Debaixo do sol, com os pés na calçada, prestes a tocar com o sapato o asfalto antes de atravessar a rua, um carro quase me atropela. A diferença entre a vida e a morte tem um metro. Tem menos até. Milímetros. A linha que separa uma da outra recheia as partículas subatômicas. Mas não tenho medo. Tomo ciência dessas coisas e prossigo com um passo depois do outro.

Tenho pouco tempo. E todo tempo que tenho, não importa o quanto, pouco seria. Então, não há como hesitar diante das vitrines, ainda que precise passar por ele e ele por mim na velocidade certa, nem mais rápido nem mais devagar. Inexorável, ando. Por acaso ou por qualquer motivo, uma ave que vai em direção ao norte voltaria-se para o sul? Nunca ouvi falar disso.

Como todo ser humano tenho o hábito de espernear nas mudanças. Primeiro tento fincar o pé e evitar o que não se pode. Mas, depois, inevitavelmente esperneio. Cansa, isso de ser humano. Um dia a gente aprende a não se debater. Até um peixe na rede, uma hora, fica plácido, mesmo antes de asfixiar. Estou plácido, mas meus pulmões continuam a bombear vida pra dentro de minhas artérias, no milagre que não atinge os bichos da água. Mas certamente que morri. Eu me vi morrer. Estremeci e os lençóis estremeceram comigo sozinho na cama.

Mudo de casa, mudo de hábitos, mudo de mulher, mudo de roupa, mudo os pensamentos, mudo as emoções, mudo tudo, mas mantenho a direção. A ave mudaria? Nunca ouvi falar de uma que o fizesse.

Estou a um só tempo cansado e refeito. Fatigado do que passou e já é velho como algo que até enoja e, no entanto, pronto para o absolutamente novo. A dissolução é fácil e a reconstrução mais fácil ainda. Preservo, no entanto, fotografias em minha mente. Os elefantes não esquecem. Minha mente é um elefante, de gentil passada, mas pesado de lembranças. Um homem que passe pela vida sem algumas grandes mágoas não poderia ser assim chamado. Leves, viveríamos para sempre. Seria por demais cristão não ter fatos em sua biografia que não poderá perdoar. E que nem quer perdoar. Não precisa. Não me enganarei com isso. Nada menos cristão que ser por demais cristão.

Quero uma vida de verdade, um cão que me lamba os dedos, uma janela para abrir ao amanhecer. A certeza de que não sou eterno, de que não sou santo e também não sou verme. Que a lama cubra cada centímetro de pele, que eu seja pó e ao pó um dia eu volte.

A vida é isso, não um filme. Tem mais de duas horas. Não tem trilha sonora. Foi criada com um sopro e por ele impulsionada. Não cabe na tela. Não tem edição. Mas se eu não puder ter uma de verdade, que eu tenha ao menos um cão. E que ele me lamba os dedos. Há muita verdade num cão que salta ao o ver, mais do que muitos de nós sonharíamos.

Preciso me cercar de verdade. E de pessoas que queiram se cercar de verdade. Não importa quão relativa e mutável ela seja. Mas que seja.

Chega de medos mútuos, inseguranças recíprocas. Prefiro milhões de vezes ser só à possibilidade de um inferno feito de talvez. E como sei disso agora. E como antes não sabia. A dor ilude tanto quanto o prazer. Quero o fazer da constância, da disciplina - essa palavra feia, mas necessária -, do dia-a-dia, por vezes seco como o som de uma paulada.

Que os sonhos infantis sejam apenas o núcleo necessário do palpável, mas apenas isso. Tenham eles a devida importância, mas somente a devida, não mais. Quero carne, quero chão, quero metal e madeira. Água que molhe. Palavras sejam apenas para ler, para ouvir e falar.

Cansei de ser interpretado. Não sou texto de livro didático. Estou aqui na frente dos homens e das mulheres. Veja-me, toque-me. Sou feito de sangue e o sangue me anima.

A vida agora exige uma paisagem sem misticismo, pois o mundo não tem moldura. Árvores com moradores mitológicos e auras brumosas, não mais. Árvores com tronco de madeira e folhas verdes e que balançam à passagem da brisa dão melhor sombra. Montanhas com picos no arco-íris, não mais. De cima de montanhas de pedra e terra se vê horizontes mais definidos, enxerga-se ao longe com maior facilidade.

Mulher que lê, escute. Se não for capaz de segurar-me com as duas mãos, nem tente com uma apenas. Pois eu mesmo tenho apenas estas duas que mostro e espalmo defronte a seu corpo nu e que podem também segurá-la. Mas se não for capaz disso, com as duas mãos, nem tente.

* Sim, o título é uma citação de uma poesia de Drummond

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