Em 1969 o homem chegou à Lua.

Ainda assim, ao olhar pela janela para essa figura branca silenciosa, não consigo pensar em nada melhor que deitar todas as noites ao seu lado.

E, então, deixo de achar a missão Apolo 11 tão fantástica.

Olho para para nosso satélite natural, aperto os olhos, e – cético – digo: não estou vendo ninguém lá em cima.

Acho que eu conseguiria viver achando que nunca se pisou por lá.

O café da manhã, provavelmente, teria o mesmo gosto.

“Ok, aquele solo de poeira prateada jamais foi tocado e atmosfera desconhecida jamais respirada.”, eu pensaria.

Em verdade, talvez nem pensasse nisso.

Sempre estou muito ocupado com jujubas para ser capaz de meditar sobre tais grandiosidades.

Você é mais inacreditável que pisar na Lua. E no entanto está aqui.

E, sim, conseguimos desdobrar o átomo.

Acordar diariamente com você, porém, me parece ainda mais fantástico que isso, simplesmente porque nunca sabemos direito como as cobertas foram parar no chão.

Descubram, cientistas. Investiguem. Jamais saberão, ainda que nos coloquem a rodar no Grande Colisor de Hádrons.

Atravessar o oceano em simples caravelas foi uma das maiores aventuras da humanidade que tateava as ondas na busca infrutífera de seus próprios desejos.

Nunca se colocou tantos que não sabiam nadar juntos. Dentro de uma casca de noz, para levar a madeira daqui para lá, a pimenta de cá para acolá, aquela gente era risco e esperança.

Ouvir sua voz diariamente é o eco de lugares que não vi, de lugares a que não fui, de lugares, afinal, sobre os quais não se grita, da gávea, terra à vista, pois não é terra que se veja. Antes é terra que não se avista.

Pois sou um cego e sua voz me guia pelo mar. Nos dias em que não a ouço, sou surdo.

E, finalmente, depois dos descobrimentos e das grandes navegações, um tanto após Cabral chegar aqui, os irmãos Lumiére inventaram o cinema.

Mas foi lá, do outro lado do oceano.

E assim se deu, naturalmente, para que nós dois, algumas dezenas de milhares de dias depois, déssemos um primeiro beijo. Numa sala, onde, numa tela, algo era projetado.

E beijo é só um nome de uma coisa que poderia ser outra, se nós, chamados de gente, tivéssemos não boca, mas algo inimaginado.

Boca e beijo, também palavras inventadas pela necessidade de se dizer algo sobre elas. Mas preferível é não dizê-las, pois a boca, mais das vezes não quer dizer, mas beijar e, ao beijar, cala.

Enfim, foi beijo e foi boca e foi cinema. Mas do lado de cá do oceano, sob uma lua e com o testemunho dos átomos divididos ou não.

Poderia ser em outro lugar.

O acaso tropeça e desce no ponto errado e nos coloca frente a frente.

Talvez eu não estivesse, como estou, escrevendo estas linhas, que vejo pulsar na tela com as mesmas partículas que um dia se propagaram em silêncio por vazios improváveis até chegar aqui, neste lugar, neste tempo, nestas teclas e que, um outro dia, se propagarão novamente.

Essas particulas um dia voltarão, dessa maneira, para de onde vieram. Mas por alguma eventualidade, elas estão agora aqui, brilhando à minha frente no exato formato a que chamamos letras e tentando dizer algo que eu não consigo.

Descobertas, aventuras, sonhos, sortes, azares, necessidades, desejos. O mundo parece grande demais para ser abraçado e descrito. Os acontecimentos, apenas sequências aleatórias demais para serem previstos.

Tudo o que preciso contar é: tenho a impressão de que o mundo é como é e todas as coisas assim se deram para que um dia eu conhecesse você.

Posso estar enganado, mas mesmo meu engano a traz mais para perto.

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