Abri os olhos e, não sem uma pequena surpresa, percebi que havia uma espada japonesa, um katana, enfiada em minha barriga, mais ou menos do lado esquerdo. Ainda com um certo sono, pensei na fragilidade da vida humana.

Sempre penso na fragilidade da vida humana nesse tipo de ocasião.

Antes de tentar imaginar quem teria feito aquilo, tentei lembrar das minhas aulas de anatomia do tempo da escolinha da tia Marise para saber se afinal era meu fígado ou meu baço que tinha ido para o beleléu. Com alívio concluí que foi o baço. Com alívio, porque eu sei, assim como todo estudante de medicina, que o baço não serve para nada.

Devo ter lido em algum Almanaque Sadol que quando se acorda com uma espada japonesa fincada na barriga, para evitar uma hemorragia ainda maior e a conseqüente morte, não se deve retirar a lâmina do lugar.

Enquanto eu passava uma água na cara, percebi que meu aspecto não era dos melhores e entendi que era adequado que eu fosse ao pronto-socorro o mais breve possível. A língua estava branca, com aquele muco em cima.

Talvez não fosse recomendável dirigir. Seria difícil explicar para um policial, caso eu fosse parado em alguma blitz. Nunca se sabe. Podiam me acusar de porte ilegal de arma branca ou coisa assim. Eles são espertos. Difícil enganá-los.

Chamei um táxi. Descartei a possibilidade de um ônibus pois nenhum dos disponíveis próximos à minha casa passava perto do meu hospital preferido. O porteiro me chamou quando o carro chegou. Sim, meu prédio tem porteiro. Você sabe, para aumentar a segurança do condomínio e evitar que os moradores sejam agredidos com espadas japonesas e todo esse tipo de coisa.

O porteiro me olhou de modo esquisito quando passei pela guarita. Ele sempre me olha de maneira esquisita. Deve achar que eu sou uma espécie de bandido.

Opinião de que, pelo visto, o taxista compartilhava a julgar pelos olhos arregalados. Expliquei-lhe o lance da hemorragia e que, portanto, ele não devia se preocupar uma vez que de jeito nenhum retiraria a espada de onde ela estava. Seu estofado seria minimamente manchado. Ele perguntou se doía.

Deixou-me na porta da frente do hospital. Dei-lhe uma gorjeta um pouco mais gorda para que ele pudesse limpar seus bancos adequadamente. Ele pareceu impressionado. No pronto-socorro, fui atendido primeiro por uma senhora gorda com sombra azul nas pálpebras que preencheu minha ficha com dados como nome, número do documento de identidade, endereço, convênio médico e outras generalidades. Por fim, perguntou-me qual era a minha queixa.

- Um pouco de dor de cabeça. - mostrei-lhe a língua e perguntei-lhe se aquele muco poderia indicar alguma coisa grave.

- Não sei, senhor. Eu só preencho as fichas. A moça que dá palpites não veio hoje.

Acho que ironias não são muito bem vindas nesses lugares, pois depois disso ela passou a me olhar com uma cara feia. Sequer esboçou um sorriso, a partir daí. Seus lábios fininhos se apertaram. Resolvi então abrir o jogo.

- Bem… você sabe. Estou com esta espada japonesa fincada na barriga. Vê?

- Entendo… - disse ela pouco impressionada. - Não tenho certeza se o seu plano de saúde cobre acidentes com armas antigas. Em todo caso, sente-se ali naquelas cadeiras alaranjadas e aguarde.

Havia apenas três pessoas na minha frente. Tive sorte. Logo chegou minha vez.

O médico recebeu-me com um aperto de mão e um sorriso daqueles de propaganda de plano de saúde, daqueles que não cobrem acidentes com armas antigas. Com um gesto elegante, mostrou-me uma outra cadeira alaranjada. Esta, no entanto, estofada. Eu olhei para a cadeira que me apontava e disse:

- Bela cadeira.

Então compreendi que ele havia convidado-me a sentar, o que fiz logo que percebi isso. Por fim, perguntou-me:

- Então… qual é o nosso probleminha?

- Um pouco de dor de cabeça.

Eu devia ter seguido meus instintos e evitado a ironia. O médico, que até agora se mostrara cordial, cerrou o cenho. Resolvi abrir o jogo novamente. Desta vez não mostrei a língua.

- Bem, estou com essa espada japonesa alojada aqui na barriga.

- Percebo. - disse ele - Acho que devemos fazer alguma coisa a respeito. Mas não deve ser nada. Afinal, o baço, bem, você sabe…

Nisso, ele rapidamente agarrou a empunhadura da arma e a puxou com força. Acho que ele nunca tinha lido nenhum Almanaque Sadol. Procurei relaxar, ciente de que em segundos eu estaria morto. O médico ainda teve a presença de espírito de me perguntar como eu me sentia.

- Um pouco de dor de cabeça - eu disse.

O médico, novamente, ficou sério. Aliás, parecia furioso. Definitivamente, ninguém gostava de ironias por ali. Ergueu a lâmina e baixou-a com força em direção ao meu pescoço.

Pelo menos o problema da dor de cabeça estaria resolvido.

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