Aprendi finalmente que alguns amores - aqueles que não deram certo, sobretudo - são como certas dores das pessoas idosas, cujo corpo já carrega cicatrizes, alguns entorces mal recuperados, ossos mal regenerados depois de fraturas.

Por mais que o organismo esteja em boas condições no conjunto - feliz em sua integridade de organismo - basta que alguma condição climática se altere para que uma pontada se insinue ali ou um desconforto se pronuncie aqui, avisando da chuva por vir ou do frio que se aproxima.

Antes de serem insuportáveis, essas dores são sim um pouco incômodas. No limite para se fazerem notáveis.

Então, você desiste de lutar contra elas e entende que é preciso simplesmente aceitá-las. Na maior parte do tempo elas se deixam esquecer em algum lugar da geografia das células, mas estão latentes a espera de alguma particularidade atmosférica que vai novamente acioná-las. Elas fazem parte da anatomia da cura das dores realmente dolorosas. A alma se costura ao homem pelas cicatrizes e através da pele marcada deixa-se ver com mais facilidade.

E, assim, aceitas as dores, quando surgirem talvez sirvam até de companhia. Vê como os velhos falam sozinhos às vezes. Conversam sobre o clima com suas marcas.

Assim a vida segue. O corpo é forte como uma árvore cujos galhos amam o céu e as raízes amam o chão. É possível ser verdadeiramente feliz ainda que faltem alguns pedaços. A vida não é matemática. Não é completamente resolvível. Alguns problemas permanecerão sem resposta. Alguns problemas são a resposta.

Assaltado hoje por pensamentos aos quais pertenço, aprendi finalmente que dores tais são a definitiva expressão de certos sentimentos que jamais se resolverão até que a última cartilagem e o último nervo sejam esquecidos pela terra em que finalmente me aninharei.

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