Na casa de minha avó, em Laranjeiras do Sul, numa das férias de inverno, quando costumava viajar para lá, encontrei um grosso caderno preenchido completamente por uma bela letra de homem.

Segundo descobri logo nas primeiras páginas, ele pertenceu a alguém chamado Erns Leme.

Minha avó não sabe como ele foi parar naquele baú. Alguém o deixou lá ou, como costuma acontecer, os baús fazem surgir, entre as coisas já velhas, coisas ainda mais velhas.

O caderno traz muitas anotações. Não há uma unidade. Por vezes Erns fala de seu dia-a-dia, mas isso não é uma regra. Às vezes surgem devaneios de alguém com alguma pretensão literária.

Para ser sincero, não sei sequer se ele realmente se chamava Erns Leme. O fato é que eu, ainda criança - mas sempre fascinado por letras manuscritas, hoje tão raras -, resolvi guardar aquelas páginas comigo.

Não sei dizer a idade do autor. Por vezes ele parece jovem, por vezes velho. Algumas páginas são datadas, outras não. Só sei que elas vão de um período que vai de 11 de setembro de 1959 a 16 de novembro de 1966, datas da primeira e da última nota.

A partir de hoje eu devo mostrar a você alguns trechos desse diário.

Peço que, se alguém conhecer Erns, me dê notícias de quem foi esta pessoa, pois a sua misteriosa existência, de certo modo me tortura desde a época em que eu era criança. Qualquer pista serve.

Do diário de Erns Leme. 13 de agosto de 1962.

O meu rosto mudou. As rugas novas se juntam às já velhas. O meu rosto mudou. Não é como uma máscara, que se sobrepõe à pele e engessa as expressões. Não é como uma máscara isso que sinto.

As expressões estão no mesmo lugar, com o mesmo peso ou leveza, com a mesma memória de movimentos.

Eu sorrio e sinto o sorriso do mesmo jeito como sentia quando era ainda um jovem. Sorrio, mas o sorriso não ressoa mais como antes. Camadas de alguma coisa impedem que chegue do mesmo jeito às camadas mais arejadas.

Tive tão pouco tempo de sorrisos realmente legítimos. Talvez tenha dado apenas dois ou três. E, agora, que de fato aprendi a dá-los é como se estivessem submersos sob um oceano de tempo. Como se fosse um mergulhador e não conseguisse chegar a tempo à superfície, a tempo de respirar, a tempo de não perder a consciência. Meus sorrisos chegam à atmosfera talvez já desmaiados. Partos difíceis, meus dentes são natimortos.

Aprendi a cantar mas já sou mudo. Ou, antes, sei cantar, mas me falta a naturalidade. Apenas leio a partitura.

Sentado à mesa, cercado de pessoas que também sorriem seus sorrisos sedimentados pelo tempo, pela primeira vez, tenho medo da morte.

Mas - silêncio, cabeça - alguém vai fazer um brinde.

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