Crônicas e contos de Alessandro Martins
11 Sep 2007
Acreditava que as mulheres eram tomadas por demônios e que os orgasmos eram eles a sair do corpo delas pelos poros. Partiu por seu mundo a executar exorcismos. Relatava em seu diário, em páginas já no fim, os diversos tipos com os quais havia cruzado. Era uma época em que treva e luz conviviam e desenhavam coisas no contraste.
Lembrava da avó a mostrar as figuras de santas, com olhos voltados para o alto.
- Estão em êxtase - dizia a velha.
Tocadas pelo que havia de divino, estavam libertas de todo o mal, no registro de um segundo antes de caírem ao chão, tomadas de convulsões ou de moleza das pernas ou de rigidez do corpo, conforme o caso.
Havia visto de tudo.
Havia visto mulheres que, de repente, desandavam a falar outras línguas sob o peso de seu corpo.
Tinha visto demônios que se manifestavam aos gritos, como se fosse doloroso sair daquele corpo feminino onde até então habitavam, na doçura.
De fato, algumas delas relatavam a sensação de morte iminente, como se a alma fosse lhes deixar a morada naquele instante. Algumas queriam não morrer mas matar. Morrer, matar, não há diferença então. Morre e mata-se e no momento seguinte pergunta-se quem é, onde está, para onde se vai, pois o mundo é louco e de ninguém.
Outras se debatiam e fincavam-lhe as unhas na carne como se estivessem em queda e precisassem se agarrar a algo. Carregava, por isso, inúmeras cicatrizes.
As que subitamente se convertiam de dóceis anjos para feras selvagens e começavam a agredi-lo com tapas e até socos alternados com lambidas e beijos também deixavam marcas, mas menos perenes.
O demônio saía com a promessa de que encher o corpo de furos ou trespassá-lo de agulhas, brincos e enfeites seria a delícia.
Certas vezes, nessas horas, ele sentia um leve perfume de alfazema. Podia ser também jasmim a emanar do corpo suado, dos cabelos puxados, dos braços extenuados, das pernas entrelaçadas. E, depois, observava, cuidadoso, como quem observa um bebê, como quem cuida para que sonhos bons não se transformem em sonhos ruins no caudal do sono. Dava a ela, quem fosse, uma guirlanda de olhar, ornava-lhe a face com lágrimas devotas, suspiros cansados de guerreiro.
Conheceu as que se libertavam de seus demônios em silêncio, como se rezassem. Ou como se ouvissem vozes que contavam segredos que mesmo a ele - conhecedor dos mistérios gozosos que era, da anunciação à Maria ao reencontro da criança no templo - jamais seria dado conceber.
As que davam um gemido curto e seco, interrompendo a respiração ofegante a planejar sinfonias no silêncio noturno, como se tivessem sido pegas de surpresa. Ou como se um pássaro tivesse escapado pela boca entreaberta.
Músculos retesados, mãos crispadas, lugares comuns, viu de todos os tipos. Nunca comuns. Todos assombrosos. Sempre sobrenaturais. Mulheres possessas se vê na cama.
Rezava muito ele também.
Não sabia que tudo isso não era o demônio saindo quem provocava.
Era Deus. Ao entrar.
2 comentários para "Exorcista"
Alessandro, que demais esse texto! Ritual divinamente erótico! Amei!!!
Vou até ler por telefone para um amigo meu! Demais! Demais!
=)
Divino!
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