Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
31 jul 2010
Com a chegada do Page Maker e outros softwares de editoração gráfica, tornou-se prática comum nos jornais colocar um título, uma legenda ou uma assinatura provisória antes de se escrever a definitiva, que vai para as bancas.
Por exemplo, enquanto o editor não decide se a manchete vai ser “Brasil Perde a Copa” ou “Voltem de Varig Vagabundos”, o diagramador escreve algo enriquecedor e bem visível como “Asdfg Asdfg Asdfg”.
Bem visível e que dificilmente passaria em branco pela revisão posterior do editor.
Acontece que nem todos têm o juízo de usar deste expediente do asdfg.
Isso tem rendidos histórias interessantes.
Eu tive a oportunidade de testemunhar uma muito engraçada quando trabalhei no Jornal Indústria e Comércio, em Curitiba, no final da década de 90, no começo de minha vida de jornalista.
Na página 2 do jornal, uma das mais nobres, onde ficava o editorial, era comum haver a publicação de artigos de leitores que de alguma forma, economica ou ideológica, estivessem ligados ao jornal, fossem empresários, presidentes de sindicatos, industriais e coisas assim.
Nem sempre aquele que enviava o artigo tinha a sensatez de dizer no próprio corpo do texto, no final, que enviou por carta, por fax ou à cavalo, o seu cargo ou a posição na empresa ou na associação de que participava. Às vezes, sequer dizia de que associação era.
Assim, enquanto o editor da página não descobria isso, o diagramador escrevia no rodapé do texto “Fulano de tal é xyzxyz da empresa asdfg asdfg”. Isso quando não escrevia simplesmente as tais letras, para ficar mais evidente na hora da revisão final.
Numa manhã cheguei ao jornal e o telefone logo cedo tocava.
- Alô. Eu quero fazer parte da associação.
- Que associação, senhor? Aqui é o Jornal Indústria e Comércio – respondi educadamente.
- Eu sei. Mas eu quero fazer parte dessa associação do cara da página 2.
Imediatamente, pelo tom jocoso da voz do sujeito percebi que algo estava errado.
Abri o jornal na página 2 e lá estava, no rodapé.
Eu devo ter piscado algumas vezes, talvez tenha até esfregado os olhos com as mãos. Mas estava lá. Escrito com todas as letras. O artigo, sobre algum assunto econômico do estado, e, no rodapé:
“Fulano de tal” – não lembro o nome e nem se lembrasse escreveria aqui – “é presidente da Associação do Cacetão Enorme”.
Chamaram até a polícia para descobrir quem escreveu aquilo – um exagero da chefia obviamente -, mas jamais souberam quem foi. Jamais descobriram.
Mas o motivo não tenho dúvida de que foi falta de asdfg.
2 comentários para "A falta que asdfg faz"
Dia desses vi um print de um jornal inglês, “título em negrito 22 pt”, e na capa, o que é pior. Até fiquei na dúvida se era real, mas depois dessa não duvido.
Esse é o único tipo de situação em que acho o CAPS LOCK útil.
Se bem que correria o risco de o revisor achar que é alguma abreviatura.
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