O pé do senhor Telônio tinha fungos. Mais exatamente o dedo grande do pé do senhor Telônio, conhecido como Seu Tel. Não era um fungo mundialmente famoso, mas era conhecido ao menos na cidade em que vivia, no Nordeste do Brasil.

Coceira é uma coisa boa e ruim ao mesmo tempo, pois coçar chega a ser um carinho, saciar uma vontade que grita em forma de comichão. Mas depois de um tempo fica só ruim, principalmente quando é em um lugar só. Chega uma hora que não dá mais pra coçar pois a coisa fica no vivo.

Assim estava ele. Com um grande dedo grande do pé. Inchado e na carne viva, tomado por aquela infestação que parecia ser alienígena.

A primeira tentativa de cura mais séria foi o médico, que visitava a cidade umas duas vezes por semana. Ele olhou e olhou. Depois olhou e olhou mais uma vez. Torceu a boca e disse:

- Olha, Seu Tel, se o senhor usar um talquinho vai deixar o local da infestação mais seco e isso vai melhorar. Os fungos precisam de lugares úmidos para viver.

E Seu Tel comprou o talquinho para passar no pé.

A coisa já estava com uma coloração verde e fazia menção de se espalhar para o resto da extremidade. Deus me livre ser tomado por aquele parasita ou sei lá o quê.

E Seu Tel passou o talquinho por duas semanas. E o fungo não avançou mais. Mas também não recuou. E agora a coceira naquele jeito que não dava de coçar. Dava medo até que o dedão caísse.

Depois da ciência, sempre a fé. O próximo passo, portanto, a igreja.

- Padre. Deus me livre que acho que meu dedão está possuído.

O padre pediu para que Tel tirasse o sapato e a meia. Ele sentou-se em um dos bancos enfileirados e uma pequena nuvem branca de talco para os pés se assomou no ambiente fresco e sombreado quando descalçou-se. O padre olhou e olhou. Depois olhou e olhou mais uma vez. Torceu a boca e disse:

- Olha, Seu Tel, não posso fazer muita coisa além de benzer seu pé e dar umas orações para o senhor dizer em casa.

E foi buscar a água benta para espargir sobre o pé do homem que já andava meio manco entre um afazer diário e outro.

Todo dia Seu Tel colocava o talquinho e, ao mesmo tempo, começava a rezar as aves-marias e os pais nossos para o bem de seu dedão.

Mas nada de resultados.

Depois da ciência, depois da fé, a fé alternativa.

A benzedeira olhou e olhou. Depois olhou e olhou mais uma vez. Ali do lado, a meia com uma pequena mancha do que já era uma infecção que nem as rezas fortes e água-benta bem abençoada estavam conseguindo segurar.

- Seu Tel, o senhor já tentou passar um talquinho?

Saiu dali batendo o pé - o que não havia sido atingido pelo fungo, naturalmente - e estava decidido a ele mesmo dar um jeito naquilo.

- Mulher! Coloca água para ferver - berrou, abrindo a porta da casa com ímpeto.

De tal maneira que ela nem perguntou do que se tratava. Se era água para o café ou para fazer comida. Foi e fez.

- Coloca na bacia.

E de tal maneira que ela nem perguntou. Ela foi e fez. Escorreu o líquido no recipiente que estava aos pés da cadeira onde Seu Tel sentava-se.

Imediatamente ele meteu o dedão na água fervente, segurando o grito da queimadura de terceiro grau.

- Mas o que é isso homem!

- Não diz nada! Não diz nada que estou resolvendo meu problema.

E fez uma careta, contendo a dor por mais uns segundos antes de tirar o pé da água escaldante.

- De fungo eu não sei cuidar, mas de queimadura rapidinho eu trato.

* História ouvida dos lábios - e que lábios - de Maísa Coutinho, no Planalto Central do Brasil. Ele deu-me a permissão e o enorme prazer de recontá-la ao meu modo. Em tempo: o nome do avô de Maísa - que viveu essa história real - não é Tel nem Telônio.

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