À Natália Ayala,
que ela esteja
sempre presente
em Cracatoa

A menina do último quarto da casa finge que mora atrás da porta proibida do Indiana Jones. Pendura-se no teto todas as noites e joga coisas macias, ursos de pelúcia, por exemplo, nos visitantes. Eventualmente coisas duras, como tijolos. E grita eu te amo aos que passam sob o lustre.

A verdade é que não há lustre no quarto da menina do último quarto da casa.

Mas quando ninguém vê, ela dorme no teto. Claro, as pessoas proíbem as outras de tirar sonecas em tais lugares. Por isso ela o faz escondido.

Não há sentido.

Mas ela não se preocupa demais com sentido, não, pois os perde toda vez que lembra do amor de sua vida. Finge desmaiar como uma camélia ao amanhecer. E quando você chega perto, bem perto, perto mesmo, ela belisca seu nariz. Esse negócio de perder o sentido pelo amor de sua vida é muito esquisito para ela. Porém, ela gosta de brincar com isso.

Afinal sabe-se lá o que é o amor, o que é a vida, o que é a batatinha-quando-nasce-que-se-esparrama-pelo-chão. O que é isso tudo, Charlie Brown?, ela perguntaria. Putz, o que é uma camélia? E elas desmaiam ao amanhecer, hein, Charlie Brown?

Que bobagem, pensaria. E, no lugar do que pensou, falaria um palavrão. Tudo bem falar palavrões, eventualmente. É apenas uma bobagem.

Acontecem coisas no quarto da menina do último quarto da casa. Alguns a temem por isso. Outros ficam fascinados. Outros não estão nem aí. Mas é porque não a conhecem. Como ficar indiferente a ela? Como não querer saber para que santos reza e quais arremessa por sua janela?

Ela já teve uma jaqueta de couro cheia de tachinhas por volta da década de 80. Vendeu um Chevete roxo caíndo-aos-pedaços em 1973. Atirava balas de canhão contra os navios piratas que ousavam navegar próximos a Madagascar em 1834. Alguma coisa assim. Tanto faz.

E nem era nascida nessas épocas. Sabe que não precisa ter nascido para fazer coisas. Pois tem gente que nasce e não faz nada. Ora, a recíproca é correspondente e a correspondência é recíproca.

Para ela, qualquer redundância, obviamente, é pleonásmica. Como se pode ver, é esperta a menina do último quarto da casa.

E sabe que, nos direitos constituídos de um ser perfeito e belo de um universo regido pelas leis da física, da química, da matemática e da paçoquinha aplicada, ela é a coisa mais bonita desse mundo. Por isso, a Voyager 1 e a Voyager 2 viajam pelo cosmos. Para comprovar, a tola possibilidade de haver algo assim em outros planetas. Quem precisa de vida inteligente quando se tem dois olhos bonitos assim? Mas eu já disse que ela é esperta, não disse? Então tá.

De forma alguma quero desagradar a menina do último quarto da casa. Pois nada pode haver de pior que não ser amado por ela. Pois se você é assim é porque é uma pessoa muito ruim e feia e com cara de mamão. É que ela tem tanto amor que ela o ama mesmo se você for um sapo verde e verruguento. E se ela não o ama é porque você é pior que um sapo verde e verruguento.

Eu não sou um sapo verruguento!!! Ela sabe que eu tenho uma careca brilhante e me chama de Xavier, por me achar parecido com o professor dos X-Men.

Mas essa coisa toda que eu escrevo agora é para contar um segredo da menina do último quarto da casa. É um segredo que talvez ela nem quisesse que eu contasse.

A menina do último quarto da casa não é mais uma menina. É uma mulher já. Ouviram? É uma mulher! E a vida – o que é a vida, Charlie Brown? – abre a boca cheia de dentes pontudos e ela a enfrenta com a desenvoltura de quem atirava contra os navios pirata em 1834. Na verdade, a vida não lhe oferece uma mordida, mas um sorriso. Uma gargalhada que não é mais gostosa que a sua própria risada. A vida, Charlie Brown, para ela é um filme de Fred Astaire, leve como um bailarino que flutua pelo salão. Ela faz patinação artística nas veredas em que outros quebram a poupança.

Mas o maior segredo da menina do último quarto da casa, e esse é bom que todos saibam, é que o último quarto da casa, na verdade, é o primeiro quarto da casa. E a casa não é uma casa. É um navio. E, de seu quarto – o primeiro da casa, ou do navio -, essa menina, essa mulher, com Indiana Jones como auxiliar, comanda um ataque feroz aos piratas que passam próximos a Madagascar.

Isso em 1834.

Em 1835 a vitória é dela. E para todo o sempre.

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