A Amarildo Anzolin,
que contou esta história

São muitos os motivos que levam alguém a beber o suficiente para perder os sentidos. Esquecer um fora recém-recebido, o emprego perdido ou simplesmente a empolgação do álcool. Essa foi a decisão de Juliano Tiburcius naquela noite. Beber até perder os sentidos. Não importa o motivo.

Acontece que ele, que não misturava bebidas, escolheu cerveja como combustível para sua sanha. Os bêbados profissionais, e até alguns amadores, sabem ser a cerveja uma espécie de pão líquido, algo que de fato enche o estômago, alimenta e, no limite, empapuça. Alguns até jogam um conhaquezinho em cima. Para ajudar a descer.

Tiburcius, porém, desconhecia ou ignorou ou esqueceu esse fato. E foi enchendo a barriga com cervejas, sozinho, sentado numa mesa do canto do bar. Não importava que cruzasse o bar com a mais linda mulher, seu objetivo ali, naquele dia era outro. Beber até cair.

Chegou um momento, no entanto, em que nada mais cabia em seu estômago. Na verdade, o órgão estava repleto do líquido amarelo, antes frio, agora morno e chacoalhante dentro das tripas de Tiburcius. E ficava revoltado simplesmente com a mais fina réstia de pensamento sobre qualquer coisa que pudesse naquele instante ser jogada ali dentro, tivesse essa coisa colarinho ou não.

Frustrado, uma vez que não estava tão embriagado quanto queria e não pretendia beber nada mais forte para não piorar o estado lamentável de sua digestão, levantou-se, pagou a conta e foi tomar seu ônibus que, de madrugada, só passava de hora em hora. Acabara de perder um. Teria que esperar.

Ficou uns intantes no ponto até que percebesse o quanto eram estranhos e ameaçadores os sujeitos que o espreitavam. Decidiu abrigar-se no boteco em frente, de onde tinha uma boa visão, caso sua condução chegasse.

- Só pode ficar se consumir - disse o garçom.

Refrigerante não. O doce poderia revirar suas vísceras. Pior. Naquele estado semi-alcoolizado concluiu, por caminhos inexplicáveis, que se pedisse uma bebida como essa, o garçom acharia que ele era viado ou coisa assim. Refrigerante não.

Comida não. Misturar bebidas também não.

- Uma cerveja - pediu.

Mas era como se as palavras não fossem suas. Como se alguém perguntasse o que ele queria fazer e ele dissesse:

- Pular do décimo andar - já levantando em direção à janela.

Em menos de um minuto, o garçom voltou. O simples barulho da tampinha provocou o equivalente a uma borrasca no líquido que agora se acumulava, sem descer, em sua barriga farta, repleta, sacolejante e tomada por aquilo que ele via através do vidro da garrafa. Menos de um litro, mas parecia o décimo-segundo trabalho de Hércules.

O próprio garçom cuidou de encher o copo do qual ergueu-se um aroma que fez com as tripas de Tiburcius darem um nó. Afasta de mim esse cálice, pensou. Não não era um cálice. Mas uma ampola inteira, cheia de levedo, cevada, água e demais componentes todos industrialmente processados e que teriam, agora, sob pena de ser considerado frouxo - pelo garçom e demais homens do bar - completamente bebidos e digeridos, ali, na frente de todos. Não, não poderia pedir para embrulhar.

Deu o primeiro gole.

Sentiu a estocada azeda da cicuta. Preenchido que estava, o simples imaginar de engolir algo, água que fosse, amolecia suas pernas. Aquele gole o fez sentir-se doente.

Olhou seu copo depois de mais alguns desses. Ainda pela metade. A cerveja já morna. Intragável.

Tomou aquele momento como um instante de sacrifício e auto-superação. Ao invés das pequenas porções que sorvia a cada vez, decidiu então entornar o líquido mais voluptosamente. Tentou imaginar que era uma máquina que tinha uma capacidade infinita para armazenar tudo aquilo. Quando faltavam cerca de quatro dedos da bebida na garrafa, concluiu que não era bem assim. Sentiu-se mais doente ao medir assim, com a mão ao lado do vidro escuro, ao pensar que teria que bebê-los todos, digital por digital.

Foi então que tudo aconteceu.

Um bêbado, que pelo visto tinha sido mais feliz em seu intento de embriagar-se que Tiburcius, entrou a fazer esporro pelo bar. Esbarrava em cadeiras e pessoas, cantava uma música incompreensível, cuspia na cara das pessoas enquanto falava sem sentido algum. Empurrava um, empurrava outro. Era tolerado na tolerância limitada que é possível com os bêbados. E, quando passou pela mesa de Tiburcius, esbarrou. Foi como em câmara lenta. A garrafa, com aquele resto de cerveja ainda, bambeou, bambeou e quando, aparentemente, iria voltar para a posição de equilíbrio, Tiburcius discretamente chutou a perna do móvel. O vidro se espatifou e tudo que lá dentro estava se espalhou pelo chão. Aquilo foi o suficiente para o garçom que observava tudo do fundo do bar viesse em passo firme, agarrasse o sujeito, que já incomodara o suficente, pelo colarinho e pelos fundos da calça e o conduzisse dessa forma carinhosa para fora do estabelecimento.

Tiburcius, vitorioso, sentiu-se aliviado. Não teria mais que beber o resto de cerveja.

Mas.

- Eu vi tudo, cara. Pode deixar que essa é por conta da casa - era o garçom que, com o mesmo passo decidido foi até o fundo bar, pegou outra cerveja e, agora, abria a tampinha antes mesmo que Tiburcius pudesse protestar.

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