Querida,

não fiquei magoado com o fim de nosso relacionamento. Acho normal que tudo tenha um começo, um meio e um fim. O repentino ponto final em nossos encontros nada mais foi que um evento natural. A propósito de fenômenos da natureza, considere que a causa da destruição quase que integral de todos os seus LPs antigos foi nada além que a passagem de um furacão. Creio que, assim, será muito mais fácil aceitar a perda. Digo quase integral porque, a exemplo do que ocorre nos grandes cataclismos, alguns itens foram surpreendentemente poupados. Tais como o disco Rain Dogs, do Tom Waits, e o Grande Circo Místico, de Chico e Edu. Coincidência ou não, os dois de minha propriedade, levados por uma suave brisa a seu lugar de direito.

Concordo quando você diz que nosso encontro foi algo acidental, que não deveria ter acontecido. Por isso, conto com sua compreensão no sentido de que eu não pretendia contar a ninguém de seus problemas de flatulência noturna. Foi mero acaso quando escrevi um texto altamente reflexivo e erudito sobre o assunto. E também por acaso cliquei sobre o botão de enviar do meu gerenciador de correio eletrônico que, sob a supervisão dos mistérios da informática, fez com que as tais palavras chegassem a toda a minha lista de endereços. De forma alguma faria isso de propósito, pois acho que isso poderia cheirar a vingança barata. De fato, o termo “cheirar”, nesse caso, soa de mau gosto.

Sim, devemos encarar as coisas como adultos. O fato de eu ter deixado a conta da confeitaria colada com um imã na porta de sua geladeira é apenas uma maneira de dizer que, apesar de eu nunca ter gostado de folhados, você insistir que eu os comesse e os pagasse, jamais magoou-me. Nunca fui enjoado para comida. Sabendo disso, tenho certeza de que você não vai se melindrar. Procurei calcular a quantidade de doces baseado na sutil ciência da geometria, inspirado nas formas mais arredondadas que assumiu nos últimos tempos. Creio que a matemática é justa. O número da conta para o depósito está logo abaixo. Vai notar que não será uma soma, como direi, magra.

Não, não ligo para essas coisas da forma física. Celulite, estrias e flacidez nunca foram problema para mim. Por isso mesmo, para demonstrar o meu desapego às baixezas da matéria, publiquei na internet aquela foto sua em que todas esses atributos - pouco abonantes, mas efêmeros diante da grandiosidade e do mistério do Universo - aparecem e concordam em gênero, número e grau com minha benevolência quanto a essas agruras femininas. Sobretudo em número e grau, dada a quantidade e a qualidade das tais. Está tudo ali, a provar que eu escolhi viver esses meses a seu lado sem me importar com esses problemas.

Sei que a diferença entre amigos e parentes é que estes a gente não escolhe enquanto aqueles sim. E compreendo que você teria escolhido, se pudesse, uma mãe menos linguaruda e um pai menos fedorento e corrupto. Por outro lado, tenho minhas dúvidas, uma vez que a maioria de seus amigos, aqueles a quem supostamente você poderia selecionar, mal sabe usar os talheres ou utilizar as palavras no plural, talvez por alguma má-formação do aparelho fonador que resultou na dificuldade de falar o “s”. Só posso supor, então, uma certa inclinação e bondade sua para aqueles que, vítimas do péssimo sistema escolar de nosso país, aprenderam a digitar monstrinhos gramaticais como “vc”, “qué tc?”, “kerida”, “o q c tah fazndo” ou “hepistemolójico” e, por conclusão, que devem falar “prástico”, com uma naturalidade impressionante, quando entabulam uma palestra com uma senhorita. Até mesmo com você que possuía uma bela coleção de LPs antigos.

Toco novamente no assunto porque sei que eles, os LPs não farão falta, uma vez que você não os escutava muito ultimamente. Os seus CDs de funk carioca estão a salvo, no entanto, guardados com sua coleção de calças da Gang. Não se preocupe: nenhum amigo meu ou seu saberá que você gostava de ser chamada de cachorra em certas ocasiões. Cuidei de mencionar esse fato apenas às amigas. Claro, somente com o propósito de perguntar se isso afinal era normal ou não. Depois de uma hercúlea pesquisa de campo com todas elas, concluí que era algo corriqueiro, pois, antes mesmo de eu chegar ao fim da longa lista, todas elas já tinham conhecimento do problema. Afinal, se tal fato constituísse aberração tenho certeza de que todas teriam guardado segredo. Pode ficar tranqüila, pois isto só pôde me fazer concluir que você tem uma sólida rede protetora de amigas, preocupadas com sua saúde mental e sexual.

Você deixou algumas roupas aqui em casa. Para aproveitar tamanha conveniência, aproveitei para somar alguns pontos à sua tendência à caridade - dada sua já referida rede de amigos analfabetos, semi-analfabetos e analfabetos funcionais - e as doei todas à campanha do agasalho. Não sei o que os mendigos farão com a bolsa Prada, mas aquele casaco Chanel parece quentinho. Não, não precisa agradecer.

Dei essa informação também para sua amiga, aquela de quem você disse ter sutilmente emprestado esses itens, naquela época em que nós nem nos conhecíamos. Ela, no entanto, não lembrava de você ter pedido nem a bolsa nem o casaco. Disse algumas palavras pouco dignas a seu respeito. Pensei em reagir, mas lembrei-me de sua complacência com relação aos amigos menos educados. Calei-me quanto a esses adjetivos e nem os repetirei para preservar seus olhinhos. Nem eu nem você temos culpa se ela tem memória fraca.

Porém, diante disso, não resisti e, para testar o ímpeto da tão precoce caduca, perguntei se ela teria dado pela falta de certas jóias e insinuei, por alto, a possibilidade de elas também terem sido emprestadas a você.

Se a polícia bater na sua porta, ignore. Ela falou que daria queixa, mas em se tratando de uma mulher visivelmente senil, não devemos levar nada que venha dela a sério. Não esqueça de mencionar a tal história do empréstimo aos policias pois eles podem ficar comovidos pela novidade do argumento.

Mas, se ainda assim insistirem em levá-la para trás das grades, não se preocupe. Eu irei visitá-la.

Afinal, a partir de hoje, somos apenas bons amigos.

Beijos fraternos
do seu.

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