As abelhas são solitárias, disse-me ela.

A condição natural das abelhas é o vôo sem companhia. O enxame, a colméia são acasos, são a contradição de seus mais internos sentidos. Ela disse, enquanto uma passava perto do seu rosto, sobrevoava seus olhos. Seriam doces talvez e tive ganas de lambê-los.

O enxame, a colméia, um mal necessário. Os males, todos necessários talvez. As pessoas a nossa volta, com conversas paralelas e que não as levariam a lugar nenhum, violentavam palavras a que tentávamos dar sentidos ocultos.

Mas, se assim não fosse, uma abelha não sairia na busca, ficaria sempre junto dos seus semelhantes. O prazer, a luz, a certeza, o amor, o desejo, a verdade que há por trás das coisas, até das mentiras. Tudo uma busca. Para uma abelha, uma flor não é feia nem bonita. É alimento. Dê-me um beijo, seja minha guloseima nesta manhã, um sabor que se leva na boca ainda depois do manjar lentamente degustado. Não. Ela não disse isso, enquanto a abelha passava próxima a seus lábios sem medo.

Se assim não fosse, se assim não houvesse a necessidade dos tais vôos isolados, não haveria como garantir que houvesse flores na próxima primavera, mel no próximo inverno.

Porém, mais que cores quero néctar.

Não pensei nisso naquela hora. Pensei em qual seria o peso de sua mão direita atrás de minha nuca, a puxar-me em sua direção, as unhas pintadas de vermelho, a polpa macia contra o dorso de meu pescoço. Minha virtude, meu vício, os dois começavam a me arrebatar naquela direção sem que ela precisasse sequer me tocar, no entanto. Juntos ali, imersos na vontade, éramos um corpo sem gesto.

Abelha, em francês, deve ser uma palavra que rima com errante. Na verdade, não. Mas gosto de pensar assim. Na falta dela, tentamos inventar. Mosca do mel, quem sabe. Esfreguei as mãos meio pela expectativa do que poderia acontecer, meio para aquecê-las. Estavam frias naquela hora.

As abelhas são solitárias, disse-me ela.

Capturei-me a pensar sobre qual seria seu cheiro. Não seu perfume. Seu cheiro de mulher, cheiro de gente. Não seu cheiro eventual. Mas seu cheiro ali no agora, no exato instante em que, para mim, ela existia. Tive vontade de me aproximar mais, inclinar-me um pouco e achegar-me de sua pele. Não da região a que chamariam de garganta. Não da região onde as vértebras pronunciam notas musicais. Mas da parte intermediária, ali onde eu via uma artéria pulsar com doçura sob a pele claríssima. Em silêncio, dizendo mais do que nós mesmos dizíamos e relutávamos em parar, embora o dia corresse sob os cuidados de nossa distração mútua. Quieta pulsava, contava o tempo a se esgotar.

Finalmente, chegou o instante em que teríamos de nos despedir. As abelhas são solitárias, disse-me ela.

E me vi ali. Eu estava próximo ao mel. Pedi um bocado. Desde o primeiro instante, pedi. Mesmo antes de pedir, pedia. Pedi. Recebi.

Era o mel, era a picada.

Toda abelha tem um ferrão. Ainda arde. Delícia.

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  • Alessandro Martins