Crônicas e contos de Alessandro Martins
17 Oct 2007
Escrito a quatro mãos com Paulo Polzonoff Jr durante o Festival de Teatro de Curitiba de 2002
Inevitavelmente, haverá peças no Festival de Teatro de Curitiba que causarão desconforto tal no espectador que se faz necessário uma saída urgente do espetáculo, a fim de se manter um mínimo de sanidade mental. Para os mais conservadores, por exemplo, nada pior do que as peças experimentais, com linguagem superfragmentada. Para os tímidos, então, nada pior do que os espetáculos em que os atores resolvem interagir com o público, muitas vezes (na maioria delas) expondo-os ao ridículo. Às vezes, no entanto, trata-se de uma peça bastante convencional, mas que simplesmente desagrada aos de gosto mais apurado, pessoas que não gostam de ver Shakespeare resumido a uma intriguinha familiar ou Woody Allen transformado em um pastelão. Pensando nestas pessoas, resolvemos propor soluções para os problemas mais comuns quando se vai ao teatro.
Situação 1. Emergência: como fugir no meio da peça
PLANO A. Escolha um lugar perto do corredor. Sempre é melhor prevenir do que remediar. Se por acaso o teatro tiver lugares marcados — coisa bastante rara em Curitiba, infelizmente —, não hesite em escolher uma poltrona no corredor. Melhor ainda se for um discreto corredor lateral. Os amadores costumam escolher lugares no meio da platéia, o que constitui um erro fatal.
PLANO B. Se tiver cometido o erro primário de estar no meio da platéia, evite o desconforto aos demais espectadores, que podem estar gostando ou fingindo estar. Por isso é necessário uma saída discreta, à francesa. Não pense o incauto leitor que essa é uma tarefa fácil. São necessárias algumas técnicas. A mais importante delas diz respeito ao silêncio. Pise leve, sorrateiro. Se o público for do tipo fanático-agressivo, experimente rastejar entre as pernas e as poltronas da frente, como um soldado em uma trincheira.
PLANO C. É importante também escolher o momento certo para sair. Quando os atores estiverem de costas ou recebendo um improvável aplauso em cena aberta, este é o momento. Fuja. E, uma vez fora do teatro, lembre-se: foi só uma peça ruim; o teatro não é tão mau assim. Ainda há esperança.
PLANO D. Em espaços alternativos, tudo é uma incógnita. Vai depender da sua experiência e instinto. Boa sorte.
Situação 2. Da qualidade técnica do espetáculo
PLANO A. Antes de ir a qualquer peça de um grupo menos conhecido, é imprescindível que se descubra a qualidade dos técnicos envolvidos com ele. O iluminador por exemplo. O técnico é o segredo de tudo. Há peças que primam pela qualidade técnica do espetáculo e isso por si só é louvável. Nada melhor do que ver uma peça com boa sonoplastia e iluminação, sem temer o risco de morrer eletrocutado ou carbonizado.
PLANO B. Se você não conhece o iluminador nem de nome, telefone para ele. Faça perguntas básicas como sobre o que é a peça, o primeiro nome do diretor e o de um dos atores. Se ele não souber nada disso, peça uma pizza, alugue um vídeo e figue em casa. Convidar o técnico para o programa é facultativo.
PLANO C. Se ainda assim você quiser dar uma chance a ele, induza-o a falar a palavra “plástico”. Se ele disser “prástico”, desista mesmo. Leia os verbetes “eletrocutado” e “carbonizado” no dicionário para ficar mais decidido quanto a isso.
PLANO D. Se quiser arriscar, leia com mais atenção a “Situação 1” e reze.
Situação 3. Ah! As delícias gastronômicas
PLANO A. No meio da peça, sempre pode pintar aquela fominha. Evite levar coisas pesadas e espalhafatosas como frango assado, porco no rolete e carneiro no buraco. A fumaça do churrasco pode atrapalhar o andamento do espetáculo e atiçar as lombrigas dos outros espectadores.
PLANO B. Prefira coisas menores, porém menos nutritivas como balinhas e chocolates e, a não ser que este seja o seu objetivo, cuidado, muito cuidado ao abrir embalagens plásticas, pois elas fazem um barulho gigantesco. Balas podem ser úteis se jogadas no palco. Conta-se de atores, famintos, que se engalfinharam certa vez por causa de um pirulito que por acaso caiu na boca de cena. Situações assim geram uma boa distração caso haja a necessidade de uma saudável fuga estratégica.
PLANO C. De acordo com sua conveniência, escolha uma peça em um teatro próximo a diversos restaurantes.
PLANO D. Se a peça se disser antropofágica, lembre-se: isso é uma metáfora referente ao Modernismo. Não morda a canela alheia.
Situação 4. O fantasma da interatividade
O grande problema do teatro hoje em dia sáo as peças interativas. Aquela em que o público é incitado a passar ridículo no meio dos amigos ou em frente à namorada, tudo em nome da arte. O problema é que as companhias de teatro sabem da rejeição que este tipo de espetáculo tem entre os espectadores e por isso não avisam de suas intenções com a antecedência prevista na Convenção de Genebra.
PLANO A. Uma das técnicas amplamente usadas por espectadores experientes em enrascadas deste gênero é fingir-se de surdo-mudo. Sinais exagerados de incomprensão são ótimos para colocar o artista numa saia justíssima.
PLANO B. Melhor ainda, contudo, é fingir um sono profundo, um ataque de narcolepsia, pois tem caráter crítico. Há casos relatados de gente que, além de conseguir não ser importunada pela trupe, ainda ganhou carona de graça para casa numa ambulância.
PLANO C. Nestas peças convém, ainda, levar um guarda-chuva, para se proteger de água ou de outros detritos que por acaso resolvam jogar em você.
PLANO D. Atenção: este é apenas para profissionais da platéia. Na pior das hipóteses (mas, atenção!, essa alternatva só deve ser usada em casos extremos), convém fazer exatamente tudo o que o artista lhe pedir. Pule num pé só, plante bananeira, beije a mulher barbada, cuspa fogo ou faça malabarismos. A trupe vai ficar surpresa com tamanha desenvoltura e certamente se sentirá constrangida. É o feitiço se voltando contra o feiticeiro. Não perca a chance, roube a cena e, se possível, entre na justiça pedindo a sua parte do cachê.
Situação 5. Se você se sentir enganado
PLANO A. Aplauda sozinho em cena aberta. Esta é uma tentativa desesperada. Supunhamos que você não tenha se sentado no corredor e que a peça seja assim algo desesperador. Daquelas em que um ator começa a desfiar um sem número de lugares-comuns sobre, digamos, a importância do capitalismo na construção da sociedade brasileira, assunto de igual interesse ou palavras sem nexo e coisas do gênero. E você, hein?, que pensou que se tratava de uma comédia. Não tenha dúvidas: quando chegar o momento fique de pé. Primeiro, em silêncio, por uns dez segundos. O suficiente para se fazer notado. Depois, comece a aplaudir. Pausadamente. Plaft. Plaft. Plaft. Três vezes é mais do que suficiente. E então, saia, como se tudo fizesse parte do espetáculo.
PLANO B. Tente incitar a platéia a pedir o dinheiro de volta. Pessoas revoltadas, mesmo quando tímidas, tendem a assimilar esse tipo de discurso.
PLANO C. Respire fundo e finja que tudo não passa de um pesadelo. Uma hora você acorda.
PLANO D. Tire um cochilo.
Observação: não atire o seu sapato tentando acertar os atores. Você terá que voltar descalço para casa.
Situação 6. Primeiro encontro
PLANO ÚNICO. Nunca, jamais faça isso. Não existe erro mais primário do que levar uma pessoa que se está querendo conquistar para uma peça que é uma incógnita. Isso porque, se é verdade que é a primeira impressão a que fica, inevitavelmente a pessoa vai confundi-lo emocionalmente com o espetáculo em questão. Nesse caso de erro primário, só analisaremos as conseqüências.
CONSEQÜÊNCIA 1. Se a peça for muito experimental, por exemplo, certamente o acompanhante o achará meio chato.
CONSEQÜÊNCIA 2. Pior mesmo é se a peça tiver algum nu frontal ou insinuação de sexo. Seu ou sua pretendente vai achar você por demais atiradinho. Para bem ou para mal.
CONCLUSÃO. Peças desconhecidas, apenas sozinho ou acompanhado de alguém com quem se mantenha uma sólida relação, que permita este tipo de gafe sem muito constrangimento. Recomendável, no entanto, se se quiser manter a pessoa afastada.
Situação 7. Ataques surpresa
PLANO A. Apresentações no lobby do teatro, antes da peça, são um mal sinal.Você está ali na fila para entrar no teatro. Alegre e contente. Eis então que aparece um clown. Sim, um clown. Ele vem fazendo malabarismos e recitando Fernando Pessoa. Não o que o poeta tem de melhor e sim os versos mais conhecidos: tudo vale se a alma não é pequena. Fuja ou leve-o para o semáforo mais próximo para que se sinta em casa e se acalme! Outros esquetes possíveis na fila são os interativos. O ator chega e o puxa pelo braço como uma cigana que quer ler sua mão.
PLANO B. O lado bom destas apresentações que antecedem a peça propriamente dita é que elas funcionam como um alerta. Para quem souber compreender os sinais. Por isso, adie ao máximo a compra do ingresso.
PLANO C. Se sentir-se agredido, não tenha dúvida. Revide com um golpe de judô. Na delegacia alegue legítima defesa.
5 comentários para "Pequeno guia de sobrevivência no teatro"
Já passei por algo parecido com a Situação 1.
Infelizmente não tive como fugir, além de estar sentada no meio da platéia estava na segunda fileira com a atriz olhando diretamente nos meus olhos.
Talvez ela tenha percebido meu desespero, que aumenta cada vez que ela atuava exclusivamente para mim.
Foi horrível.
Situação com plicada hem? Que tal ter um ataque de ator e sair dançando, ou inventando outra doidice que caiba no script?
hahahhahhhaha!!!
Muito bom mesmo, Alê
Bjks,
Aqui eu gargalhei:
“PLANO B. Melhor ainda, contudo, é fingir um sono profundo, um ataque de narcolepsia, pois tem caráter crítico. Há casos relatados de gente que, além de conseguir não ser importunada pela trupe, ainda ganhou carona de graça para casa numa ambulância.”
E quanto aos ex-colaboradores, Alessandro? E a interface anterior? Que foi feito disso tudo?
AHAHHAHAahahahHAhaHA!
Muito engraçado, essa parte foi muito boa também: “Daquelas em que um ator começa a desfiar um sem número de lugares-comuns sobre, digamos, a importância do capitalismo na construção da sociedade brasileira, assunto de igual interesse ou palavras sem nexo e coisas do gênero. E você, hein?, que pensou que se tratava de uma comédia. Não tenha dúvidas: quando chegar o momento fique de pé. Primeiro, em silêncio, por uns dez segundos. O suficiente para se fazer notado. Depois, comece a aplaudir. Pausadamente. Plaft. Plaft. Plaft. Três vezes é mais do que suficiente. E então, saia, como se tudo fizesse parte do espetáculo.”
Tentarei fazer isso algum dia. xD
Escreva um comentário