Sujeito genial é o cara que inventa um clichê, um esqueleto de uma história, que, com algumas variações, pode ser aproveitado indefinidamente. Se vai ser bem ou mal aproveitado, bem, isso é uma outra história, um outro clichê.

Mas é o caso do Plano Infalível do Cebolinha. Diz a lenda que não foi Maurício de Sousa, criador da Turma da Mônica quem o criou, mas seu irmão. O fato é que centenas, talvez milhares, de historinhas dos gibis de Mauricio de Sousa tenham se baseado nessa estrutura.

Que é sempre a mesma. Cascão está distraído com alguma coisa. Chega o Cebolinha. Cascão nota alguma coisa estranha no olhar do amigo:

- Ah, não! Eu conheço esse olhar!

É o olhar do Plano Infalível para derrotar a invencível Mônica. E dessa vez, Cebolinha garante, é infalível mesmo. Cascão reluta, mas com alguma promessa ou ameaça ou argumento Cebolinha o convence. Então os dois partem para a execução. Tudo começa a dar certo e os dois ficam prestes a derrotar a amiga arquinimiga. E é quando Cascão dá com a língua nos dentes e entrega tudo. A Mônica descobre e os dois apanham. É sempre a mesma coisa.

Todos sabem como começa, como é o meio e como acaba. Um clichê atrai provavelmente por duas razões. Por um lado, eu me sinto inconscientemente - ou até conscientemente - muito inteligente por conhecer antecipadamente todos os fatos, suas conseqüências e desfechos. E, por outro, a coisa toda mexe com a esperança de que, no final, tudo dê certo.

Por isso, todos sabiam que, no final de cada episódio de Caverna do Dragão os heróis quase conseguiriam ir para casa, mas teriam que voltar por algum motivo. Charlie Brown quase conseguiria chutar a bola apoiada por Lucy antes que ela tirasse da frente de seu pé e ele levasse um tombo. David Benner iria embora ao som daquela música triste após, transformado em Hulk, ter salvo todo mundo. Todo mundo gostaria que essas coisas fossem diferentes, mas todo mundo, no íntimo, ficaria decepcionado se realmente fosse.
Certos clichês provocam nossa fé mais infantil e ao mesmo tempo despertam a vontade de frustrá-la, na mais babaca das frases:

- Eu não disse? Eu avisei que isso aconteceria.

É difícil hoje escrever sem clichês. Tudo já foi feito e não se pode fazer nada senão repetições, pastiches, colagens e afins. Provavelmente impossível. Só falar sobre isso já é um tremendo clichê. Por isso, acho ambição bastante escrever uma história, curta que seja, com pelo menos um acontecimento absolutamente surpreendente. E não me digam que essa ambição também é um clichê. Ela é. Mas chega desse assunto.

O que eu queria falar de verdade é desse casal do qual ouvi falar certa vez. Eles começaram a namorar aos 15 anos. Uma bela idade para se começar a namorar, em que descobre-se diversos fatos da vida e do amor. De início, sob desaprovação dos pais. Porém, aos poucos percebeu-se que ambos levavam aquilo a sério e, como tudo que é inevitável, todos acostumaram-se à idéia.

Os dois nasceram no mesmo mês. Eram do mesmo signo. No aniversário de dois anos de namoro, ele lhe deu um anel com o símbolo de peixes. Ele usava um igual.

Apenas uma semana separava as datas de nascimento. Isso. Cerca de 168 horas.

Mas, cada um de nós deve conhecer uma história parecida, aos 20 anos, com quase cinco anos de namoro, os dois resolveram se separar. E, como cada um de nós deve saber, essas decisões quase nunca são unânimes e sempre partem de um dos lados apenas. No caso, o lado dele.

De repente, ele olhou para fora da janela e viu outras garotas. Não que ela não fosse especial, mas ele precisava saber também das outras, uma necessidade interna, algo inexplicável que todo mundo tem de querer o novo. E o novo, para ele, por tê-lo experimentado pouco, era especialmente tentador.
Sim, ele conheceu outra garota.

Mas a sua namoradinha de peixes não gostou nada daquilo. Na verdade, ficou bem amargurada, como se fica quando alguém deixa de gostar e não se tem experiência suficiente para entender que alguns amores são assim mesmo. E, então, de tão triste ela ficou doente. E de tão doente ela morreu.

A família acompanhou tudo aquilo e sabia o que a tinha levado à morte. No fio dessa história, numa ponta havia o túmulo. Na outra, o rapaz.

O pai dela na maior parte do dia pensava em formas de vingança, como se o garoto tivesse culpa.

Até que um dia, o rosto já acostumado às tristes expressões daquele senhor se iluminou.

Então alguém bate à porta do apartamento do garoto. Uma intimação para depor. Ele descobre que está sendo acusado.

Entre provas, testemunhos, palavrórios advocatícios, evidências e tudo o mais, um longo julgamento, o final dessas complicações jurídicas foi o seguinte: o sujeito foi processado por sedução de menores pela semana em que ele foi maior de idade e a namorada foi menor de idade.

Aquela diferença de quase 170 horas.

Ficou pouco tempo na cadeia, mas aquilo rende problemas legais para ele até hoje. Afinal, pedofilia é uma palavra forte demais para alguém acreditar em suas explicações ou sequer para alguém ter vontade de ouvir os complexos desdobramentos do início ao fim.

Isso seria apenas mais uma história. Se não fosse pelo detalhe de esse jovem casal ser extremamente conhecido no meio cultural brasileiro.

Conhecidos como Mônica e Cebolinha.

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  • Alessandro Martins