A Otto Nascarella,
habitante de Cracatoa

A porta do consultório se abriu e dois caras entraram. Dona Gertrudes, a secretária, imaginou que a porta tinha encolhido de repente. Eles eram grandes. Mas, sem se intimidar, ela não parou de lixar as unhas enquanto eles percorriam a sala de espera com os olhos apertados como se procurassem alguma coisa escondida. Revistaram o sofá, os bibelôs na mesa de centro, as revistas do ano passado. Nem mesmo as pequenas caixas de som por onde escapava a versão de Ray Conniff de bêssame-mucho passaram incólumes.

Ela, que até então fingira não estar ali, pensou em perguntar o que desejavam quando um deles, de algum lugar do terno risca de giz, puxou um rádio.

- Barra limpa. Ele pode entrar.

Desta vez, entrou um sujeito um tanto magro. Pelo menos metade do tamanho dos outros sujeitos. Dirigiu-se diretamente a Dona Gertrudes. Ele usava também um terno risca de giz, obviamente menor que o dos capangas e sutilmente mais escuro. Uma gravata vermelha combinava com o cravo no bolso, do lado esquerdo. O cheiro de gel para cabelo mostrava que dava trabalho para ele domar as madeixas.

- Quero ver o doutor.

Ela baixou os óculos em direção a ponta do nariz.

- Tem hora marcada?

Dom Nascarella, esse era o modo como era chamado, olhou para um dos capangas. Depois para o outro. Apertou o cenho e mostrou-se zangado. Olhou para um, depois para o outro, novamente. Repetiu a operação algumas vezes, com uma demonstração de zanga cada vez maior. Por fim, bufou.

Falou, no entanto, com uma voz calma para eles.

- E, então? Eu tenho hora marcada?

Eles iriam responder quando Dona Gertrudes interrompeu.

- O senhor é Pepe Nascarella? Está atrasado.

- Dom Pepe Nascarela. Sim, sou eu. O trânsito. A senhorita sabe.

- Senhora. Sou casada - fez questão de mostrar que não era daquelas, enquanto empurrava os óculos para a posição normal com o dedo anelar - Pode entrar, Dom Nascarella. O doutor está a sua espera.

Enquanto se perguntava se havia alguma ironia naquela pronúncia do dom de seu nome, ele se dirigiu para a porta. Os capangas seguiam atrás.

- Não, não. Sozinho. - disse Dona Gertrudes. - Ele já é bem grandinho.

Ele começava a ficar irritado. Olhou para os gorilas e com um gesto de cabeça indicou o sofá para os dois que, apertados, sentaram lado a lado. Enfim, entrou.

O médico, na sua mesa, cumprimentou-o, mostrou-lhe a cadeira e fez a pergunta clássica:

- O que traz o senhor aqui?

- O senhor sabe quem eu sou?

- Bem. Diz aqui na sua ficha que é Pepe. Pepe Nascarella. Está certo?

- Dom Pepe Nascarella.

- Certo. Vou avisar Dona Gertrudes de que ela esqueceu de anotar seu primeiro nome. Dom com “m” ou com “n”?

- É um título. E é com “m”, naturalmente.

- Ah! Entendo.

As coisas estavam começando a ficar confusas. O médico resolver perguntar ir direto ao ponto.

- Enfim. Qual o seu problema?

Dom Nascarella limitou-se a tirar do bolso uma série de fotografias em preto e branco. Eram figuras de homens jovens alternadas com a de homens mais velhos, todos usavam ternos parecidos com o dele. Umas vinte fotografias. O médico olhou para aquilo sem entender nada.

- Certo. Não entendo. - disse.

- Como não? É óbvio!

- Bem. Acho que o senhor vai ter que me explicar.

- Olhe, doutor. Já vi que não tem olho clínico. Mas vou confiar o meu problema a você. Observe esta foto, por exemplo. É Dom Vito Nascarella. Tinha uns vinte anos na época. Olhe essa, agora. Também é Dom Vito. Mas com 56 anos. Percebe a diferença?

- Claro!

O rosto de Dom Nascarella iluminou-se.

- Ele está mais velho na segunda foto - disse o médico.

O rosto de Dom Nascarella tornou-se sombrio.

- Não, não! O problema está aqui. - disse apontando a garganta do velho.

- Certo. Dor de garganta. Peça para ele vir até mim que poderei receitar um xarope depois de examiná-lo com cuidado.

Aquilo não estava fácil para Dom Nascarella.

- Doutor, veja, o problema é o pescoço.

Realmente, a diferença entre o pescoço de Dom Vito jovem e Dom Vito velho era enorme. Tinha dobrado de tamanho. Dom Nascarella passou a mostrar as outras fotos. Dom Clemente, Dom Silício, Dom Soni e muitos outros. Em todas os exemplos o que se via era a imagem de um jovem com pescoço fino e elegante, seguida de homens maduros com pescoços grossos como toras, que emendavam com os ombros daqueles sujeitos atarracados.

- Não quero ficar com o pescoço grosso, entende? Gosto do meu como está. Tenho observado fotos mais antigas minhas, de quando tinha 25 anos e ele era bem mais fino.

- Olhe, Dom Nascarella - disse o médico tentanto ser compreensivo -, às vezes, os pescoços engrossam.

Dom Nascarella enrubesceu.

- Quer dizer que não há nada que a sua medicina possa fazer por mim? Nada?! Luigi! Genaro! - gritou.

Sem que Dona Gertrudes pudesse impedir, os dois pularam para dentro do consultório.

- Mostrem para o doutor - ordenou.

Luigi colocou a mão no bolso e, antes que o médico pudesse concluir que ele tiraria dali uma pistola, exibiu uma fita métrica. Envolveu o pescoço de Dom Nascarella e mediu. Genaro tirou do bolso uma tabela e tomou nota.

- Dê-me, Genaro - ele tomou o papel de suas mãos e passou a mostrar detalhadamente as anotações ao médico - Temos feitos observações muito cuidadosas nos últimos meses.

Eram diversas folhas. Tabelas e gráficos.

- A circunferência de meu pescoço tem crescido à razão de um milímetro por mês. Nesse ritmo, não demora e estarei pior que Dom Vito.

O médico tinha que pensar rápido. Aqueles dois sujeitos que entraram eram tão grandes que tiveram que passar de lado pela porta.

- Veja bem, Dom Nascarella, o senhor está apenas impressionado. Se continuar a pensar assim aí é que seu pescoço vai crescer mesmo. Já ouviu falar de inconsciente?

- Sim, claro, foi como deixamos Giuseppe Bonalina, há pouco, não rapazes?

Os rapazes fizeram que sim com a cabeça.

- Ele nos devia dinheiro. Mas não muito. Por isso o deixamos apenas inconsciente. Mas acho que vai precisar de seus serviços, doutor - os três riram. Aparentemente havia algum sentido engraçado naquilo que o médico não entendeu.

Tentou continuar com calma.

- Existe uma parte de nossa mente que é muito influenciável aos estímulos. Assim, cada vez que o senhor pensa que o seu pescoço está engrossando, essa parte da cabeça faz com que o senhor faça alguma coisa que torne esse pensamento real, ainda que inconscientemente.

- Hmmm. Quer dizer que, na sua opinião, cada vez que eu penso que meu pescoço fica grosso aí sim é que ele fica? E que o responsável sou eu mesmo? O senhor insinua, nesse caso, que sou louco?

- Não. Longe de mim tais pensamentos! Na verdade, é normal. É algo normal ser influenciado pelo inconsciente. Digo, por essa parte da nossa cabeça.

- Interessante… e que coisas são essas que essa parte da minha cabeça me faz fazer e que devo evitar para que meu pescoço não engrosse?

Essa pergunta era difícil. O que afinal de contas faz um pescoço engrossar? Não havia visto nada daquilo na faculdade de medicina.

- Bem… musculação para o pescoço. O senhor deve evitar esse tipo de atividade a qualquer preço.

Dom Nascarella ficou em silêncio. Encarou firmemente o médico, como se perguntasse se aquele sujeito de jaleco branco estava a brincar com a cara dele.

- E evite também a Fórmula 1. O pescoço é muito exigido nas curvas - continuou o médico. Ao ver que Dom Nascarella continuava a encará-lo em silêncio com a respiração um pouco mais ofegante, foi até a prateleira fingiu ler alguma coisa em um livro muito grosso, sempre vigiado pelos três, e voltou à mesa.

- Já sei. O seu problema é simples de resolver Dom Nascarella - abriu a gaveta e vasculhou. - Tome aqui estas pílulas. Uma ao dia. É o suficiente para resolver.

A expressão no rosto do paciente mudou completamente. Quase se transformou em um sorriso.

- Quanto, doutor?

- Nada. Considere que foi um prazer pra mim.

Cumprimentos finais e os três partiram finalmente. Primeiro Luigi - de lado -, depois Dom Nascarella - de frente mesmo - e, enfim, Genaro - de lado.

Dez segundos de silêncio. Suspiro. De dentro do consultório, o médico coloca só a cabeça para fora e sussurra cuidadosamente para Dona Gertrudes.

- Prepare as coisas. Procure um outro imóvel em outra cidade bem longe daqui. Vamos nos mudar. Tenho sérias razões para acreditar que corremos risco de vida. Eu principalmente.

Ele volta para sua sala, atrás de seus calmantes.

De repente, coloca, de novo, a cabeça a atravessar a porta para falar com Dona Gertrudes.

- E lembre-me de comprar mais daquelas comprimidos de açúcar. Acabei de dar os meus últimos.

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