Crônicas e contos de Alessandro Martins
5 Mar 2008

photo credit: not persephone
A intimidade - ou um entendimento mais profundo dela - aprendi ontem quando, deitados sobre o tapete, coloquei a mão sobre a sua perna. Enquanto víamos um filme com nossos amigos, a intimidade, de que falo, estava na cara, mas não podia ser vista. Ninguém perceberia como pousei os dedos sobre sua carne como se ela fosse a minha própria.
A densidade de sua matéria correspondia, naquele segundo, ao peso exato de meu espírito. Então, escorreguei o toque um tanto mais pra cima, sentindo a aspereza da calça, cada costura, botão, detalhes a encobrir a pele, na diplomacia dos tecidos que ocultam e revelam. Até chegar a sua cintura, onde desmazelei a camiseta e apertei um pouco mais, apenas para alertar que meu tato era cheio de propósitos. Palmilhava como o profeta que ia para o deserto com a intenção de conversar com Deus.
Mas a intimidade era revelada, não como um segredo que se conta no último segundo antes da morte ou uma dádiva de sabedoria transmitida de boca a ouvido durante os séculos. Era como algo que sempre esteve ali. Mas não se sabia.
A moeda perdida no bolso que, depois de anos, surge quando se precisa dela. Mas não fui eu quem a guardou. O poema perdido nas páginas de um volumoso livro. Mas não fui eu que dobrei a folha, não fui eu quem comprou a edição. A palavra esquecida da infância que faz cócegas na cabeça quando se pensa nela. E nem fui eu quem a disse, não fui eu que a ouvi. Uma certa incidência de luz que só existe nos domingos e, no meu tempo, não havia domingos.
A intimidade, de que falo, é um cinema virgem. Uma tela que nunca antes conheceu a luz, de repente, se enche de desenhos e de destinos traçados em no máximo duas horas no escuro. Mas que se resolvem em um segundo apenas, como quando pousei a mão sobre sua perna.
Às vezes ela é tão íntima que se esconde como um bicho, que faz o ninho em seu entorno e fecha a saída por dentro, repousando milênios sem sequer esperar.
Pérolas falariam se não morassem em conchas. A intimidade não fala porque não precisa e porque é incomunicável.
Germinaria se fosse semente, mas a árvore cresceria pra dentro, tal um ponto que abriga linhas, planos e sólidos, mesmo com sua ausência de dimensões.
A intimidade, de que falo, é inodora, transparente e sem gosto, mas não se bebe. Somos nós por ela sorvidos em um único gole.
Cabemos nela, eu e você. Ela não cabe em nós e, no entanto, não escapa nem pelos poros, não escaparia nem por janelas. Não discursa. Antes disso, a intimidade cala pelos cotovelos, silencia todas as partes do corpo, opera milagres onde eles não são necessários, adivinha a próxima palavra, perdoa as virtudes, aceita os pecados.
A intimidade, de que falo, é aquela sobre a qual é impossível dizer algo.
3 comentários para "A intimidade de que falo"
A intimidade são “Sonhos em Conserva”…
Ahhh esse eu vou ter que comentar!
É uma delicia ler textos que vão guaindo nossa imaginação e recriando as cenas nas nossas cabecinhas!
ADOREI!!!
Bendita intimidade, que colore os silêncios!
Lindo, lindo, lindo…
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