Você deve me achar o pilantra por ter invadido a sua privacidade. Ênfase no o. Não, não vou responder dizendo, no melhor estilo jardim de infância, que pilantra é você. Ênfase no você. Afinal, nem é preciso. Te peguei. Eu vi o email que ele escreveu. Ninguém mandou ficar logada no meu computador. Fui entrar para ver a minha caixa de entrada e lá estava a sua. E, nela, uma pasta com o nome do outro pilantra. E, lá, estava a mensagem. O cara chegava a usar o termo fazer amor. Ênfase no r. Só faltou desenhar coraçõezinhos. Sinceramente, fazer amor é coisa de bicha. Não o ato. Mas a expressão. Aliás, acho que bichas afinal não fazem amor. Bichas trepam. Como se deve. O sexo mais terno deve ainda ser tratado como trepada. Com a vulgaridade da palavra, protege-se o amor da vulgaridade das intenções canalhas e do romance barato de novela. Mas aposto que, até hoje, ele nem sabe que enquanto fazia amor, você teclava, nos intervalos, com um outro pilantra que, mais tarde, garantiu para mim - ele, como deve saber, era meu amigo -, estava apenas fazendo literatura com você. Fazer amor, fazer literatura. Será que estou cercado de bichas literatas? Esse chegou a perguntar se eu já não sabia da história e se eu não tinha cumplicidade com você. Respondi que não, que estávamos passando por uma má fase e tal. Fiquei diminuído, afinal eu não tinha cumplicidade suficiente a ponto, então, de você não me contar que estava fazendo literatura com outro cara? Que espécie de namorado era eu? Ênfase no eu. Mas esqueci de dizer para ele que, se não podia contar com a sua, eu esperava alguma cumplicidade dos amigos. Porém, como se sabe, pau não tem código de ética. Só me pergunto se o pilantra número dois sabia que você chegou a ir a outra cidade para ver o pilantra número três. Para fazer literatura ao vivo, se é que me entende. Enfim, não sei qual de nós foi mais covarde. Ênfase no nós. Eu por fugir primeiro e voltar atrás ou você, ao me ver fugir, correr para outros braços, sei lá quantos. E, depois, sem que eu soubesse desses braços, me cobrasse fodas mais apaixonadas quando voltei. Agora, não pode haver covardia maior que isso: não há como ganhar, em matéria de foda, de um novo amor. A pior metida de um novo amor é sempre superior à melhor do antigo. Ainda mais se ele já está inseguro das coisas que estão acontecendo. Ser cobrado nesse sentido, foi sofrer, sinceramente, a maior das covardias, sim. Foi como entrar no ringue de olhos vendados. Sem sequer saber que era um ringue. Ênfase nos socos. Eu sei que as pessoas mentem, eu sei que as pessoas falham. Faz parte e se você não consegue viver sabendo disso, é melhor se matar. Mas me aproveitar da cegueira de alguém, conduzi-la à aniquilação, isto eu nunca fiz. Tá. Aniquilação é uma coisa meio exagerada. Vamos usar a palavra nocaute, para manter a linha de raciocínio. Depois entendi que você é do tipo que não salta de uma pedra sem que o pé já esteja tocando a outra. Mas o rio que você está tentando atravessar é muito largo. Daqui não vejo a margem contrária. Talvez esse rio não seja para ser atravessado, mas seguido, na correnteza, sem esforço. Contra ela, mais possivelmente, mas tudo bem. Ênfase no tudo bem. Parece que você é movida por certo orgulho neurótico de ser assim, no fim das contas. Afinal, quem acredita em amor a primeira vista está sempre procurando o olhar do próximo. Ênfase sempre no próximo. É uma daquelas escadas impossíveis de Escher, em que parece que você subiu, mas está de volta ao andar de baixo e continua o ciclo. Chega. Estávamos falando de mim. Sinto-me uma casca vazia, se é que quer mesmo saber. Afinal você ficou com as lembranças. Disse que tem boas lembranças nossas, não é isso? Eu sempre achei mesmo que as lembranças certas ficam com as pessoas erradas. Você disse que nossa história foi boa, apesar do péssimo final. O que quer dizer que isso tudo não serve nem para se escrever um livro, certo? O final acaba dando significado ao início e ao desenvolvimento: isso quer dizer que as florezinhas do capítulo 15 viraram merda lá pelo capítulo 23 e, portanto, as florezinhas eram florezinhas de merda. Ênfase no fechar das páginas. Mas é isso o que você está vendo na sua frente. Uma casca vazia. Sem lembranças, sem amor, sem emprego, sem dinheiro, sem rumo, sem serragem por dentro das veias. Claro que estou magoado. Se você estava me ouvindo até agora deve ter entendido isso. Fui claro, não fui? O mais louco é eu ter pedido tantas desculpas quanto tudo virou merda. Eram pedidos sinceros. Eu me senti culpado. O engraçado é que fiz a coisa virar merda por ser sincero. Hoje me sinto culpado por ter me sentido culpado. Agora até entendo por que as pessoas mentem. Tem que ter muito culhão para falar de verdade o que se sente. E agora  é você quem vem me pedir desculpas como se fosse fazer realmente diferença depois de tanto tempo. A impressão que eu tenho é que só se pede perdão quando não faz mais diferença, os perdões são negados quando necessários e só se fala a verdade quando já é tarde demais ou quando se deveria mentir. Ênfase no tarde demais e no mentir. Assim, com o que aprendi dessa história toda, minha boca te perdoa, mas acho que sou fraco demais para ser sincero novamente. Ou então não sou forte o suficiente. As pessoas mentem, certo? As pessoas fraquejam, certo? As pessoas dissimulam, certo? É melhor morrer que não aceitar isso, certo? Perdôo você, então. Até dou um sorrisinho. Mas sou muito pilantra para ser verdadeiro a esse ponto. Sim. Pois ainda acho que mais pilantra é você. Porém, isso eu, sinceramente, calarei. Pilantra. Ênfase silenciosa no pi, no lan e no tra.

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  • Alessandro Martins