Crônicas e contos de Alessandro Martins
10 Dec 2007
Sou um homem, não um anjo.
Os anjos são reconhecidos pelas grandes asas brancas. Os anjos caídos, pelos ferimentos da queda. As semelhanças acabam por aí, pois, se não tenho asas, até possuo algumas cicatrizes.
Mas um terço de mim é sólido e dois terços, líquido, como os humanos e outros mamíferos. Há, talvez, sinto, uma massa incorpórea que se move aqui dentro como uma névoa. Porém, não, não é o espírito que pairava sobre o abismo no começo de tudo. Essa neblina constitui-se de um por cento de certezas cercado por noventa e nove por cento de dúvidas por todos os lados.
No dia em que eu atingir a plena convicção de alguma coisa, pode me matar. Certamente fiquei louco e sob meu manto há uma arma com a qual me dirijo para a escola mais próxima. Lá serei o assassino de crianças e jovens professoras.
E, contrariem-me os biólogos, acredito que o que me torna um humano, esse humano demasiadamente humano, e não um mero um animal são elas, as minhas inseguranças. Mostre-me alguém seguro de tudo o que faz e eu lhe mostrarei um mutilado, um demente, a um só tempo.
Houve já quem me condenasse por minhas hesitações. São os que precisavam de seguranças para si e as buscavam em mim. Jamais encontrariam. Essas estão muito bem escondidas, não as revelo e são só minhas. Quem quiser as suas que as fabrique.
Pessoas que buscavam o que dizia: “Vou por aqui!”, apontando o olhar para alguma direção, logo desistiram. Sou esse, mas, de repente, volto-me para o sentido oposto.
Não sou bom em preencher as expectativas alheias. Pessoas que buscavam não um homem mas um profissional - ou um anjo - já me rejeitaram, justamente por não saber exatamente que rumo tomar na avançada idade de trinta anos. Assim serei aos oitenta. Aos noventa. Aois cento e dez.
A essas eu recomendo a lista telefônica, páginas amarelas. Letra P - de profissional - ou A - de anjo. Sou um amador. Não consto desses serviços. Talvez a vida moderna não me comporte. E na letra C não se encontram coisas como carinho ou na P, poesia, e na S, sexo.
Se, mesmo depois de saber tudo isso, você ainda me quiser, inclusive com meus defeitos, você então estará com minha carne, ossos, pele, sangue, alento e tudo o mais, palpável ou impalpável, de meu ser a seu alcance, e não com uma projeção de seus anseios, uma holografia. E eu saberei que terei de você também o palpável e o impalpável.
Pois todos os defeitos do mundo, dos mais graves aos mais pequeninos e irritantes, já passaram e passarão por aqui. E não quero esconder nenhum. Às vezes tenho qualidades. Às vezes.
Mas quando estou junto a você sei que sou um cara legal.
Coisa que a um anjo não aconteceria.
8 comentários para "Sobre a diferença entre homens e anjos"
Amei! como sempre…perfeito!
Gostei principalmente da parte do “Quem quiser as suas que as fabrique.” rs
Oi Alessandro:
Tenho o maior prazer em ler os seus textos. E melhor ainda, quando lidos pela manhã. Conseguem, me orientar para o melhor que existe dentro de mim. E muito bom saber que você é um homem, não um anjo. Assim temos possibilidade de diálogo, pra começar o dia…
Maravilhoso esse texto. Alessandro, eu já passei dos 40 e ainda não possuo nenhuma certeza. Nem quero. Bom saber que não sou o único. Gosto mesmo de ser o ‘mais avulso entre os perdidos’.
Dizer que seu texto é bem escrito chega a ser um pleonasmo. Então não o farei. Vou dizer apeans que ele é inspirador e cativante.
Grande abraço, Poeta!
Homem ou anjo? Importante é sermos plenamente felizes. Bom fim de semana, Alê.
Alê, querido… Ando a querer mesmo que vc vire autor de um livro de papel. Deveras inspirador…
Boa semana!
Ter a certeza de não ter certezas, de não ser anjo, já não é uma certeza? Se você a tem, e se logo muda de opinião, quer dizer que um dia pode ser anjo e holográfico?
Rs.
O segredo de Tostines.
adoro seus textos, adoro!
Como vc disse, é um homem, fadado a erros e recompensas como todos!!!! ^_^
nha… estou cansando de escrever que seus textos são maravilhosos….u.u não canso de ler!!
Bjus!!!
E continue escrevendo!! xD
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