Na parábola, a mulher que perdera uma de suas dez dracmas convidou a todos os vizinhos a celebrar, pois a encontrara novamente. O homem que tivera a ovelha desgarrada do rebanho de cem ficou feliz ao encontrá-la. Os egípcios tiveram sete anos de fartura e sete anos de absoluta falta de tudo, mas festejaram já que, previdentes, guardaram para o período infértil. Maria exultou ao saber fecundo seu ventre.

Falo disso, pois a excitação que vem em mim é bíblica.

Eu digo, irmãos: regozijai portanto. Em breve estarei nos braços daquela que verdadeiramente desejo.

Quero sentir-me novamente como o aventureiro que de sobre a pedra se atira na cascata, pois conhece as cascatas e sabe que lá embaixo há um fosso escavado pelas águas e seu corpo será acolhido. Com um impulso das pernas, aviltarei o espaço, abrirei o peito, colocarei as mãos à frente, desenharei a curva dos corpos sob a ação da gravidade e, de olhos bem abertos, penetrarei no rodamoinho.

Vou fazer aquela prece para que sejam fortes meus braços para melhor sustentar o corpo dela e para que sejam vigorosas suas pernas em torno de minha cintura. Que seus olhos me vejam como um animal, mas desses instruídos e sentimentais. E que eu veja este olho com outros mundos. Venham a nós todos os reinos, vegetal e mineral também.

Que ela se apresente como uma nova mulher, embora não se saiba e nem queira ser nova, e que eu me apresente também renovado, embora, na sua presença, eu me sinta antigo como as rochas, maleável e efêmero como um ramo de trigo. Sejamos dois desconhecidos novamente, para reter na boca o sabor do desbravamento. A terra prometida é apenas um passo adiante disso.

Serei terra virgem de ser pisada, ave única contra as montanhas, nuvem que passa silenciosa sobre o mar, sem chuva e sem trovoada. E que apenas desaparece para ressurgir quando ela precisar de sombra e refresco para os olhos. Desatarei suas sandálias e terei também as minhas desatadas.

Quero ser olhado, quero ser muito olhado tal fosse paisagem, tal fosse a primeira visão da vida. Quero ser muito cheirado, como o cheiro da primeira chuva do verão, que levanta da terra. Quero ser, para esta que também me deseja, um aroma que se pega com as mãos. Observe os lírios do campo e verá que nem eles nem o Rei Salomão foram agraciados pela seiva da manhã com tamanha intensidade.

Quero ser ouvido, em palavra, ruído e gemido, tal uma voz, não a que clama no deserto, mas a que pede mais e mais no lugar tão comum que é um quarto. Quero ser tocado com doçura e rispidez, alternada e simultaneamente, sim, com a doçura e a rispidez que só uma mulher sabe ter. E sorverei, feito a fruta doce da infância, o que ela vier a me oferecer, esta ou aquela. Sentirei que sou ungido por óleo consagrado, que sou tocado pelo fogo sem me ferir.

Estarei no amanhecer a esperar sua sentença. Que lave as mãos se quiser, mas se quiser também, toque-me com mãos impuras. Não importa. Agora sou tela. Que use, então, as tintas que preferir.

Terei, enfim, no cuidado e no descuido com que me dou, me empresto, me barganho, me vendo e me escracho, o prazer de ousar dizer sem reservas. Dizer que, enfim, ela sim, essa mulher me come. Não pelas periferias, mas de dentro pra fora, sem medo de queimar os lábios.

Tomai, então, mulher, e comei. Este é meu corpo que é dado pra ti para celebração dos nossos pecados. Não afastemos de nós esse cálice, mas o agarremos com as duas mãos e bebamos em nome de tudo isso.

Amém.

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  • Alessandro Martins