Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
21 jan 2009
O resto da vida com o sorriso perfeito não compensam os traumas causados em uma criança pelas duas dúzias de meses em que ela usa aparelho extrabucal. O aparelho extrabucal – ou freio, como costuma ser conhecido, por lembrar o equipamento usado nos cavalos – é comparável aos métodos medievais da medicina, quando acreditava-se que podia-se extrair a pedra da loucura de dentro do cérebro.
Por isso eu só usava à noite. Antes de ir para cama colocava aquela desgraça na boca. Sempre me esforcei, desde a o começo da adolescência em tentar passar despercebido. Então lá estava eu, em plena rua 15, depois de meu pai me convencer que não tinha problema nenhum usar aquilo. Porém eu ainda estava inseguro e não muito confiante em relação aos argumentos dele.
- Olha o menino comendo arame!
Um moleque disse isso assim que me avistou. E eu, um homem feito, de 11 anos, desmoronei. Comecei a chorar ali mesmo.
O meu ortodontista era um dos melhores da cidade. Presidente da Sociedade Ortodôntica, era conhecido do meu pai e fazia um preço camarada. Ainda assim, naquela época minha família passou por uns apertos financeiros que faziam com que às vezes atrasássemos as prestações. Lembro bem do jeito que ele me olhava nessas ocasiões. Não sei se era porque estava de mau-humor naquele dia ou porque estávamos devendo para ele. Mas a verdade é que, no dia seguinte ao que ele fazia ajustes em meu aparelho, eu não conseguia nem morder um pedaço de gelatina. Isso me mantinha em forma.
Tirando o fato de que ele tinha umas auxiliares deliciosas, tudo isso me fez acreditar durante um bom tempo que odontologistas têm um certo pendor para o sadismo. Isso era eu que pensava, um menino que nunca teve medo de dentistas.
A questão é que depois daquele primeiro dia nunca mais saí de casa com o aparelho extrabucal na boca. Meus pais nunca reclamaram ou me obrigaram. Eu iria me sentir invadido em minha individualidade. Como eu disse, eu sempre preferi ser assim nessa época. Na minha.
E eu sempre fui um cara na minha.
Eu tenho uma irmã excepcional e que também é autista. Talvez tenha a ver com isso. A gente observa o comportamento de quem está próximo e imita. A Melissa tem 30 anos já, aparenta ter uns 14 e o desenvolvimento mental de uns dois anos, talvez menos. Ela não fala, mas a gente entende tudo o que ela quer.
O fato é que aquelas pessoas que se aproximavam com o velho discurso da pena por ela ser desse jeito me irritavam. Mas também me irritavam os que vinham dizer que ela era uma benção e etcéteras e tais, no melhor discurso Xuxa dos “baixinhos especiais”. Para mim, e creio que para minha mãe e para meu pai, ela nunca foi uma desgraça nem uma dádiva. Ela é a Melissa. E, para nós, ela é normal. Não simplesmente normal, mas o normal.
Sempre me preocupei com o fato de que um dia, depois que minha mãe e meu pai morressem, e antes até eu teria de ser o responsável por ela. Dedicar uma parte de sua vida a outra pessoa sem que você tenha escolhido isso é meio assustador para uma criança ou para um adolescente.
Vivo sozinho há quase cinco anos e confesso que tenho desfrutado da minha individualidade e esse pensamento me vinha vez ou outra. Mas eu o espantava como a uma nuvem.
Certo fim de semana, fui visitar meus pais e minha irmã. Sentei à mesa para tomar café e a observei andar de lá para cá, como sempre faz. Olhei para minha mãe que falava sobre alguma outra coisa. E sem que eu formulasse uma idéia a esse respeito, de repente, a perspectiva de eu cuidar de minha irmã não mais me assustou. Certas idéias não são feitas para serem compreendidas, mas para serem aceitas no devido tempo.
Os autistas também cultivam, talvez cultivar não seja o verbo certo, sua individualidade. Para eles, o mundo é algo particular ao extremo, tão ao extremo que é difícil se relacionar com as outras pessoas e há até quem diga que eles não têm emoções em relação aos outros. Para o autista, a realidade é algo acabado e novos elementos em seu mundo quase nunca são bem-vindos e ele os rechaça.
Quando chega um móvel novo na casa, minha irmã costuma ficar nervosa. Ela detesta ser tocada e evita isso. É ela quem, raras vezes, toca você, se ela gosta ou está acostumada com sua presença. Qualquer ameaça à sua individualidade – embora ela não entenda essa palavra e nunca venha a entendê-la – é evitada.
Na verdade, todas as pessoas são autistas em maior ou menor grau. Todos têm seus limites, suas fronteiras a não serem rompidas, embora nunca se saiba quais são eles, dependendo da situação, pessoas, pressão barométrica. Existe a normalidade, que é aquele parâmetro determinado pelo encaixar da maioria, e existem os desvios. Para mais e para menos.
Às vezes, certos comportamentos meus fazem-me pensar que estou para além da normalidade, capaz de abrir mão de minhas necessidades individuais. Mas os piores momentos são quando você descobre que ultrapassou as regiões limítrofes, que nem conhecia. Nunca se sabe qual será a reação nessas horas e o quanto você será compreendido. As pessoas podem agir com o discurso do coitadinho, o da benção ou, mais comum, afastarem-se do que não entendem. Poucos olharão com os olhos da normalidade. Mas todo mundo já passou por isso alguma vez.
A grande verdade é que, naquele dia, em que o moleque apontou-me o dedo para dizer que eu estava comendo arame, eu tive o meu mundo invadido e invadido ele foi por todas as pessoas que andavam pelo calçadão naquela hora.
Pelo menos no que diz respeito a aparelhos ortodônticos eu sei qual é o meu limite.
Um comentário para "Aparelhos bucais e autismo"
Pra mim sempre foi muito mais fácil compreender o autismo do que pessoas que parecem não ter limites na maneira em que se doam pros outros. Eu não acredito que façam isso por bondade e sim por anormalidade mesmo.
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