Provavelmente, o pior Natal de Laureano Stopa.

A namorada havia lhe botado chifres, coisa de um ano. Ainda ressentido. Pessoas estimadas mostraram-se, mesmo à distância, pouco dignas de confiança. Milagres do MSN: a canalhice não enfrenta mais fronteiras e é capaz de chamar a si mesma de literatura. Que dirá as pessoas próximas, mesmo aquelas com quem se chega a dividir a mesa.

Histórias iguais a dele, milhares.

Não se sentia nem mais nem menos especial, portanto. Apenas um merda como qualquer outro, porém agora sem emprego.

Sentou-se na beirada do parapeito. Décimo primeiro andar. Não de sua casa. Muito baixa. Foi até o prédio da universidade, perto dali. Fácil acesso, segurança nenhuma. Tanto melhor. Escondeu-se numa das salas e esperou a noite.

Dia 24 de dezembro.

- Breve: o aniversário de Jesus!

Disse em voz alta, sem medo de ser ouvido pelo segurança que - a essa altura - dormia no térreo ou tinha ido fazer coisa melhor em plena véspera de Natal.

Claro que ele sabia que não se tratava do aniversário de Cristo, mas uma mera convenção. Disse apenas para ouvir a própria voz e um tanto por ironia.

Só palavras - irônicas e solitárias - em voz alta no parapeito do décimo primeiro andar de um prédio são capazes de fazer um homem se sentir verdadeiramente só.

Mas as disse só para conferir. Já de antes sabia de seu estado.

Olhou para o relógio: 23h45. Por que esperar até a meia-noite?

Claro que ventava. Mesmo na noite de verão fazia frio naquela altura.

Lá embaixo, um casal passava abraçado. Ele com o braço esquerdo sobre os ombros dela. Stopa mirou e deu uma cuspidinha. Nem imaginava que poderia acertar e mesmo que tivesse boa mira, as gotas seriam dissolvidas pelo vento até chegar lá embaixo. Foi só uma tentativa de contato. Talvez os extra-terrestres façam coisas parecidas com os humanos.

Na verdade, nem queria chamar a atenção.

Nos prédios em volta luzes piscavam. Algumas crianças, nas janelas acesas, eram vistas com os presentes, abertos na véspera como é costume. Mas ninguém poderia vê-lo, assim envolto na escuridão.

Tirou da mochila, de lona verde, um recepiente de plástico. Abriu-o e, dentro, um pedaço de bolo.

Comprou-o naquela tarde na panificadora próxima, bem como a vela azul. Notou que tudo na sua vida acontecia apenas nas proximidades. Nunca viajou para muito longe. Ele percebia agora que a mágoa que o movia não o levava para muito longe.

Olhou no relógio novamente. Meia-noite.

Tomou a vela, colocou-a sobre o pedaço de bolo, acendeu-a, protegendo-a com a mão.

Com as mãos ainda em concha sobre ela, cantou parabéns. Sem palmas, portanto, mas num tom de voz nem alto nem baixo. Um tom de voz sóbrio, apenas para que ele mesmo pudesse sentir-se existente.

Ia levar um pedaço de bolo à boca, mas concluiu que, de doce, bastava a vida.

De uma das janelas próximas, um menino viu o que pensou ser a luz de uma vela, no prédio da universidade. Esboçou o pensamento de dizer algo para os adultos próximos.

Mas, antes disso, uma lufada de vento apagou a chama que ele pensou ter visto e levou a sua vontade até o brinquedo que acabara de ganhar.

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