mesmo.

Isso foi possível porque em algum momento algum advogado teve a genial idéia de enquadrar uma corporação no conceito de pessoa. Pessoa jurídica. Com direitos e tudo o mais. A justiça americana, na época, acatou.

Antes disso, corporações tinham data para começar e terminar e o objetivo de realizar um empreendimento em que alguém, sozinho, não daria conta.

Claro. Ao mesmo tempo em que uma empresa tem direitos ela tem deveres. Porém não tem um corpo – para prender – ou, ao menos, a suposição de uma alma – para condenar à danação eterna.

Ao longo do documentário A Corporação uma das coisas mais interessantes que se demonstra é o tipo de personalidade que essas grandes empresas teriam se existissem fisicamente tanto quanto existem juridicamente: a personalidade de um psicopata. Elas não estão sujeitas aos mesmos dilemas morais que nós, que temos um tempo limitado de existência e a ligação ética e emocional com as pessoas próximas.

O engraçado, no filme, é ver que mesmo as pessoas que estão no comando dessas grandes empresas tem pouco poder sobre elas. O indivíduo não tem mais força que a egrégora. Ou se vai na mesma direção que ela ou se é substituído de uma forma ou de outra. Isso não é motivo para se omitir, porém.
O indivíduo pode fazer o seguinte:

Relembremos as origens da rede (…). O segundo avanço foi o desenvolvimento em 1990 da WWW (World Wide Web), a famosa teia mundial, pelo físico inglês Tim Berners-Lee, revolucionando o modo de navegação e apresentação de conteúdos, com a integração de textos e imagens, por meio de hyperlinks e conexões instantâneas, em linguagem HTML.

(…) Berners-Lee decidiu ceder gratuitamente ao mundo seus direitos sobre o software da WWW. O altruísmo do pesquisador contrasta com a ganância atual das operadoras de telecomunicações americanas. Sua resposta aos colegas de pesquisa foi categórica: “Não preciso desses royalties. Por isso, eu os cedo gratuitamente à humanidade. É a minha contribuição à democratização e universalização da internet”. (Fonte: Ministério da Cultura).

Talvez seja com essas belas palavras que ele seja lembrado na História, não?

Claro que Berners-Lee teria ganhos com sua descoberta, mesmo abrindo mão dos royalties. Mas ele sabia que não precisava de todos os ganhos possíveis. Diferentemente, uma corporação não é capaz de abrir mão de coisas a não ser em algumas situações que envolvam cerceamento jurídico, negociação com outras empresas e necessidade mercadológica.

Afinal, uma corporação…

… incorpora. Oras bolas.

Dar coisas gratuitamente, de fato, não faz parte da natureza das corporações e sempre que alguma me oferece algo nesses termos eu penso no que ela vai ganhar com isso. De graça é o preço mais alto que você pode vir a pagar.

Por isso, quando as empresas de comunicação do Brasil começarem a falar do fim da neutralidade da rede por aqui – se falarem – para dar mais qualidade de acesso e conteúdo para você, pense no que elas estarão tentando tomar.

Melhor ainda: a coisa é mais sutil. Pense no que elas querem que você ceda.

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