Toda casa tem, ou deveria ter, um objeto onde coisas soltas são guardadas.

Uma sopeira no meio da mesa, um vaso sem flor sobre uma cômoda, uma chaleira de estanho, um pote na estante, uma gaveta.

O nome desse objeto é coisarada, pois todas as coisas soltas nele são guardadas, e ele tem geração quase que espontânea e crescimento aleatório.

Coisas que não se sabe como jogar fora, mas que, inclassificáveis, também não se sabe como guardar: botões despregados, parafusos soltos, tocos de vela, moedas que já não valem nada, carretéis, medalhinhas, bilhetes, cartões, lembrancinhas cujo lembrar foi esquecido, chaves sem porta, pedras polidas, canetas que escrevem, canetas que não escrevem, contas de um colar arrebentado, uma pequena engrenagem, uma amostra de perfume.

Tudo vai parar no coisarada por mãos invisíveis.

A combinação desses objetos acumulados ao longo do tempo dá ao coisarada um cheiro específico que alguns acreditam ser o cheiro da alma da casa.

Todo mundo que já foi criança já passou algumas horas, somadas ao longo da infância, mexendo e contabilizando esses objetos buscando a novidade dessas velharias, perdidas no coisarada, o lugar onde o tédio, a curiosidade e o encanto se encontram.

No coisarada, inventamos a arqueologia pessoal.

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