Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
2 dez 2009
Hoje, no Mercado Municipal de Curitiba, paguei R$ 3 por um cestinho de amoras.
E lembrei que, quando era criança, havia um pé delas no quintal de minha casa. Antes da escola – eu estudava à tarde – eu subia no telhado do paiol onde meu avô guardava ferramentas e outras utilidades e, direto da árvore, sem lavá-los, comia os frutinhos.
Sua abundância – e nossa incapacidade de aproveitá-la por inteiro – fazia com que muitas frutas caíssem ao solo. Passávamos por ali e levávamos a tinta roxa esmagada sob nossos pés até as calçadas e assoalhos. Um dia, portanto, por motivo de limpeza, cortaram o pé de amoras. Na época, pareceu-me razoável.
Mas hoje – pagando R$ 3 por algo que eu, na infância, tinha por graça e em quantidade maior que eu poderia consumir – percebi que mais valeria o chão tingido decorrente da queda dos frutos que cortar a árvore.
Hoje, a educação formal – quando colocamos nossas crianças numa escola a fim de que elas um dia passem no vestibular – é isso: poda-se a amoreira para que ela não faça tanta sujeira e, no final, paga-se R$ 3 por algo que teria por graça e em uma abundância que mal poderia abarcar, caso não se tivesse sido tão de acordo com as normas sociais de limpeza -.
E se a criança for agitada, criativa e interferir por demais na uniformidade dos assoalhos e calçadas, diagnostique-a com Transtorno de Déficit de Atenção, dê-lhe um remédio e peça que se acalme.
Tenho 36 anos. Hoje estiquei o braço para onde estaria o galho da amoreira (cresci e não preciso subir no telhado do paiol) e encontrei o ar vazio.
3 comentários para "Amoras e escola"
Táequá,como dizia a Teresa,trabalhadora por muito tempo na casa de mamãe.
“Hoje estiquei o braço para onde estaria o galho da amoreira (cresci e não preciso subir no telhado do paiol) e encontrei o ar vazio.”
Que triste, né?
Oi Alessandro! Quando a amoreira aqui de casa ficar de novo cheinha de amorinhas vou te convidar para vir aqui pegar a quantidade que desejar; moro no Mercês. Topas?
Escreva um comentário