Crônicas e contos de Alessandro Martins
5 Jul 2008
No meio da noite, os dois acordados, estendidos na cama.
Ele - Acho que tenho tênia.
Ela - …
Ele - Sabe tênia?
Ela - Como é?
Ele - É um verme que fica na barriga da gente. Come muito. Faz você sentir muita fome e tal.
Ela - Não, não… eu sei o que é uma tênia…
Ele - Então por que perguntou…?
Ela - Não… não perguntei… apenas achei estranho que tenha resolvido dizer isso agora, a essa hora da noite… sabe que horas são?
Ele - Deixa eu ver o celular… são 3h44.
Ela - Então…
Ele - Então eu acho que eu tenho tênia…
Ela - É? Mas por que você acha isso?
Ele - Sei lá… é um pressentimento…
Ela - Claro.
Ele - Sabe quando você sente uma coisa estranha dentro de você e não sabe exatamente o que é… sei lá, uma coisa…
Ela - Sei, sei…
Ele - … bem… tenho sentido uma coisa assim nos últimos dias… só pode ser tênia.
Ela - …
Ele - Minha avó dava remédio para matar vermes para meus tios. Saía lombriga até pelo nariz. Era nojento.
Ela - Eca… nojento mesmo… dá para mudar de assunto?
Ele - É que uma coisa puxou a outra… tênia, verme, lombriga… o pensamento funciona por associações…
Ela - E o que você pensa fazer a respeito?
Ele - Nada… a mente funciona assim… é normal.
Ela - Eu estava falando da tênia.
Ele - Você também está com tênia?
Ela - Não.
Ele - Então não precisa fazer nada.
Ela - Eu estava falando sobre sua tênia.
Ele - Ah, claro.
Ela - Então?
Ele - Então é isso. Não vou fazer nada.
Ela - Como assim? Acaba de achar que tem tênia e não vai fazer nada? Não vai ao médico?
Ele - Não… acho que não vai ser preciso… tenho a impressão de que já gosto dela, estou me acostumando, entende?… as tênias são tão, tão, tão…
Ela - Solitárias?
Ele - Como sabia que eu ia dizer isso?
Ela - Sei lá… o pensamento funciona com associações, você sabe.
Ele - Pois é… sei sim. Por falar nisso, sabe que horas são?
Ela - Deixa eu ver aqui no celular… 3h51.
Ele - …
Ela - …
Ele - Sabe?
Ela - Hm.
Ele - Estive pensando.
Ela - …
Ele - Pode ser que com essa tênia… eu esteja largando proglotes por aí… contaminando o mundo…
Ela - Sei lá. O que é proglote?
Ele - São os anéis da tênia… por onde ela larga os ovos.
Ela - Eu não sabia que as tênias tinham dedos, quanto mais se usavam anéis…
Ele - …
Ela - …
Ele - Na verdade elas não têm dedos… o corpo da tênia é formado por anéis… e tal… ela os larga com ovos… são os proglotes.
Ela - … “… vão-se os anéis e ficam os dedos”. É o que diz o ditado…
Ele - … não… não é isso… deixa pra lá. Esquece isso de proglotes…
Ela - Proglotes…
Ele - …
Ela - Proglotes…
Ele - 4h10…
Ela - Proglotes…
Ele - …
Ela - Acho que não gosto de palavras com “gl”…
Ele - Como assim?
Ela - Proglote, glote, Gladimir, glacial, glosa…
Ele - Eu entendo… entendo… eu, por exemplo, gosto muito de palavras com vr…
Ela - Vrum, vrum, vrum. Típico de meninos…
Ele - É que me parece tão improvável o encontro dessas letras…
Ela - Proglote…
Ele - Acho que precisamos dormir…
Ela - Tem razão…
Ele - Então vamos…
Ela - …
Ele - …
Ela - …
Ele - O que é glosa?
Ela - Sei lá… não vou pegar o dicionário agora…
Ele - Tá bom…. acho que tem alguma coisa a ver com poesia… alguma coisa assim… glosa…
Ela - Deve ser…
Ele - Glosa…
Ela - …
Ele - Glosa…
Ela - …
Ele - Acho que também não gosto de palavras com “gl”…
Ela - Eu entendo…
Ele - Esse encontro de letras para mim soa como, como, como… passar doce de banana em um pedaço de melancia… não combina…
Ela - Sei lá… metáforas não funcionam comigo…
Ele - Como assim?
Ela - É isso. Metáforas não funcionam comigo.
Ele - Como você consegue viver… se comunicar e tal?
Ela - Sem metáforas. É possível viver sem metáforas. Posso respirar sem precisar pintar o ar de azul para entendê-lo.
Ele - Ei.
Ela - O quê?
Ele - Isso.
Ela - Isso o quê?
Ele - Isso foi uma metáfora…
Ela - Sei lá. De qualquer forma não preciso delas para viver. Elas simplesmente não funcionam comigo.
Ele - 4h30.
Ela - Vamos dormir…
Ele - Isso… vamos dormir…
Ela - …
Ele - …
Ela - …
Ele - E onomatopéias?
Ela - What?
Ele - Onomatopéias funcionam com você?
Ela - Morro de medo desses bichos.
Ele - Acho que você… bem… não, uma centopéia… Parece uma minhoca com muitas pernas… e eu estou falando de onomatopéias… a figura de linguagem… brum, crash, tchibum, prucurundum…
Ela - Sei. Você tinha acabado de falar que a tênia não tinha mãos, dedos, anéis e tal… e agora vem com esse papo de minhoca com muitas pernas… melhor dormir…
Ele - …
Ela - … e que faz barulhos estranhos…
Ele - …
Ela - … escuta… que horas são?
Ela - Acho que é tua vez de olhar…
Ela - 3h40.
Ele - Como?
Ela - Digo 4h40…
Ele - Ah, bom… por segundos achei que o tempo tinha voltado…
Ela - Que inferno…
Ele - Ei… o tempo não voltou? Diga que não…
Ela - … dormir.
Ele - … dormir.
Ela - …
Ele - …
Ela - …
Ele - Você tem certeza de que não sabe o que é glosa?
5 comentários para "Insones"
Grrrrrrr!!!!
ahuahauhauhaaa me acabei de rir…
cara, que insônia… produtiva! \o/
e eu tbm não sei o que é glosa =P~
real e surreal ao mesmo tempo. Gerou uma discussão sobre o significado de glosa, por aqui. =D
Abraço!
E eu fiquei pensando no tempo!
Como é que eu nunca tinha entrado aqui antes?
Quanto tempo perdido……….
Glosa…. Eles fazem muito isto aqui no hospital…
Sempre dizem: “Cuidado! Se não preencher direitinho, o prontuário glosa!”
Tenho medo… Parece que vão explodir com o prontuário. A primeira vez que me devolveram um prontuário glosado eu senti taquicardia… Matei o pobre coitado!
Argh.
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