Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
11 nov 2009
Toda casa tem, ou deveria ter, um objeto onde coisas soltas são guardadas.
Uma sopeira no meio da mesa, um vaso sem flor sobre uma cômoda, uma chaleira de estanho, um pote na estante, uma gaveta.
O nome desse objeto é coisarada, pois todas as coisas soltas nele são guardadas, e ele tem geração quase que espontânea e crescimento aleatório.
Coisas que não se sabe como jogar fora, mas que, inclassificáveis, também não se sabe como guardar: botões despregados, parafusos soltos, tocos de vela, moedas que já não valem nada, carretéis, medalhinhas, bilhetes, cartões, lembrancinhas cujo lembrar foi esquecido, chaves sem porta, pedras polidas, canetas que escrevem, canetas que não escrevem, contas de um colar arrebentado, uma pequena engrenagem, uma amostra de perfume.
Tudo vai parar no coisarada por mãos invisíveis.
A combinação desses objetos acumulados ao longo do tempo dá ao coisarada um cheiro específico que alguns acreditam ser o cheiro da alma da casa.
Todo mundo que já foi criança já passou algumas horas, somadas ao longo da infância, mexendo e contabilizando esses objetos buscando a novidade dessas velharias, perdidas no coisarada, o lugar onde o tédio, a curiosidade e o encanto se encontram.
No coisarada, inventamos a arqueologia pessoal.
2 comentários para "As coisas do coisarada"
Fico eu cá pensando com meus botões: Será que ele ainda consegue me surpreender?
Só rindo mesmo, porque é inacreditável. Fiquei viajando na leitura, lembrando dos meus tempos de muleca, na casa de um tia que adora cacarecos. A casa em sí já é um “coisarada”, mas sim, lá também tem um desses, um não, vários, em cima da mesa de centro, em cima da geladeira, pertinho do telefone. Eita tempo bão!
Valeu pela experiência.
Continue nos fazendo sonhar acordados!
Fico feliz que isso exista;já fiquei várias ocasiões pensando em como eu conseguia reunir tanta coisarada;é exatamente como vc diz.Que interessante!
Escreva um comentário