Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins
26 nov 2008
Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
O Elefante,
de Carlos Drummond de Andrade,
em A Rosa do Povo.
O meu bicho de estimação é uma baleia e eu nunca a vi. Mas sei que existe. Vive fora do meu quintal, porém, assim mesmo a estimo. Por isso, de estimação. Como negar?
Neste instante mesmo, gigantesca, divide ao meio o mar que a circunda. Com a cauda, para lá e para cá joga a água para oriente e ocidente e impulsiona-se à frente, ao norte. Não, ao sul. Não. Para onde queira.
Minha baleia jamais encalhou. Detestaria sair no Jornal Nacional. E corre tanto dos navios baleeiros, que a matariam, quanto dos navios do Greenpeace, que a protegeriam. Ela não quer a selvageria nem o paternalismo piedoso. É um bicho selvagem e acha que os humanos sim mereciam ter mais quem os amparasse.
Acredita na fragilidade dos homens que só de longe viu nas praias, em aglomerações. Nem por isso engoliu Pinóquio e seu avô ou Jonas. Crê nessa delicadeza e por isso a evita, como quem sabe que, se tocá-la, a destruirá. Tivesse mãos, veria flores sem arrancá-las da terra.
Nunca viu flores.
Ama artes. Se a caça às baleias nunca ter acontecido implicasse a não existência do romance Moby-Dick, de Melville, abriria mão do sossego e daria um jeito de inventá-la.
Ela é uma ilha viva, obesa de coisas que ainda não viu e nem sonha ver. Nem precisa ver. Em seu dorso, que respira lentamente, poderia ser projetado um filme. De Carlitos, por que não?
A baleia bóia como um barco de carne, osso e esguicho. A água que sai do alto de sua cabeça é como o dos desenhos animados, a única árvore que arvoresce nos oceanos e em seus galhos uma criança nadaria com a alegria dos que flutuam no inimaginável.
Seus olhos são o espelho da alma. Não da sua. Mas de um pequeno grilo que vive em Sapezal, no Mato Grosso, uma cidade tão obscura que para chegar lá você passa por uma reserva indígena e precisa pagar dez reais de pedágio pela ida e dez reais de pedágio pela volta para os índios bacawais e seringais. Esse inseto é a sua única ligação com a terra, insuficiente portanto para dar-lhe desejos de botar os pés, que não tem, no chão. Por outro lado, o grilo tem estranhas vontades de se atirar no riacho.
O coração dela bate poucas vezes por minuto. Mas pulsa forte. É possível ouvi-lo nos momentos mais quietos da noite. Se estiver próximo ao mar, com isso, é fácil saber em que direção ela se encontra, como um sonar.
Perturbadora, às vezes, sua existência. Não importa a situação da minha vida ou a dos que me cercam ou a dos que não me cercam mas que são meus contemporâneos. Que eu sofra, que eu ame. Que se matem os povos entre si ou que se congratulem festivos. O seu nadar é independente. Aconteça o que for, a massa fabulosa corta indiferente, mesmo à noite, a água gelada. A baleia é um ato alheio às alegrias e às desgraças, mas é mais consciente que o sol ou que uma montanha.
Ela não tem casa ou abrigo e está sempre ao relento. Sua barriga, porém, não conhece brisa ou afago mas é feliz e com umbigo.
Meu animal de estimação – e provado está que o estimo, pois o conheço – é tão grande que não se pode dizer que nade, mas que, sim, navegue.
Mesmo figurativamente não caberia em mim. Mas enche meu coração de mar.
2 comentários para "A baleia"
Achei tão lindo que nem sei direito o q escrever, Ale.
J.
não precisa dizer nada… já disse.
Beijos do Ale.
Escreva um comentário