Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
7 mar 2010
Para entender, é preciso que um dia você tenha ido sozinho a um bar. Para comer ou beber alguma coisa, por exemplo.
Por mais que você vá sozinho a um bar e saiba que isso significa comer ou beber alguma coisa sozinho e sozinho voltar, há sempre nesse gesto a possibilidade de encontrar alguém. Ainda que não se admita.
Um amigo velho ou novo, uma mulher por quem se possa apaixonar e a quem se possa fazer apaixonar. Ou apenas trocar aquelas palavras efêmeras que, eventualmente, mudam uma noite ou uma vida ou simplesmente o trajeto de volta para casa.
À medida que o bar lota e as outras mesas são tomadas, algumas pessoas vem até ele para lhe pedir uma das cadeiras que, evidentemente, não usa. Digamos que haja 4 cadeiras à mesa. Três estão livres, portanto.
- Eu poderia levar esta cadeira?
Sim, por que não?, responde o homem, por favor.
E um segundo vem e pede outra cadeira. O bar enche cada vez mais.
A terceira cadeira, no entanto, é delicada.
Se alguém lhe pedir, o homem não será capaz de negá-la. Os solitários costumam ser gentis.
Porém, note que há algo de peculiar em uma mesa de bar com uma única cadeira, um homem sentado nela. Não parece que o ambiente combina com isso. Uma mesa, uma cadeira, um homem – tal conjunto -, mais lembra um escritório. Faltariam apenas os papéis e talvez uma gaveta. Temos um prato ou uma garrafa e um copo sobre ela.
O contraste das outras mesas, cheias, é marcante.
A terceira cadeira, assim, é a fronteira entre a resignada solidão – permanente ou momentânea – e a possibilidade de um encontro inesperado. Um assento vazio é a diferença entre um cabo que se estende pelo oceano e uma ilha deserta.
Assim, nunca peça a única cadeira vaga de uma mesa onde um homem sozinho bebe ou come. É sua última companhia nessa noite. É para ela que ele olhará – depois de pagar a conta, enquanto deixa o lugar -, pensando em tudo que aquela noite seria e não foi.
5 comentários para "A terceira cadeira"
Não sobre “A terceira cadeira”, mas sobre o “Fragmentos Fotográficos 29″. Sou apaixonada por este fragmento desde meus 15 anos e hoje com 20, num retorno ao orkut e ao que preenche o campo “paixões” desde aquela época, senti exatamente o mesmo arrepio macio de 5 anos atrás. Paixão por intensidade & liberdade, pois bem. Esse fragmento lindo e lindo e lindo me dá aquela vontade deliciosa de viver e eu preciso te agradecer por ele e pelas sensações ele me traz a tanto tempo!
Um beijo carinhoso ao som de Titties n’Beer,
Rafa.
Humm muito profundo, gostei!
Já perdi a conta de quantas vezes bebi ou comi sozinho, muitas das vezes foi por opção. Na maioria delas sempre encontrei alguém, algum conhecido e/ou conheci pessoas para dar boas risadas ou infelizmente me perguntar porque sai de casa naquela noite. Resumindo, sentar-se em uma mesa ou balcão para beber sozinho é um desaforo ao dono do bar, pegar a terceira cadeira é pior ainda!
Comentários como o da Rafaella devem fazer valer a pena ser escritor!
Impecável, Alê.
E nostálgico tbm, pq é fácil se identificar com o texto!
Gostei bastantão =)
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