O lead – parágrafo inicial em que se deve responder às perguntas básicas o quê, onde, quando e como – matou milhares de ótimas histórias em nome de uma suposta objetividade.Disseram que este monumento do jornalismo moderno foi uma grande invenção. De fato, o lead está para o texto como a guilhotina está para a realeza francesa.

A idéia de uma lâmina que separa o essencial – a cabeça – do aparentemente não tão essencial – o corpo – sempre será notável.

Nasceu – o lead, não a guilhotina -, entre outros motivos, para dar a informação rapidamente ao leitor. Talvez para competir com a televisão e com o rádio, imbatíveis na modalidade dos 100 megabytes rasos.

Mas, meu caro, pergunto-me se aqueles que preferem a tevê ou o rádio já não têm a informação veloz nesses veículos, usando então o jornal para forrar o chão do carro.

Ei de concluir, por outro lado, que aqueles que gostavam e gostam de ler – a ponto de, no século passado, se darem ao trabalho de ir até uma banca – preferem derramar os olhos sobre um texto um pouco mais saboroso que aqueles ainda ensinados com deleite e técnica nas faculdades de jornalismo. Sem se importar que nesse derramar percam-se dez ou quinze minutos.

Os repórteres de hoje mantém a direta proporção para o texto tal o chapeiro do McDonalds mantém para a comida. E como há chapeiros do McDonalds.

Enquanto, ainda na década de 1990, já se começava a admitir a derrota do papel para os meios eletrônicos – no que diz respeito à velocidade em que se divulga coisas sem significado – e já se falava que a solução para os jornais impressos era a análise da notícia, as faculdades continuavam no exercício da formação de meros relatoristas.

A objetividade é um dos grandes males do jornalismo moderno. Em nome dessa abstração os textos jornalísticos despencaram em qualidade mais que o coiote do desenho animado.

Tenho certeza de que o carimbador frenético do SUS conta uma história que ele viu na rua com muito mais paixão do que 97,3% da geração formada nas faculdades de então.

O atropelamento de um cachorro sarnento viraria um Guerra e Paz pela boca desse suposto burocrata, enquanto o relatorista diplomado só saberia dizer o local, a hora e o fato. No máximo escreveria se o cachorro tinha três ou quatro pernas. Se, é claro, fosse capaz de observar isso. E, ainda assim, esse detalhe estaria no final do texto por ser algo menos importante na pirâmide invertida. O sujeito seria capaz de ir ao circo e voltar sem matéria porque o circo incendiara-se e, por isso, não houve apresentação.

Eu lhes digo que a pirâmide invertida é uma espécie de ovo que não pára em pé e novas propostas para ela já começam a surgir. Tive aulas com professores que falavam com orgulho da pirâmide invertida e, no entanto, não saberiam diferenciar um triângulo de um quadrado.

A verdade é que um bom jornalista não precisaria nem olhar para o fato para contá-lo da forma que mais interessaria ao leitor. Provavelmente, o mais interessante está ocorrendo ao largo, nas ondas de choque das conseqüências. Pense: em geral o centro de um terremoto está no meio do mar, onde só há água e peixes. Possivelmente, o bom jornalista está de costas para o núcleo dos acontecimentos.

Numa corrida de cavalos, por exemplo, o que menos interessa é o cavalo vencedor. Se ele bateu um recorde? Bobagem. Isso, até um mero cronômetro é capaz de observar. A tragédia humana escapa às engrenagens e aos ponteiros.

Há coisa de um ano, de fato, fui fazer a cobertura do Grande Prêmio Paraná. Tive a felicidade de ter tempo de assistir a diversos dos páreos sem pressa. E, acima de tudo, fui acompanhado de um fotógrafo com o qual formei uma boa equipe. Considerei o resultado bom, com o registro do drama todo, com uma história de modo simples, rápido e eficiente.

Mas claro, o jornal só teve espaço para o cavalo vencedor e os tempos de cada páreo, trocando o que interessaria a todos, ou a quase todos, por aquilo que só interessa aos fãs de corridas de cavalo.

Porém, nada contra as corridas de cavalo e os seus fãs. E também, claro, não culpo o editor, tão vitimado em sua função quanto o relato, como trabalho, ou eu e o fotógrafo como autores.

Objetivamente falando, as coisas são assim.

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