“Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são”
Primeira Carta aos Coríntios 1:27-28

Alessandro Martins e Bárbara Guedes, sua prima, entram nesse texto pelo mero fato de uma fotografia dos dois no zoológico da cidade de Curitiba estar fixada à porta da geladeira do primeiro personagem, graças à magia do magnetismo. Os dois são crianças. Estão abraçados. Ele tem dentes horríveis e certamente vai precisar usar aparelho. Atrás, na cena que compõe o fundo dessa imagem, vemos uma girafa, com um pescoço que se alonga ao chão em busca de alguma comida ou de alguma água.

A girafa
A girafa é um animal rápido e lento ao mesmo tempo. Isso é óbvio, eu sei. Impossível deixar de notar a forma lânguida com que suas longas pernas se movem ao longo de qualquer percurso, como se estivessem em câmara lenta. Ao mesmo tempo, justamente por as pernas serem longas, transpõem a distância com facilidade. Não me venham dizer que existem girafas machos. Não é possível. E isso é tão evidente que mesmo o substantivo que as designam é feminino, sem a variação masculina. Trata-se de um animal de um gênero só, como mais tarde os biólogos todos irão concluir cientificamente.

Bárbara Guedes
Bárbara Guedes, minha prima, era uma das melhores na ginástica olímpica paranaense no final da década de 80. Treinava na praça Oswaldo Cruz e suas acrobacias, carpadas ou não, desde os meus dez anos de idade faziam-me crer que minha vida de atleta estava encerrada. Jamais faria coisas daquelas. De vez em quando ela aparecia enfaixada, com talas e histórias de articulações que estralavam, saíam do lugar e pontas de ossos que pipocavam através da pele. Ginástica Olímpica é sangue, suor e lágrimas. Winston Churchill usou esse trio de substantivos em alguma ocasião da Segunda Guerra Mundial, mas ele nunca teve oportunidade de treinar na praça Oswaldo Cruz. De outra forma os teria utilizado para o esporte e não para o massacre.

Sangue
Uma das coisas de que melhor lembro das aulas de biologia daquela época é do pescoço da girafa usado como exemplo de prova da teoria da evolução, aquele capítulo com ilustrações bacanas e tudo o mais. Na primeira hipótese, uma girafa de pescoço curtinho tenta alcançar as folhas altas de uma árvore e, com isso seu pescoço cresce um pouco. A característica é transmitida a seus descendentes até que tivéssemos hoje a girafa como ela é. Na segunda hipótese, mais provável, a girafa de pescoço curto morre sem ter tido a chance de transmitir sua carga genética às gerações seguintes. Quer dizer, fraca e doente, não teve como competir com outras mais adaptadas para fecundar ou ser fecundada. Ao longo de muitas gerações restaram apenas as girafas com pescoço comprido pra chuchu. Agora, imagine o trabalho que dá para o coração fazer chegar sangue na cabeça desse bicho. Talvez isso explique o ar distante e ausente e o olhar penetrante, como o das girafas, das pessoas que tem pescoços muito longos.

Um bicho que tinha tudo para dar errado
A girafa é um animal que tinha tudo para dar errado. No entanto é um dos mais elegantes do reino animal. Apenas ao correr é meio desengonçada. De fato, ela é uma aristocrata: adepta das idéias elevadas, não foi feita para o atletismo. Lembro de um amigo cuja sexualidade aparentemente normal mostrou-se insólita no momento em que ele descobriu uma súbita atração por esses animais. Desistiu da idéia quando percebeu que precisaria de pouco mais que um mero banquinho para dar cabo a suas intenções lúbricas.

Alessandro Martins
Alessandro Martins sempre foi o melhor aluno do colégio. A não ser pelo fato de nunca ficar em recuperação ou prova final, atividades que consumiam uma parte do tempo de férias dos outros alunos, isso nunca se converteu em vantagem. Além do que, se ele fosse um aluno médio, também não ficaria em recuperação. Ser o melhor aluno era, na verdade, desvantajoso pois, por motivos incompreensíveis, a sina desta espécie é ser sempre o último a ser escolhido para jogar bola. Raros são os melhores alunos que trazem em si dotes futebolísticos. Ele também não tinha sardas. E vocês sabem como as garotas, no primário, acham os sardentos uma gracinha.

Suor
A girafa sua. A África e os zoológicos são lugares quentes, afinal de contas. Vê-se, portanto, obrigada a beber água. Mas eis que surge aí um mistério da natureza. O sangue, ao descer a extensão do pescoço agora curvado em direção à água, o faria com tamanha pressão, sob ação da lei da gravidade, que seria comum ver cadáveres de girafas ao longo dos rios e lagos, vítimas de aneurismas e outros acidentes vasculares. Mas, vejam só, assim que ela inclina o corpo, válvulas nas artérias e veias se fecham de maneira que o sangue é freado. Na posição habitual, a pressão do sangue, bombeado por um potente coração, é controlada por um complexo de artérias finíssimas que, não à toa, é chamado de Sistema Admirável.

O zoológico
Não lembro exatamente daquela tarde em que a fotografia foi feita. Estávamos todos lá. Eu, Bárbara, suas irmãs - Daniele e Andréia -, nossas mães. Mal lembro da foto. Lembro porém de Bárbara a estender um pedaço de mato para o bicho e ele levar aquela língua roxa em direção à sua mão. Aquela cena, para mim, foi o coice da girafa.

Lágrimas
Ao retornar o pescoço - que, apesar de longo, tem apenas sete vértebras - a tendência seria que o sangue retornasse tão rapidamente do cérebro para o resto do corpo que a girafa bambearia e desmaiaria a todo momento. No entanto, elas são dotadas de um tecido esponjoso na parte de trás da cabeça que, embebido por um tempo no sangue do bicho, impede tal chilique. O que isso tem a ver com lágrimas? Nada.

O coice da girafa
O coice da girafa é tudo aquilo que foi vivido e não mais poderá acontecer. Trata-se de uma categoria de acontecimentos repleta de primeiras vezes. O primeiro beijo. O primeiro chocolate. A primeira paixão. Cada pessoa tem sua lista. Mas o coice da girafa são fatos que sequer se repetem, reduzindo-se não só a primeira, mas sim a uma única vez. Por exemplo, a infância passou e não voltará, a juventude passou e não voltará, ano passado passou e não voltará. Vemos filmes, álbuns de fotografia, escutamos e compomos canções, preparamos comidas com sabores que jamais se repetirão, pintamos, escrevemos. O mundo é repleto de homens mais velhos que se relacionam exclusivamente com mulheres mais jovens. Estão atrás do coice da girafa, em busca de uma adolescência absolutamente perdida. As mulheres fazem plásticas, lipoaspiração, aplicam toxinas no rosto como se a juventude fosse esculpível, escavável. Estamos todos na arqueológica epopéia pelo coice da girafa.

O coice da girafa, no entanto, acontece a todo tempo, em todo lugar. Na verdade, basta ficar atento. As girafas estão escoiceando por aí. Como loucas. E a gente nem vê.

Talvez por isso, aquela fotografia esteja colada à minha geladeira por magia do magnetismo. Nela, Bárbara Guedes ainda é a campeã de ginástica olímpica, Alessandro Martins, o melhor aluno do colégio. Os dentes feios do garoto só são vistos porque seu sorriso vai de orelha a orelha.

E o que isso tem a ver com lágrimas?
Tudo. A girafa contaria o segredo. Mas as girafas, como se sabe, não emitem qualquer tipo de som.

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