Crônicas e contos de Alessandro Martins
20 Nov 2007
Evite interromper-me quando eu falo sozinho. Evite. Há esta coisa de quem fala sozinho são os caducos ou os loucos ou os dispersos. Pode ser. Mas no meu caso, quando falo sozinho, estou muito concentrado. Por vezes, mesmo mudo, falo sozinho. Cuidado, portanto.
Falo sozinho o tempo todo. Nas mais diversas ocasiões. Não peça atenção. Nada mais cansativo que pedidos de atenção nessas horas em que há uma parte de mim que por si só já solicita minha atenção.
Por vezes, pode ser uma bobagem. Como quando penso como são bobas as pessoas que imaginam que, de repente, no dia 21 de dezembro será verão, como se os dias anteriores não tivessem feito um calor escaldante. Claro, o 21 de dezembro é o auge do solstício de verão. O dia mais longo e a noite mais curta. A partir dele a tendência é que o clima tenha temperaturas cada vez mais amenas até que cheguemos ao equinócio de outono e depois ao solstício de inverno, a noite mais longa e o dia mais curto.
- Você já notou como não tem feito calor nesse verão?
E com tais banalidades costumam me interromper.
- Antigamente sim tínhamos invernos rigorosos.
Esse papo. Justamente quando eu pensava e, logo, falava sozinho, ou com aquela parte de mim que tanto pedia minha atenção naquele instante, sobre aquela fotografia. Aquela fotografia em que eu apareço, ainda criança, quase um bebê, com a pele tão branca, completamente nu, coberto pelo barro vermelho de Laranjeiras do Sul, ao lado de um carro velho e enferrujado. Pergunto-me, eu a mim, se essa foto realmente existe. Pergunto-me se esse menino existiu e pergunto-me se faz diferença ele ter existido. Se faz diferença a terra que, misturada a um pouco de água, cobriu sua pele e confundiu-se com o corado das bochechas. Se faz diferença essa terra ter existido, se a ausência de um dos grãozinhos que o pigmentou temporariamente teria o levado para outro lugar que não aqui, hoje, agora, falando consigo mesmo sobre essas mesmas coisas.
- E os verões tinham chuvas mais regulares.
Sim, lembro do campo de futebol improvisado com traves tortas em frente à casa de meu avô, onde eu via meus tios a jogar sem que eu pudesse, pois era pequeno. Eu ou o menino da foto éramos pequenos demais para jogar. E lembro da setra usada para caçar passarinho, que eu nunca tive, feita da forquilha de uma árvore forte e do garrote de borracha usado para prender o braço e dar injeção.
Mas pulava-se a cerca ou passava-se por baixo do arame farpado para chegar até o campinho e meninos sem camisa muito magros jogavam. Depois iam assistir tevê na casa de meu avô, a única com tevê nas redondezas. A tevê só funcionava entre as duas horas e as dezoito horas. Esse era o horário da repetidora. Eram outros tempos sem parabólicas e sem a dissiminação da comunicação. Para pedir um táxi um tio andava dois quilômetros até a rodoviária e, finalmente, ele vinha nos buscar. Era quando voltávamos a Curitiba numa viagem comprida, comprida de seis horas que não acabavam nunca. Tinha enroladinho do goiaba da Piraquê.
- E que chuvas.
Lembro de meu tio sumindo na estrada. Pulava poças como se a água que caía já não fosse suficiente para molhá-lo.
Lembro de meu outro tio que precisou operar a coluna e que passou três meses engessado. Parecia um astronauta, coberto de branco do tronco à cabeça.
Lembro dos cartazes de Elvis Presley na parede do quarto de minhas tias e uma delas a escovar os cabelos, pretos e muito lisos.
Meu avô acordava cedo, ligava o rádio e o cheiro de café invadia a casa que não mais existe. Minha avó levava-me quentão com gemada na cama antes de dormir. Ela fazia bolinhos de fubá contados, pois havia onze filhos famintos, fãs dos tais bolinhos de fubá. Dois para cada um. E olha lá. Ela separava um a mais para mim. Certa vez chorou porque eu disse que achava que avós mesmo eram os que moravam comigo em Curitiba. Eles eram avós de férias. Como pude dizer uma coisa dessas? Eu era criança.
Alguém comia um prato de quirera com costela de porco trepado em cima de uma árvore.
- E agora isso de chuvas ácidas. Daqui a pouco não vai dar para a gente sair na rua.
Será que minha mãe tem essa foto minha ao lado do carro? Onde eu vi essa foto? Não sei se era eu. Talvez seja um primo. Eu não podia ser tão branco e tão pelado. Não com essa lã e essa calça que visto agora. Uma coisa não leva à outra. Não faz sentido. No entanto, aqui estou. Vestido, como se nunca tivesse sido nu.
Preciso ligar para minha mãe. Essa fotografia deve existir em algum lugar. Mas onde? Que casa era aquela? Que carro?
- Você acha que isso de chuvas ácidas prejudica as colheitas?
O que era minha mãe? Ela conta que o meu avô quando irritado batia com o que estivesse à mão. Lembra dos irmãos a correr e a se jogar por baixo das cercas para se esconder e esperar que a raiva do pai passasse ou que ele tivesse algo mais leve ao alcance da mão.
- Melhor mesmo é não ter filhos.
Nunca se sabe qual vai ser o futuro. Se chuvas ácidas poderão acabar com a gente. Com o futuro de nossos filhos. Mas do que eu estava falando mesmo? Do que eu estava falando mesmo comigo mesmo?
- Não sei. Não sei se é melhor mesmo não ter filhos hoje em dia.
- Pois é.
- Quer me fazer um favor?
- Claro.
- Não me interrompa.
- …
- …
- Dia 22 começa o inverno.
- Dia 21. O solstício de inverno neste ano de 2005 acontece às 3 horas e 46 minutos do dia 21 de junho.
- Bem. Depois desse dia o clima deve começar a esfriar de vez.
No inverno, eu viajava para Laranjeiras do Sul. Nessa época, eu dormia em uma casa que não existe mais. E quem de nós, desde então, ainda existe?
4 comentários para "Não me interrompa"
Vou falar comigo mesma, Alessandro. Só pra não te interromper. O meu vô também falava sozinho. Gosto de me lembrar disso quando começo com a conversa de doido. E por falar nisto lembrei da minha vó, no post Meu canto no mundo, que escrevi ontem. Sincronia de assuntos…
Bjos
Cara, me vi em seu texto…
Às vezes alguem olha pra mim e me toca:
- Ei, tá pensando em que meu filho?
Eu sempre respondo:
- Tô conversando comigo.
Irrita um pouquinho quando alguém atrapalha minha auto-conversa…
Seus textos são muito bons, parabéns!
Abraço
Falar sozinho. Custei a me acostumar com essa minha modalidade.Heheheh!
Abraço.
Às vezes acho que isso é raciocínio lento…
Será?
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