Crônicas e contos de Alessandro Martins
29 Jan 2008
Nos primórdios do boxe, a esquiva era um ato considerado afeminado. Para demonstrar toda sua virilidade, o lutador precisava manter a cabeça imóvel enquanto um punho se dirigia a ela a fim de quebrar seu nariz em diversos pedaços, tal como o crente aguarda os desígnios do castigo divino. Como se pode observar, demonstrações de masculinidade e atitudes estúpidas sempre estiveram sultilmente ligadas.
E nenhuma forma inteligente de vida ousaria questionar esse vínculo misterioso, entre masculinidade e estupidez. Sob o risco de ter o nariz quebrado em diversos lugares. Na verdade, eu mesmo, nesse instante, temo pela minha saúde ao revelar essa mazela da humanidade tão descaradamente. Pois a última coisa de que um macho da espécie gosta de ser chamado é de estúpido.
Eu, de minha parte, nunca fui de brigar. Apenas uma vez aconteceu.
Leis naturais
Os seres vivos obedecem a leis que desafiam a compreensão. Vejam por exemplo o caso desse passarinho azul. Ele tem um lar, uma família por assim dizer, onde é alimentado e onde possui uma gaiola protegida das crueldades climáticas.
Um sujeito, o seu dono, então, tira o tal passarinho da gaiola. O conduz até o lado de fora da casa. Apresenta-lhe o céu. Mostra todos os riscos e incertezas pelas quais passará caso decida nesse instante partir. Predadores, fome, chuva, frio e vento. Tudo isso certamente lhe ceifará a vida como se ele fosse um pedaço de merda qualquer e não um passarinho azul.
Mas eis que, diante de tais argumentos, ele vai olhar para o caro alpiste que lhe é oferecido, para sua gaiola de ouro forrada de jornal onde ele se empoleira, para o júnior que delicadamente acaricia sua cabeça todos os dias e, possivelmente com um cumprimento feito com a asa, vai se despedir e voar em direção ao incerto. É um passarinho azul. Poderia ser um tigre de bengala, um panda, uma lontra. Todos eles trocariam a segurança desse pretenso lar por uma liberdade mais ampla.
Sem entender nada, o sujeito, o ex-dono do passarinho, voltará para sua poltrona, ligará a tevê, abrirá uma cerveja, talvez vá até a geladeira e pegue um pedaço de animal morto que comerá com prazer e deixará que mais um dia passe, mais um dia nasça e então que esse novo dia morra, como sempre tem sido desde que se lembra. Está seguro. Não vai morrer. Faz parte do topo da cadeia alimentar, a chuva não o atinge, tampouco a fome.
Os seres vivos, como se pode ver, obedecem a leis que desafiam a compreensão.
Mas afinal, o que é um passarinho?
A briga
Toda briga precisa de um motivo. O que não quer dizer que precise ser um bom motivo. Em geral esse motivo é esquecido minutos depois da briga ter sido iniciada. Se pararmos a peleja entre dois sujeitos é bem possível que eles não saibam mais por que estão a esmurrar a cara um do outro.
- Não lembro bem - dirá um.
- Tem algo a ver com pastores alemães… pastores anglicanos… bem… pastores… você sabe… essas coisas polêmicas - dirá o outro, já enfiando um direto na cara do adversário.
Realmente, não recordo o que me levou a brigar com Edgar, esse era o nome dele. Tinha algo a ver com pastores alemães… pastores anglicanos… bem… acho que era algo sobre handebol.
Há uma coisa sobre brigas que os inexperientes precisam saber caso queiram evitar problemas. Quando, na hora do recreio, você agenda uma e alguém além do seu desafiante escuta isso, será impossível evitar que ela aconteça quando da saída dos alunos. Todos ficam sedentos por ver a pancadaria e ainda que você tente evitar será conduzido pela turba até o adversário na hora e no local marcados. É mais ou menos como em Faroeste Caboclo, do Legião Urbana, quando João de Santo Cristo vê na tevê que o repórter dá a hora, o local e a razão.
- E atenção: notícia de última hora. Alessandro deve enfrentar Edgar no terreno atrás do colégio. Será logo depois do último sinal. A razão… bem… não está muito claro… parece que é algo sobre pastores anglicanos que jogam handebol.
A verdade é que a razão não importa muito. O importante é a briga.
Pois bem. Fui carregado ao local previamente combinado nos braços do público. Eu seria um dos responsáveis pelo espetáculo que encheria de vida o cotidiano daqueles adolescentes entediados.
Já podia ver os mais espertinhos correndo com os cadernos de apostas cheios com o dinheiro que deveria ser usado para comprar figurinhas.
Uma vez eu tive um sabiá
Uma vez eu tive um sabiá. Ele costumava entrar na casa de meus avós. A primeira vez, aparentemente, foi sem querer. Depois começou a perder o medo e deixava que nos aproximássemos cada vez mais até que um dia comia pedaços de pão na minha mão. Eu gostava muito da idéia de ter um pássaro sem que pra isso eu precisasse prendê-lo. Voltava todos os dias, com regularidade. Um dia não apareceu mais.
Os seres humanos são muito infelizes. Precisam de animais de outras espécies para demonstrar afeto. Adoram afagar bichos peludos tais como gatos e cachorros. Isso não se repete em nenhum outro segmento do reino animal. Não se vê por aí um urso a dizer:
- Olha! Que fofo! Uma onça! - e a seguir passar a pata peluda na cabeça do bichano.
Não bastasse isso, os seres humanos fazem as carícias mais ousadas em animais que acabaram de conhecer. Seu amigo lhe apresenta um gato e talvez até fique ofendido se você não fizer um cafuné atrás das orelhas dele e afagar da cabeça à coluna para provocar aquele arrepio e aquele arquear de costas característico. E é um gato recém-conhecido. No entanto, pode mandá-lo para o inferno pelo atalho mais próximo caso você faça o mesmo com a esposa quando, na mesma ocasião, apresentá-la.
- Nossa, que linda e fofa sua esposa - enquanto passa a mão pela coluna da tal.
Acariciar animais de outras espécies é, assim, digamos, uma perversão humana desenvolvida através de um telencéfalo altamente especializado.
E é de tal maneira que muitas pessoas se relacionam melhor com bichos que com outros seres humanos. Gosto muito de bichos. Mas, entre um animal e uma pessoa, prefiro a companhia de uma pessoa, embora eu tenha alguns amigos capazes de urinar pelos cantos da casa. Porém, sempre é bom saber uma arte marcial ou ter uma boa desculpa quando se prefere ficar sozinho mesmo, sem animais de qualquer espécie.
Sexo frágil
A coisa mais comum de se dizer hoje em dia é que o verdadeiro sexo frágil é o homem. Concordo em parte. Mas por razões diferentes que o senso comum levaria a crer.
O homem é o sexo frágil porque o menor de seus atos pode levar a sua tão esmerada masculinidade a ruir. Há aqueles para quem lavar louça os tornará a mais delicada das fêmeas, há aqueles para quem um abraço ou um beijo no próprio pai é sinal de homossexualidade, há aqueles para quem usar uma camisa rosa tem como próximo passo sair por aí a rebolar. Enfim, a masculinidade é tão frágil que precisa a todo instante se proteger. Todo homem em algum momento teme, por alguma razão, parecer menos masculino.
Ao passo que, em nenhum momento, mesmo se uma mulher beija outra mulher, se põe a prova a feminilidade.
O confronto final
De início, nós dois nos estudamos. Estávamos cercados pelo berreiro dos outros alunos que nos cercavam. Ficaríamos ali até que um de nós morresse ou ficasse seriamente ferido. Os dois se movimentavam com os punhos erguidos, prontos para desferir o primeiro golpe.
Existe uma lei nas brigas de colégio, elaborada por observação e conclusão, que diz que aquele que derramar o primeiro sangue perde. Seja pelo horror de ver sua própria hemorragia a empapar a camisa seja pela demonstração de que, já de início, não soube se defender e que, portanto, levará ainda mais sopapos.
Então fiquei muito atento aos movimentos de meu adversário para evitar que isso acontecesse. Acho que foi isso que me proporcionou o momento que, apesar de patético, julguei decisivo para me safar daquilo tudo.
Ele quis me surpreender. Ao invés de me socar a cara, usou um chute, um golpe de longa distância. Fiquei surpreso ao descobrir que, além de não ter doído tanto, o pé dele estava preso entre meu braço e minha cintura. Rapidamente, agarrei o tornozelo de Edgar com as duas mãos que, então, ficou apoiado em um pé só, numa posição meio ridícula. Eu não era exatamente um brigão profissional. Por isso eu não sabia como tirar proveito daquilo. Sem saber o que fazer, girei ele um pouco em torno de mim. Ele pulava, tentando manter o equilíbrio e a dignidade até que finalmente decidi soltá-lo. Edgar rolou um tanto até parar próximo a uma cerca. De minha parte, considerei aquilo importante e daria a vitória por pontos a mim mesmo, mas ele estava disposto a levar a luta ao nocaute e já vinha em minha direção quando surgiu o diretor do colégio. Rapidamente, a multidão dispersou e eu e Edgar fingimos que éramos amigos novamente. Esse tipo de coisa. Estava tudo bem, pegamos nossas malas e fomos embora.
O que é um passarinho?
Um passarinho é algo muito difícil de definir, na verdade, mas parece ter a ver com o tamanho. Pois um urubu, assim como um sabiá, voa. Mas não há dúvida de que o primeiro é um pássaro e apenas o segundo é um passarinho.
Mas vamos definir um passarinho de uma forma melhor.
Passarinho é algo que pode comer em nossa mão e ficar empoleirado em nosso dedo indicador. Mas importante: porque quer.
E se ele está empoleirado em nosso dedo indicador precisamos saber lidar com a possibilidade de ele voar e nunca mais voltar.
De outra forma, não é mais um passarinho. Ele é um bicho que senta em sua poltrona, pega uma cerveja gelada e algum alimento na geladeira e liga a tevê a cabo para ver o tempo passar.
4 comentários para "Welcome to the Fight Club"
Você colocou vários assuntos. Vou comentar só um : Sexo frágil. Impressionante, como descreveu bem a situação. E ainda piora se tem pais que reforçaram isto…
Texto muito bom. Gostei.
Dizer que eu gosto dos seus textos, é lugar comum… estou sempre comentando isso. Ponto pacífico… Mas, entre todos os textos, alguns me incomodam… Como desestabilizadores de existência. Causam uma espécie de dor, de inquietação. Este é um deles. E agradeço por isso!
Abraço
Realmente qdo vc beija uma mulher ou tem relação se deixa de ser feminina?não si ao certo mais eu como mulher te digo que fica um pequeno sentimento paradoxo quanto a isso(por experiencia)ueheuheuehue ótimo texto!
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